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Porque Eu Não Creio no Aniquilacionismo


Dante e Virgílio no Inferno por William Bouguereau.

Eu penso que a doutrina do Aniquilacionismo é uma resposta emocional, até compreensível, para um problema que é inexistente. O Aniquilacionismo, a crença de que os ímpios deixarão de existir, é uma reação justa contra a crença dos horrores desproporcionais da doutrina de um Inferno supostamente real. É mais razoável crer que os ímpios serão punidos com a não-existência, e assim eles serão punidos de alguma forma, do que crer que eles serão torturados sem fim por um deus que seria supostamente Amor. É óbvio que a doutrina do Inferno é totalmente descabida e desproporcional. Ela é uma invenção medieval tardia, incorporada ao Catolicismo, e herda o conceito pagão de um deus irado e passional.

O Catolicismo não é a Ortodoxia. A verdadeira pornografia do “Inferno de Dante” que o Catolicismo entende por real de uma forma ou de outra (basta que vejamos as visões de Dom Bosco), não é a doutrina ortodoxa. O Catolicismo apresenta um deus passional, que tortura e machuca, e exige que os cristãos se punam em reparações para satisfazê-lo. Um deus dividido entre o amor e a justiça, porque ele não consegue amar sem punir. Um deus que precisa se vingar do pecador, tanto em vida quanto após a morte dele. O deus católico não é um deus de amor, porque se ele fosse amor, os católicos jamais teriam criado a Inquisição. É previsível que uma doutrina como o Aniquilacionismo venha para refutar essa concepção tão baixa e dividida de Deus. Porém, a doutrina ortodoxa mostra que essa concepção não é baseada na realidade, é uma heresia, daí que o Aniquilacionismo não tem razão de ser.

A realidade é diferente do Catolicismo. Deus é realmente amor. Ele ama de verdade, sem estar dividido entre Amor e Justiça. Ele ama a vida, do justo e do pecador, e por isso a preserva para sempre. É o que diz o Livro da Sabedoria: Deus ama a vida, por isso ela subsiste (Sabedoria 11:25-26). Por isso o Aniquilacionismo é impossível. Deus não põe um fim à existência, justamente porque Ele é Amor. Como Deus também é impassível, inerentemente imune às emoções, Ele ama de forma constante, sem oscilar. Ele nos ama pelo que somos, impassivelmente. O que fazemos ou deixamos de fazer, não pode mudá-Lo. Por isso, por mais difícil que seja admiti-lo, Ele ama o Diabo tanto quanto Ele ama um santo. E porque Ele é amor, ambos, o Diabo e o santo, subsistirão para sempre.

Deus realmente pune, mas não como entende o Catolicismo. Ele pune o malfeitor para dar um freio ao mal e não porque isso O satisfaz. Tão logo o pecador se torna impotente para fazer o mal, Ele deixa de puni-lo. A morte rende o pecador impotente para continuar pecando, logo, após a morte, Deus não pune mais o pecador. Essa é a doutrina ortodoxa. Deus não está divido entre o Amor e a Justiça. Ele ama, pune apenas enquanto o mal está em curso, e de forma perfeitamente equilibrada e proporcional.

Os pecadores experimentarão o Inferno. Mas o Inferno não é um lugar ou uma prisão, tal como ensina o Catolicismo. O Inferno, ou melhor, o Lago de Fogo e Enxofre (Apocalipse 20:10) é a própria glória de Deus. É o Lago da glória de Deus (as pedras ardentes de enxofre são um simbolismo antigo para a deidade). O Inferno, o Paraíso, a Árvore da Vida, a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, são todos uma mesma coisa: a visão da glória de Deus. A diferença entre o Inferno e o Paraíso não é o que eles são, mas como o pecador os experimenta. O Inferno e o Paraíso são a postura do pecador ao contemplar a glória eterna e luminosa de Deus. A postura do pecador pode ser de repulsa, como os demônios durante um exorcismo; ou de alegria e aceitação, como os santos durante uma visão divina. Porém ambos, os demônios exorcizados e os santos em visão, estão diante da mesma coisa: a glória divina.

O Inferno é fogo, porque a glória de Deus é luminosa e ardente como o fogo. E não porque ele seria um lugar que foi queimado por incêndios. Desse fogo, há dois testemunhos aparentemente conflitantes. A julgar pelo milagre do Fogo Sagrado, é um fogo divinal que não dói (vejamos também o Livro de Êxodo 3:2-3). É um fogo que gera calor, mas não causa uma ardência dolorosa. Já a julgar pelas queixas dos demônios durante os exorcismos, é um fogo que realmente queima. Essa aparente contradição pode ser explicada na suposição de que o fogo da glória de Deus normalmente não arde, mas que só arde durante os exorcismos, porque os espíritos maus precisam ser imediatamente expulsos. Mas tão logo eles sejam expulsos, o fogo deixa de arder. O que se pode dizer, e o que se sabe pela experiência e pelo testemunho de São Serafim de Sarov, é que ele não necessariamente dói, mesmo se toca um pecador que não é santificado ou preparado para ele.

O Inferno atormenta porque quando o pecador morre, a alma perde o meio corpóreo para realizar as suas paixões. É como uma crise permanente de abstinência dos vícios. O sofrimento do Inferno são as nossas paixões bestiais que ardem sem satisfação, em nossa completa impotência. Se não aprendermos a viver como Deus, impassíveis, as nossas paixões e vícios vão nos torturar depois da morte e eternamente. O mundo que Deus criará após a ressurreição geral dos mortos, é um mundo imortal que será inóspito para as nossas paixões atuais, por isso o perigo do sofrimento infernal. A doutrina ortodoxa da santificação é a doutrina de como o cristão pode vencer essas paixões e tornar-se um santo impassível. A doutrina ortodoxa da salvação é a doutrina de como o cristão pode contemplar a visão da glória de Deus, sem que ela vire um Inferno.

Essa verdade do sofrimento infernal, que em nada é similar ao Inferno Católico, explica porque envelhecemos e morremos. Nós envelhecemos e morremos não só porque nós não existíamos e tendemos a voltar naturalmente para a não-existência. Mas sobretudo porque a velhice diminui o poder das nossas paixões. Apenas poucos cristãos se tornam santos, ou seja, mortificam completamente as paixões, ainda em vida. A grande maioria morre passional. A morte do corpo serve para tornar o processo de abandono das paixões (o processo chama-se “ascetismo”) mais simples. O processo ascético é mais fácil de se completar, sem a própria carne para atrapalhá-lo.

Mesmo que não completemos o processo, ou nos recusemos a fazê-lo ainda que desencarnados, Deus, impassível, nos ama incondicionalmente. Ele quer que vivamos com Ele eternamente, mesmo que não queiramos viver sem satisfazer as nossas paixões, ou que o queiramos longe de nós. Nessa postura infernal, a nossa vivência é triste e melancólica, similar a um filho doente mental que tem que ficar algemado para ser controlado, porque o amor dos pais não permite que o doente fique longe deles. É similar ao amor parental a um suicida, que é alvo do amor da família, mesmo rejeitando-o e não compreendendo-o ao ponto de tentar se matar. É similar ao amor de Deus que não afasta os Seus filhos doentes, mesmo que eles O queiram afastado. Somos rendidos impotentes, sofridos em nossa abstinência eternamente, mas perto de Deus, imersos em Sua glória.

Deus não pune, não está irado conosco depois que somos rendidos impotentes na nossa morte. Somos nós mesmos que causamos o ardor do inferno, quando em contato com a glória de Deus. Como não há punição após a morte, o Aniquilacionismo deixa de ter razão de ser. É uma pseudo-refutação para uma mentira (o Inferno Católico).

A Maldição de Canaã / The Canaan’s Curse

O resumé

The resumé

Cão não socorreu o seu pai Noé de seu estado de embriaguez quando ele esteve inconsciente, intoxicado e nu. Cão havia também zombado de seu pai perante os irmãos. Os irmãos de Noé certamente se surpreenderam da atitude suspeita de Cão, porquanto foram amorosos e respeitosos com Noé. Foram socorrê-lo e cobri-lo, tomando o cuidado de não olhar para a sua nudez (Gn 9:18-27).


Ham didn’t help his father Noah on the inebriety when he was fainted, intoxicated and nude. Ham had mocked his father before his brothers. The brothers of Ham certainly were surprised by the bad action of Ham, since they were very compassionate and respectful to Noah. They went in help to their father, they covered him, avoiding to see his nakedness (Gn 9:18-27).

Em resposta ao desprezo, Noé amaldiçoou o caçula de Cão, Canaã, dizendo que os descendentes de Canaã seriam servos dos descendentes dos irmãos de Cão, Sem e Jafé. E ademais, que os filhos de Jafé se expandiriam pela Terra e que habitariam nas tendas de Sem.


In response to the scorn, Noah cursed the youngest of Ham, Canaan, saying to him that the Canaan’s descendants would be servants of the descendants of the brothers of Ham, Shem and Japhet. Moreover, the Japhet’s sons would spread upon the Earth and they would live under the tents of Shem.

Os desdobramentos factuais


The subsequent facts

A sorte de Canaã acarretou a servidão e, eventualmente, a destruição dos cananeus nos séculos seguintes. Isso se deu principalmente por mãos israelitas, gregas e romanas. Por mãos jafetitas e semíticas, tal como predito.


The fortune of Canaan had as consequence the serfdom and eventually the destruction of the Canaanites in the following centuries. That happened mainly by the hands of the Greeks, Romans and Israelites. By Japhetic and Semitic hands, such as predicted.

Outros povos, também filhos de Cão, sofreram. A condenação de Noé foi interpretada como uma permissão para a escravização dos negros, enquanto filhos de Cão. Os negros sempre foram identificados como descendentes de Cuxe, irmão de Canaã. Eles foram conhecidos tanto pela história secular como pela história sacra como os cuxitas, os núbios, os etíopes, os africanos, etc.


Other people, also Hamites, suffered. The condemnation of Noah was interpreted as a permission for the slavery of the Negroes, because they are Ham’s sons. The Negroes were known by the sacred and secular history as Cushites, Nubians, Ethiopians, Africans, etc.

Muitos, entre os abolicionistas e os afrofílicos em geral, apontaram corretamente a contradição dessa suposta permissão. A condenação recaiu especificamente sobre Canaã e não sobre Cuxe. Ademais, a suposta permissão também implica que os sineus deveriam ser escravizados. Os sineus são a raça mongolóide e foram gerados pelo próprio Canaã (Gn 10:17). É da palavra “sineu” donde vem o adjetivo pátrio “sino” relativo aos asiáticos.


Many amongst the abolitionists and the Afrophilics pointed out the contradiction of that alleged permission. The condemnation fell specifically upon Canaan, not upon Cush. Additionally, the alleged permission also implies in the slavery of the Sinites (Gn 10:17). The Sinites are the Mongolic race. They were generated by Canaan himself.

A escravidão dos sineus nunca foi praticada pelos ocidentais e nunca foi reclamada como um direito teológico. A própria parcialidade da interpretação do ato de Noé, praticada exclusivamente contra os negros e não contra todos os filhos de Cão, mostra a desonestidade daqueles que a defendem.


The slavery of the Sinites never was practiced by the Westerns and it never was reclaimed as a theological right. This partiality of the interpretation of the Noah’s act, which is exclusively imposed against the Negroes and not against the rest of the Ham’s sons, shows how dishonesties are those who defend it.

No caso específico do Cristianismo, existiu uma larga tradição de apoio à escravidão. Evidentemente, a tradição não é exclusiva de nossa Religião.


In the specific case of the Christianity, there was a large tradition for the support of the slavery. Obviously, the tradition isn’t exclusive of our Religion.

A realidade jurídica



The judicatory reality

Mas, ainda que a interpretação esteja errada, existem certos aspectos que merecem consideração. Na Antiguidade, quando um pai queria transmitir a herança ao seu filho, geralmente, só tinha a opção de fazê-lo em meio oral. A escrita, embora existisse desde Noé, não era um meio viável e disponível para o vulgar. Mesmo nos nossos dias, séculos depois de esforços estatais ostensivos pela alfabetização em larga escala, inclusive com a imposição de penas, há pessoas que simplesmente não sabem ler e escrever.


Even if the interpretation is wrong, there are some aspects which deserve consideration. In ancient times, when a father wanted to transmit the heritage to his son, generally, he had the option to do it solely by via oral. The writing, although it was existent since Noah, wasn’t a viable or a disposable mean for the common people. Nowadays, centuries afterward of state efforts towards the alphabetization in large scale — which includes threats of legal penalty — there are people who simply doesn’t know read and write.

Os exemplos bíblicos de transmissão oral de direito, são as bençãos transmitidas pelos Patriarcas Abraão, Isaque e Jacó a seus respectivos filhos. Eles espelhavam o costume dos sumérios[1], que certamente foi originado do próprio Noé. Os sumérios haviam se estabelecido na Mesopotâmia, e também Abraão.


The biblical examples of oral legacy of judicatory right, are the blessings transmitted by the Patriarchs Abraham, Isaac and Jacob to their children, respectively. They mirrored the custom of the Sumerians[1], which was certainly originated from Noah. The Sumerians had settled themselves in Mesopotamia, and also Abraham.

Conclusivamente, Noé, na condição indiscutível de patriarca de todo o gênero humano após o dilúvio, legou de jure a Jafé e a Sem a herança da terra, excluindo Cão de sua porção. Porque ele não citou Cão. A mera omissão bastou para privá-lo de direitos. Como exemplo, a simples e mera omissão de Isaque, fez Esaú perder toda a herança que lhe era de direito por primogenitura (Gn 27:33-37). Porque a transmissão oral era um ato jurídico de facto e de jure, Isaque não podia desdizer o que foi transmitido oralmente a Jacó.


Conclusively, Noah, in the indisputable position of Patriarch of the post-dilluvian mankind, legated “de jure” to Japhet and Shem the whole Earth. With the exclusion of Ham. The mere omission of Noah was enough to deprive Ham of rights of heritage. For example, the mere and simple omission of Isaac had done Esau to lose all heritage which belonged of him by the firstborn’s right (Gn 27:33-37). Inasmuch as the oral transmission was a judicatory act “de facto” and “de jure”, Isaac couldn’t unsay what he had said for Jacob.

Pelos dizeres de Noé, Jafé dominaria a terra sob os auspícios de Sem. Uma parte dessa herança já é realidade entre nós. Deus Pai deu a Cristo ressurreto, que é da família de Sem, o governo sobre os céus e a terra. Os cristãos estão efetivamente nas tendas de Sem. Embora o sentido do ato de Noé é fundamentalmente racial: ele afeta as famílias eleitas entre os jafetitas e os semitas.


By the words of Noah, Japhet will dominate the earth under the auspices of Shem. Part of that heritage is already a reality among us. God, the Father, has given to the Resurrected Son, who belongs to Shem’s family, the whole government of the heavens and the earth. The Christians are effectively living under the tents of Shem. Although the meaning of the Noah’s act is fundamentally racial: it affects the elected families amongst Japhetics and Semitics.

Portanto, a primeira coisa a transparecer, é que Noé não amaldiçoou Canaã ou Cão num sentido místico. A condenação trata-se de um problema estrita e essencialmente jurídico. Essa questão legal não é privilégio de Canaã ou de Cão. Mas, dentro da estrutura de transmissão bíblica de herança, afeta todo e qualquer homem que não é um primogênito habilitado.


Thence, the first thing to be clarified, is that Noah didn’t curse Canaan or Ham in a mystical sense. His condemnation is a problem strictly and essentially judicatory. This legal question isn’t a privilege of Canaan or Ham. But, inside of the structure of biblical transmission of heritage, it affects all and each man who isn’t a habilitated firstborn.

O primogênito, tendo o direito de posse exclusiva da riqueza, recebe, por outro lado, uma responsabilidade. Ele está obrigado a sustentar os irmãos que não possuem herança. O sustento é uma relação incondicional de clientela. O primogênito, titular da terra herdada deve cuidar de seus irmãos e os irmãos devem servi-lo na terra da família. Essa é a servidão da qual a Bíblia legisla. É um vínculo benigno, não-violento, de clientela.


The firstborn, having the right to possess exclusively the wealth, receives, on the other hand, a responsibility. He’s obliged to take care of his brothers who doesn’t possess heritage. That support is an unconditional relation of patronage. The firstborn who titles the inherited land must take care of his brothers and his brothers must serve him. That’s the serfdom regulated by the Bible. It’s a benign link, non-violent, of patronage.

A Bíblia condena a escravidão, enquanto um crime que envolve sequestro, trabalho alienante e exaustivo, e violência gratuita contra o escravo. Mas ela estatui um regime de servidão. Pela qual, através da própria consanguinidade dos envolvidos e da existência de um afeto natural, presume obviamente uma relação de amor parental e racial entre o titular dos bens e os seus irmãos. É a benignidade familiar intrínseca do regime de servidão que o difere da malignidade da escravidão.


The Bible condemns the slavery as a crime whence is involved the kidnapping, the alienating and the exhaustive work, and the unexplainable violence against the slave. But the Bible regulates a serfdom regime. Which, by the existence of kinship and of natural affection, presumes evidently a relation of paternal and racial love between who is handing the goods and his dependent brothers. It’s that intrinsic benignity that differs the serfdom’s regime from the malignity of the slavery.

São essas as consequências legais do ato de Noé sobre Cão, no contexto do antigo direito de herança. Sem e Jafé receberam a terra[2]. Mas também a responsabilidade de cuidar dos filhos de Cão com misericórdia familiar.


These are the legal consequences of the Noah’s act against Ham, under the context of the ancient right of heritage. Shem and Japhet received the earth[2]. But also the responsibility to take care of the descendants of Ham with familiar mercy.

Noé condenou Cão porque estava com raiva. Contudo, iracundo ou não, a condenação é meramente redundante se ele não tinha a disposição de passar a porção de herança que cabia a Cão. Pela tradição, pode-se verificar claramente que Noé já possuía uma má disposição para com Cão[3]. Cão odiava o seu próprio pai.


Noah condemned Ham because he was very furious. Nevertheless, with wrath or not, his condemnation is simply redundant if he wasn’t disposed to legate the earth’s portion which fell to Ham. The Tradition states that Noah had a bad disposal[3] to Ham even before it. Ham also hated his own father.

Notas


Notes

  1. A História de Israel no Antigo Testamento de Samuel J. Schultz.

  2. A transmissão de herança por Noé é o verdadeiro motivo pelo qual o Evangelho de Cristo veio ao Império Romano primeiro. Os romanos são de linhagem essencialmente jafetita.

    The heritage transmission by Noah is the true reason by the what the Christ’s Gospel came firstly to Roman Empire. The Romans are of Japhetic lineage.

    O Evangelho não prosperou na Índia contemporânea aos Apóstolos ou no Egito, ambos de linhagem camita. O malogro ocorreu a despeito do esmero de São Tadeu, São Tomé e São Marcos, testemunhas oculares do Senhor e que eram poderosos em sinais e maravilhas.

    The Gospel wasn’t well succeeded in India and Egypt contemporary to the Apostles. Both the countries are of Hamitic lineage. The failure occurs in spite of the efforts St. Thomas and St. Mark who’re ocular witnesses of our Lord and they were powerful in miracles.

    Outra prova dos planos do Senhor Deus à família de Jafé, que revela a preferência de Cristo pela Europa, é a referência apocalíptica a uma das tribos jafetitas: Magogue de Gogue (Gn 10:2, Ap 20:8). A tribo de Magogue está predestinada a preencher a terra como a areia do mar. Gogue é mencionada pelo profeta Ezequiel (Ez 38) como uma representação do rei Giges da Lídia, da família dos gregos, implicando que Magogue é o próprio reino da Lídia.

    Another proof of the plans of the Lord to the family of Japhet, which unveils His preference to Europe, is the apocalyptic reference to the one amongst of Japhetic tribes: Magog of Gog (Gn 10:2, Rv 20:8). The Magog’s tribe is predestinated to fill the Earth like the sands of the ocean. Gog is quoted by Ezekiel (Ez 38) as a symbol of the king Gyges of Lydia who’s from the Greeks, implying that Magog is Lydia itself.

    O historiador Flávio Josefo identifica Magogue, citada também por Ezequiel, como o povo da Scítia, habitantes da Ásia Central, da Ucrânia e do sudoeste da Rússia, abaixo dos Urais. Assim fundamento jafetita do simbolismo de São João é desvelado, confirmando o costume do Senhor Soberano em eleger uns e rejeitar outros.

    Magog is identified by Flavius Josephus as the people of Scythia, inhabitants of the Central Asia, of Ukraine and of the South’s Urais. Thus, the Japhetic basis of the symbolism of St. John is unveiled, which also confirms the custom of the Lord of elect ones and of reject others.

  3. Sobre o provável motivo da ira de Noé contra Cão:

    On the probable cause of the wrath of Noah against Ham:

    No original hebraico, parte do nome Naamá, irmã de Tubalcaim, da linhagem proibida de Caim, consta como infixo de Canaã. Enquanto que na Septuaginta, parte do nome de Cão consta como prefixo do nome de Canaã. As transliterações são evidencias leves de que Canaã significa uma combinação dos nomes Cão e Naamá, sendo a última portanto, uma das prováveis esposas que sobreviveram ao dilúvio. Há o fato histórico de que uma das cidades cananéias conquistadas pela tribo de Judá se chamava “Naamá” (Js 15:41). A nomeação pode ter sido um memorial à mulher da linhagem de Caim como ancestral dos cananeus.

    In the Hebraic Bible, part of the name of Naamah, who is sister of Tubal-Cain, from the forbidden lineage of Cain, is the prefix of Canaan. In the Greek Septuagint, Part of the Ham’s name is the prefix of Canaan. These transliterations are tiny evidences of the meaning of Canaan as a combination of the names of Ham and Naamah. Namaah could have been one amongst the wives who had survived to the deluge. It’s very likely. There’s also the historical fact of that one Canaanite city conquered by Israel was named as Naamah (Js 15:41). The nomination could have been a kind of memorial to the woman of the Cain’s lineage who was the female ancestor of the Canaanites.

    Há tradições religiosas que afirmam ser Naamá a esposa de Noé, entretanto.

    There are religious traditions that affirm to be Naamah the wife of Noah, however.

    Contra isso, deve-se considerar o seguinte: Noé foi escolhido pelo Senhor Deus por ser justo e perfeito racialmente em sua genealogia setetita. Não é razoável crer que o Senhor, que escolheu Noé porque pais dele não se amalgamaram com os filhos de Caim, toleraria que Noé tomasse por esposa Naamá. Devemos nos lembrar que o Senhor ordenou aos hebreus que se circuncidassem. Quando Moisés, o líder do povo, negligenciou esse dever crítico, quase foi morto por Deus (Ex 4:24-25). Deus é rigoroso nos compromissos, especialmente em relação a líderes nacionais como Moisés e Noé.

    Against this, should be considered the following: Noah was chosen by the Lord because he was just and racially perfect in his generations, from Seth. It isn’t reasonable to believe that the Lord, who chose Noah because his fathers didn’t amalgamated themselves with Cainites, would tolerate that Noah himself had taken by wife Noah. Moses, because he simply omitted himself on the critical duty to circumcise his sons, almost was killed by God (Ex 4:24-25). God is rigorous about the commitments, specially in relation to the national leaders like Noah and Moses.

    É bastante plausível a interpretação do teólogo batista John Gill, em sua Exposição da Bíblia, que Naamá tenha sido a esposa de Cão e não de Noé. Dessa feita, o motivo da ira de Noé se revela a nós: a atitude desonrosa de Cão catalisou o extravasar de uma mágoa por decepção, incrustada no coração de seu pai. Mágoa essa compartilhada por Isaque e Rebeca em relação a Esaú e às suas esposas hititas (Gn 26:34-35). Pois de Naamá, a linhagem proibida de Caim sobreviveria. Já que Cão era o seu filho caçula, Noé alvejou o filho caçula de Cão, Canaã. Como uma espécie de simbolismo.

    It’s very plausible the interpretation of the Baptist theologist John Grill, in his exposition of the Bible, about Naamah to be the wife of Ham. Thence, the motif of the wrath of Noah is unveiled. The scorn of Ham was the apogee of a tense relationship between son and father. Ham was a deception to Noah. The Noah’s sorrow was shared by Isaac and Rebecca in relation of the feelings about their son Esau. Esau also had chosen women amongst a bad lineage (Gn 26:34-35). Noah saw that from Naamah the forbidden lineage of Cain would survive. Since Ham was the youngest, Noah condemned the Ham’s youngest, Canaan. As a symbolism.

    Um outro motivo da mágoa de Noé contra Cão, é que Cão era um praticante de magia, algo que Deus abomina. Cão é, segundo a Tradição, o verdadeiro fundador do Zoroastrismo.

    Another reason to the wrath of Noah, is because Ham was a magus. God hates it. Ham is, according to the Tradition, the true founder of the Zoroastrianism.

A Definição Teológica de Bastardo / The Theological Definition of “Bastard”

(Hb 12:8)

Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos.

But if ye be without chastisement, whereof all are partakers, then are ye bastards, and not sons.

Um entendimento moderno e muito comum do que seja uma criança bastarda, é o fato dela ter sido concebida fora de um matrimônio civilmente legítimo [1]. A criança ilegítima era universalmente considerada como que desprovida de herança, e mesmo de cidadania, como atestam a cultura pagã da Grécia Antiga e as Escrituras Sacras, embora o Estado de Direito moderno tenha repudiado essas noções milenares [2].


A modern and common understanding defines a bastard like a child who is conceived out from a civilly and legitimate matrimony. The illegitimate child was universally regarded how deprived of heritage and citizenship. Thus they understand millennially, the pagan culture of the Ancient Greek and the Sacred Scripture, notwithstanding the modern State have wished the contrary.

Considerando que no Brasil, o direito à cidadania é essencialmente jus solis, podemos verificar rapidamente que essa noção jurídica vai de encontro às Escrituras Sacras, que favorecem unicamente o conceito jus sanguinis (Gn 32:9-12; Is 10:22). Uma criança, biblicamente, não possui o direito à herança e à cidadania apenas e tão somente por nascer no interior dos limites políticos de um país. Mas o jus sanguinis também é condicional.


A child has no right to citizenship and to heritage just and solely by birthing inside of the political boundaries, biblically speaking. That concept of jus solis isn’t what the Scriptures defend. Rather, the concept of jus sanguinis, the citizenship’s right by blood, conditionally.

Nas Escrituras Sacras, nem toda criança que compartilha do sangue de seu pai, está apta a receber os seus privilégios de herança. Como exemplo, Abraão e seu filho Ismael. Ele foi concebido de Agar, a egípcia (Gn 16-17). Ambos, mãe e filho, foram deserdados por Abraão e exilados. Ham e sua esposa Naamá viram os seus filhos privados de herança. Jafé e Sem receberam-na ao invés deles. Esaú e as suas esposas cananéias foram igualmente despojados, pela Providência de nosso Senhor (Gn 25-27). A mesma má fortuna abateu-se sobre as esposas estrangeiras que os israelitas tomaram durante o cativeiro babilônico. Os filhos que elas geraram, não obstante de pais israelitas, foram expulsos de Israel. Consequentemente, os casamentos foram anulados (Ed 10). Portanto, quando os pais de um infante não possuem uma linhagem compatível, o filho perde a cidadania.


In the Scriptures not every child who shared his father’s blood is able to receive the privileges of heritage. For example, Abraham and his son Ismael. He was conceived from Hagar, an Egyptian (Gn 16-17). Mother and son were renegaded by Abraham and exiled by him. Ham and his wife Naamah saw his children deprived of heritage. Sem and Japhet received it instead of them. Esau and his Canaanite wives were equally deprived by the Divine Providence (Gn 25-27). The same misfortune fell on the foreign wives that the Israelites had taken during the Babylon captivity. The children who they conceived, notwithstanding from Israelite men, were expelled from Israel. Subsequently, the marriages were nullified (Ed 10). Therefore, if the fathers of an infant have no a compatible lineage, the child will lose his citizenship.

Em profundo contraste a esses exemplos, uma criança cujos pais são da mesma linhagem familiar é cidadã plena de uma nação. Independente das circunstâncias em que foi concebida. Temos o Rei Salomão, legalmente bastardo na concepção moderna do direito civil. Ele foi concebido de um casamento entre Davi e Bate-Seba, contraído após um adultério e oficiado em poligamia. Não obstante as circunstâncias, Salomão era o favorito do nosso Deus Trino e Ele elevou-o ao ao trono davídico. Da mesma forma Jefté, que embora filho de uma prostituta israelita, foi elevado a Juiz de Israel (Gn 11). Um outro exemplo dramático da realidade da cidadania mediante o sangue puro do infante, são os gêmeos de Tamar. Ela é bisneta de Naor, irmão de Abraão. Os gêmeos foram gerados de um relacionamento incestuoso e adúltero com Judá (Gn 38)[3]. Os seus descendentes herdaram a terra de Canaã e foram contados na genealogia de nosso Senhor (Mt 1:3). Por outro lado, os infelizes maridos amalgamados de Tamar foram mortos por Deus.


In deep contrast to the examples, a child whose fathers are from the same familiar lineage has full citizenship of his nation. Regardless the circumstances under what he was conceived. There is the King Solomon who is regarded as bastard before the modern concept of the term. He was conceived from a marriage between David and Bathsheba. The marriage was taken after a adultery and was celebrated in a context of polygamy. In spite of these things, Solomon was the favorite one of the Triune God. God Almighty put him on the throne of David. In same way, Jephthah. He was son of an Israelite whore, notwithstanding he to have been raised up as a Judge of Israel (Gn 11). An other dramatic example about the validity of the citizenship by blood are the twins from Tamar. She is granddaughter of Nahor who is brother of Abraham. The twins were conceived from an incestuous relationship with Judah (Gn 38)[3]. Her descendants inherited the Canaanite land and were counted in the genealogy of the Lord Jesus (Mt 1:3). On other hand, the amalgamated husbands of Tamar were killed by God.

Os homens israelitas foram legalmente proibidos de tomar casamento com mulheres estrangeiras. Curiosamente, Moisés permitiu que eles tomassem por esposas as virgens entre os midianitas. Isso implica que os midianitas eram da mesma raça de Israel (Nm 31:9; Dt 20:14-15). Os midianitas eram filhos de Abraão e de sua concubina Quetura[4].


The Israelite men were legally forbidden to marry to foreign women. Curiously, Moses allowed them that they took for marriage the virgins among the Midianites. The Midianites were of the race of Israel (Nm 31:9, Dt 20:14-15). They were children of Abraham and his concubine Keturah [4].

O que esses exemplos ensinam, é que o conceito bíblico de validade da cidadania, exclusivamente jus sanguinis, aplica-se tão somente à criança cujo pai e a mãe são da mesma raça, independente das circunstâncias de sua concepção. Mesmo nas mais adversas.


These examples teach that the biblical concept of citizenship is exclusively jus sanguinis. It applies solely to the child whose father and mother are from a same race, regardless of the circumstances of his inception. Even in the most adverse ones.

O fato da criança ser concebida por um casal racialmente puro não atenua o eventual pecado de fornicação que seus pais cometeram. Porém, ao contrário de uma criança gerada de amalgamação, ela não é privada de sua cidadania e nem do seu direito de herança. Assim o significado teológico de bastardo reporta à amalgamação de seus pais e não propriamente às circunstâncias de sua concepção. Um bastardo, portanto, é uma criança cuja ascendência não é racialmente endógena.


The fact in what a child is conceived by a couple who is racially pure doesn’t attenuate the eventual sin of fornication which his parents committed. However, in contrast of a child who was generated from amalgamation, he isn’t deprived neither of his citizenship nor his right to heritage. Thus, the theological meaning of bastard is related to the amalgamation of his parents. Not properly to the circumstances of his inception. A bastard child, therefore, is a child whose the ascendancy isn’t racially endogenous.

Dessa feita, o que o autor desconhecido de Hebreus estava ensinando, é que aqueles que não são disciplinados por Cristo pertencem a um povo estranho. Literalmente a uma raça estrangeira. Ele não estava se referindo à criança racialmente pura gerada pelo pecado de adultério ou incesto. A alienação racial representa aquele que está fora da Igreja. O estranho “racial” não é disciplinado porque Cristo Jesus não o conhece como o Seu irmão “racial” (uma metonímia de espiritual).


The unknown author of Hebrews was teaching that those who aren’t disciplined by Christ belong to a strange people. Literally to a foreign race. He wasn’t referring to a child racially pure who is generated from the sin of adultery or fornication. The racial alienation represents the one who is out from the Church. The racial stranger isn’t disciplined because Christ doesn’t recognize him as Your racial brother (a metonymy to the spiritual brother).

O autor de Hebreus utilizou-se de uma figura de linguagem para pontuar que a irregularidade do bastardo está num contexto mais amplo do que um mero pecado de fornicação: um pecado de fornicação em amalgamação. Trata-se de uma circunstância agravante, figurada, que colateralmente exclui o “infante” (metonímia de ímpio) do povo de Cristo.


The author of Hebrews used of a language style to point out that the irregularity of the bastard child is under a most ample context, rather a mere sin of fornication. The sin mentioned, is a fornication in amalgamation. It is a aggravated circumstance, figurative, which collaterally excludes the infant (metonymy to the wicked person) from the people of Christ.

Moisés e a sua esposa etíope

Moses and his Ethiopian wife

Flávio Josefo, o historiador israelita do século I, relata a seguinte história:


Flavious Josephus, Israelite historian of the 1st Century, tells the history below:

Quando Moisés era jovem, a Etiópia invadiu o Egito com um estrondoso sucesso. O país foi completamente dominado e os etíopes impuseram uma forte opressão.


When Moses was youth, Ethiopia invaded Egypt with a enormous success. The country was completely dominated and the Ethiopians imposed a strong oppression.

Desesperados, os pagãos egípcios consultaram os seus deuses e os seus oráculos. O nosso Deus Trino certamente interveio, mui silenciosamente, porquanto os oráculos egípcios “aconselharam” a escolha de Moisés como general para uma contra-ofensiva contra a Etiópia. Os sacerdotes, porém, sabiam que Moisés era hebreu de escravos hebreus. Ele não foi escravizado porque adotado pela filha do Faraó. Os sacerdotes tentaram mesmo matá-lo quando bebê, porque previam que Moisés era um péssimo presságio para o Egito. Com a opressão etíope, uma grande reviravolta se deu na vida de Moisés, e os sacerdotes imploraram que ele assumisse o comando militar.


Desperately the Egyptian pagans consulted their gods and their oracles. The our Trine God certainly intervened, very silently, because the Egyptian oracles had counseled that Moses was taken as general in a counter-offensive against Ethiopia. However, the Egyptian priests knew that Moses was Hebrew from Hebrew slaves. He himself wasn’t slaved because he was adopted by the Pharaoh daughter. The priests even tried to kill the infant Moses since they had predicted that he would be a awful presage to Egypt. With the Ethiopian oppression, a great change fell upon Moses and the priests had no other option, but to beg him for help.

Moisés foi um brilhante general e derrotou a Etiópia. Isso esclarece o porquê do Senhor o escolher para liderar os hebreus durante os quarenta anos de Êxodo. E ele ainda constituiu um outro sucessor brilhante, Josué. O Senhor, nosso Deus, havia capacitado o Seu servo Moisés desde a juventude.


Moses was a brilliant general and defeated Ethiopia. That clarifies the why the Lord to chose him to guide the Hebrews throughout the forty years of Exodus. Moreover, Moses constituted an other brilliant successor, Joshua. Indeed, the Almighty God had prepared Your servant since his youth.

Essa é a história da primeira campanha militar de Moisés, conforme Flávio Josefo.


That’s the history of the first militar campaign of Moses according Flavious Josephus.

A derrota da Etiópia impressionou profundamente a princesa etíope Tarbis. Ela caiu de amor por Moisés. E conforme o costume antigo, a paz entre o Egito e a Etiópia foi celebrada por um casamento entre os nobres das coortes outrora conflagradas: o matrimônio de Moisés e Tarbis.


The defeated of Ethiopia impressed deeply the Ethiopian princess Tharbis. She fell in love for Moses. And according the ancient custom, the peace between Egypt and Ethiopia was celebrated by a marriage between the both aristocratic classes now pacified: the matrimony of Moses and Tharbis.

É interessante pontuar que os afro-supremacistas de nosso tempo, usam essa história com o intuito de auto-glorificação. Isso é natural: os chineses fazem o mesmo com a Sagrada Família, quando a retratam com uma aparência típica da raça mongol. Da mesma forma, os judeus sionistas estrategicamente tomam Cristo Jesus para si, como se Ele fosse da mesma raça deles. Ele não é. Eles fazem isso, não obstante a hostilidade figadal e atávica dos judeus que não O aceitam (e provavelmente remanescerão assim até o fim dos tempos). Não se sabe se Tarbis era negra, embora ela seja etíope. A Etiópia, também conhecida por Núbia ou Cuxe, é descrita tanto pela tradição profana quanto pela sacra, como um país negreiro.


It’s interesting to point out that the Afro-supremacists of our time use the history of Tharbis with the intent of self-glorification. It’s very natural: the Chinese men do the same with the Sacred Family when they portray her with an appearance typical of the Mongolic race. In same way, the Zionist Jews strategically take Christ for themselves as if both was shared a same race. They don’t. The Zionists do that, notwithstanding the sworn and atavistic hatred from the Jews who doesn’t accept Him (and it’s very likely that this situation will remain until the end of the times). It’s unknown if Tharbis was a black woman, although she was Ethiopian. The Ethiopia, which is also called Nubia or Kush, is described by the sacred and secular tradition as a Negroid country.

É provável que Tarbis tenha sido branca. Quando menos provável, ela poderia ter sido uma negra com traços caucasianos. Porque ela era reputada ser a filha do rei Merops, um homem de carne e osso que séculos depois foi transformado em deus pelos gregos — conforme o costume antigo de endeusar as pessoas falecidas. A linhagem de Merops, na mitologia grega, gerou o Panteão dos deuses que obviamente é retratado com deuses brancos. A mitologia dos antigos pagãos é uma forma corrupta de contar histórias, onde as fantasias são misturadas com a realidade e os personagens, às vezes com o nome falso, às vezes com o verdadeiro, adquirem certos atributos divinos.


It’s very likely that Tharbis have been a white woman. When less likely, she could have been a black woman, but with Caucasian traits. She was reputed to be daughter of the King Merops who was a man of flesh and bones that, centuries after, was transformed in god by Greeks — according to the ancient custom of deify the deceased people. The lineage of Merops, in Greek mythology, conceived the Pantheon. The Pantheon is obviously portrayed with white gods. The pagan myths are a corrupted way to tell histories, where fantasies are mixed with reality, where characters (who are identified sometimes with false names, sometimes with their true names) get divine powers, etc.

Contudo, isso é absolutamente irrelevante. O fato é que Tarbis, negra ou mulata ou branca, não era israelita. Ela era etíope. A Lei que o próprio Moisés escreveu, proíbe os israelitas de tomarem casamento fora de sua raça, como visto. Obviamente, a mesma restrição pesava sobre Moisés.


Nevertheless, that’s absolutely irrelevant. Tharbis, whether Negro, Mestizo or White, wasn’t Israelite. She was Ethiopian. The Law, which was written by Moses himself, had prohibited to Israelites to take marriage out from their race. Such as we seen above. Undoubtedly, the same prohibition was upon Moses.

A Providência divina foi tal que Moisés simplesmente abandonou Tarbis, décadas antes do Êxodo, embora tivesse um filho com ela. Tal como fez Abraão com Agar e Ismael. A criança de Moisés e de Tarbis nunca adquiriu a cidadania israelita e jamais foi contada na genealogia de Israel. Ela era bastarda para a tribo de Levi, que é a tribo israelita de Moisés, segundo a Lei. Como exposto acima.


The Divine Providence was such that Moses abandoned Tharbis, decades prior to the Exodus. Although Moses conceived a child with Tharbis. He let Tharbis, as Abraham did with Hagar and Ismael. The Tharbis’s child never got the Israelite citizenship and never was counted in the genealogy of Israel. He was bastard to the tribe of Levi, the same tribe of Moses. According to the Law.

Quando Arão e Miriã, irmãos de Moisés, sentiram ciúmes de sua liderança sobre o povo de Israel, eles lançaram justamente o affair de Tarbis no rosto dele (Nm 12:1-9). Eles queriam desmoralizar Moisés, o próprio irmão, perante o povo. Por isso o Senhor interveio irado. Ele disse a Arão e à Miriã que Moisés respondia a Ele e cabia a Ele julgar a dignidade de Seu servo. Obviamente, o nosso Deus considerou o affair de Tarbis irrelevante para Israel. Da mesma forma, os filhos bastardos de Salomão foram desconsiderados por Israel. O que importava ao país e à genealogia de Cristo Jesus eram os filhos legítimos, puramente da raça israelita, gerados por Salomão com mulheres israelitas. Isso não é nada demais, pois na Idade Média, tal seleção entre filhos bastardos e legítimos era coisa corriqueira nas coortes dos reis. Enfim, Miriã e Arão estavam fazendo tempestade em copo d’água por um fato que havia sido superado há muitas decadas do incidente. Moisés, aliás, era muito idoso na ocasião e jamais retomou o contato com Tarbis depois de deixá-la.


When Mariam and Aaron, both brothers of Moses, felt envy for his leadership upon the people of Israel, they threw up his affair with Tharbis on his own face (Nm 12:1-9). They wanted to demoralize him before the people, their own brother. Hence the Lord the intervened very angered. God spoke to Aaron and Mariam that Moses was only accountable before Him. It’s God who would judges the dignity of His servant. Obviously, the our Lord regarded the affair of Tharbis irrelevant to Israel. In the same way, the amalgamated children of Solomon were regarded irrelevant to Israel. What was important to the country and to the genealogy of Jesus Christ were the legitimate children, pure ones of Israelite race, who were generated from Solomon and Israelite women. That’s very similar with the choices frequently made inside European real houses between bastards and legitimates. So, Mariam and Aaron were doing a storm above a cup of tea. The affair had been resolved decades prior of the incident. Moses, in the occasion, was a very old man already. He never returned to establish any contact with Tharbis after he let her.

Por em contexto a atitude de Arão e Miriã é importante, porque os cristãos de nosso tempo atribuem sentimentos e intenções aos antigos que eles não conheciam. Imbuídos de um profundo analfabetismo religioso, esses cristãos sequer consultam as fontes extra-bíblicas para aprender sobre a própria religião que supostamente professam. Eles insinuam, por uma leitura superficial da Bíblia, que Moisés era polígamo, porquanto era casado com Zípora e havia tomado uma esposa etíope. Ou então, insinuam que Moisés foi o primeiro ativista pela abolição da segregação racial e pelo casamento interracial. Trata-se, evidentemente, de uma ignorância voluntária.


Putting in context the acts of Aaron and Mariam is important, because the Christians of our times attribute feelings and intents to the ancients of what they didn’t know. As these Christian are pervaded by a deep religious illiteracy, they don’t even consult the extra-biblical sources to learn about the religion which they claim to profess. They insinuate, by a very superficial reading of the Bible, that Moses was polygamous inasmuch as he had taken a new marriage with a Ethiopian woman whilst he was married with Zipporah. Or else, they insinuate that Moses was the first activist towards the abolition of the racial segregation or towards the interracial marriage. That’s, obviously, a voluntary nescience.

Raabe, a prostituta cananéia, não é ancestral do nosso Santíssimo Senhor

Raab, the Canaanite whore, wasn’t the ancestor of the Most Holy Lord Jesus

A ignorância dos cristãos em relação à própria fé chega a ser desconcertante, porque eles sequer fazem contas. Eles dizem que Raabe é uma gentílica ancestral do Senhor Jesus. Se fosse assim, o Senhor não poderia ser o Messias, pois Ele tinha que ser mais perfeito que o imperfeito Noé. Noé foi perfeito na preservação da pureza de sua linhagem. Obviamente, o Senhor tinha que ser igualmente perfeito em Sua linhagem racial.


The nescience of the Christians regarding their own faith is shameful. They don’t even make calculations. They say that Raab is a gentile ancestor of the Lord Jesus. If so, the Lord couldn’t to be the Messiah, because he needed to be more perfect than the imperfect Noah. Noah was perfect in the preservation of the purity of his lineage. Jesus had to be equally perfect in His racial lineage.

Que Raabe é uma prostituta cananéia é indiscutível. Ela foi preservada da destruição de Jericó por ocasião da invasão de Josué (Js 2-6). E, como uma mulher fora da raça dos israelitas, ela foi segregada de Israel. Foi-lhe permitido acompanhar o avanço de Israel, mas ela não podia entrar na congregação do Senhor. Nem ela e nem os descendentes dela. Portanto, ela era gentílica para além de qualquer dúvida.


The fact of what Raab to be a Cannanite whore is undisputable. She was preserved from the destruction of Jericho in the occasion of the invasion of Joshua (Js 2-6). And, in view of she was out of Israelite race, she was segregated of Israel. For she was allowed to follow the advance of Israel. But she couldn’t to enter in the Lord’s congregation. Neither her nor her descendants. Therefore, she was undoubtedly gentile.

O problema é que São Mateus parece registrar uma mulher com um nome similar a Raabe na genealogia do Senhor (Mt 1). Mas a confusão é só aparente: São Mateus não escreveu Raabe (Ρααβ, Raav), mas Rachav (Ραχαβ). Ele conhecia a LXX, em uso franco pela Igreja primeva, onde está escrito Raav na história da destruição de Jerichó. Portanto, é claro que a diferenciação de São Mateus foi intencional[5]. Raav e Rachav são duas pessoas diferentes. Elas sequer são homônimas!


The problem is St. Matthew to record a woman that appears to be Raab in the genealogy of Jesus Christ (Mt 1). However, the problem is solely apparent. Matthew didn’t write “Raab” (Ρααβ, Raav) in the Lord’s genealogy. He wrote “Rachav” (Ραχαβ). Matthew knew the Septuagint. The LXX was in widespread use by the ancient Church. In this Bible is written “Raav” to Raab in the context of the history of Jericho. Not “Rachav”. So, evidently by introducing “Rachav” in the register of the Christ’s genealogy, Matthew introduced a intentional differentiation[5]. Raav and Rachav aren’t the same women. They aren’t even homonymous!

No entanto os néscios que traduzem as Bíblias para o Português, costumam traduzir Rachav por Raabe. Eles estão, conscientes disso ou não, blasfemando contra o Senhor, pelo erro que eles induzem.


Nevertheless, the foolish ones who translate the Bible into English, are accustomed to translate Rachav to Raab. If they are or not conscious of this mistake, it doesn’t matter. They are blaspheming against Jesus by inducing others to err.

Existe uma prova mais cabal do que essa: o cálculo. Pela LXX, sabe-se que Josué entrou em Canaã em 1599 a.C.. Jericho foi a primeira cidade cananéia que ele invadiu. A suposta Raabe, mencionada por Mateus, é mãe de Boaz que, por sua vez, viveu sob o juiz Eli, na era dos Juízes. Oras, pela LXX, Eli começou o seu governo por volta de 1183 em a.C.. Em outras palavras, são quase quatro séculos de interregno entre Raav e Rachav! É óbvio que se trata de crasso analfabetismo religioso supor que ambas as mulheres são a mesma pessoa.


There is a more strong proof than the showed above: the calculation. By the LXX is known that Joshua entered in Canaan in 1599 B.C. Jericho was the first Canaanite city which he invaded. The alleged Raab, the woman mentioned by Matthew, is Booz’s mother. Booz lived under the government of Eli. So, Eli, by the LXX, initiated his government in circa 1183 B.C. In other words there are almost four centuries of separation between Raav and Rachav! It’s obvious that it’s a crass religious illiteracy to suppose that both women are the same person.

Notas


Footnotes

  1. Constituição Federal do Brasil, 1988. Art. 227, § 6º.
  2. Constituição Federal do Brasil, 1988. Art. 12.
  3. A genealogia semítica de Tamar é revelada no Livro dos Jubileus, apócrifo, no cap. 41:2.

    The Semitic genealogy of Tamar is confirmed in the Book of Jubilees, apocryphal, chapter 41:2.

  4. Infelizmente não existem fontes extra-bíblicas que precisem a genealogia de Quetura. Mas que ela é da família de Abraão é muito fácil deduzir, pelos motivos abaixo:

    Unhappily there are no extra-biblical sources that detail the Keturah’s genealogy. But it’s easy to deduce that she belongs to Abraham’s family, due to the reasons bellow:

    1. Abraão estava ciente da necessidade de manter pura a sua linhagem após o incidente da concepção de Ismael (Gn 24:1-9). Segundo Flávio Josefo, após a morte de Sara, Abraão tomou Quetura por esposa.

      Abraham was aware of the need to keep pure his lineage, after the incident of the inception of Ismael (Gn 24:1-9). According Flavious Josephus, following the death of Sarah, Abraham took Keturah by his wife.

    2. O fato de Moisés tomar por esposa Zípora, uma midianita (Ex 2:21), pelos motivos já discutidos.

      The fact of Moses to take by his wife Zipporah, a Midianite woman (Ex 2:21), due to the discussed reasons previously.

    3. Josefo também relata que os filhos de Quetura nasceram enquanto Isaque ainda estava solteiro. Isso significa que Isaque, embora estivesse na posição de herdeiro dos bens de Abraão por direito de primogenitura, não teria ninguém para passar a sua herança, porque não tinha filhos. Josefo atesta que o filho primogênito de Quetura seria o herdeiro se Isaque morresse sem filhos. Isso só seria possível se Quetura fosse da mesma raça de Abraão.

      Josephus tells that the children of Keturah was born whilst Isaac was single. That means that Isaac, although being the heir of the goods of Abraham by right of primogeniture, had no one to pass his heritage since he had no children. Josephus tells that, in this case, firstborn of Keturah would be the heir. That would only be possible if Keturah was from the same race of Abraham.

    4. Rute, esposa de Boaz, foi resgatada por ele, para que ela não fosse levada à servidão. A Bíblia relata que havia uma obrigação de resgate financeiro por parte da família de Boaz. Essa obrigação pecuniária de resgate só é imposta ao remidor se o resgatado é da raça dele. Porque Rute é midianita, e os midianitas são filhos de Quetura, a obrigação prova que Quetura é da raça dos israelitas.

      Ruth, Booz’s wife, was rescued by him. On the contrary, she would be reduced to serfdom. The Bible tells that there was a obligation of pecuniary remission to the Booz’s family. That obligation is imposed to the redeemer if the rescued one is the same race of him. Inasmuch as Ruth is Midianite and the Midianites are sons of Keturah, the obligation is a proof that Keturah belongs to the race of the Israelites.

  5. O autor de Hebreus, neo-testamentário como São Mateus, também expressa o nome de Raabe fielmente (Hb 11:31): ele escreve “Raav” tal como na LXX. Portanto, “Rachav” não é um mero fenômeno de mudança ortográfica para Raav. Trata-se de fato de uma outra mulher.

    Since that the author of the Epistle to Hebrews, neo-testamentarier like St. Matthew, also wrote the name of Raab faithfully in Greek (Hb 11:31), the word “Rachav” can’t be a mere phenomena of orthographic changing. It’s indeed a name belonging to other woman.

Considerações Sobre a Possessão Demoníaca e o Exorcismo

Introdução

Para identificar um possesso pelo demônio, os exorcistas mais experientes estabeleceram alguns critérios simples de teste. Porquanto é muito difícil, mesmo para os especialistas, discernir se uma doença física ou mental é causada por fatores naturais ou demoníacos.

O demônio é um ser pessoal. Logo, os exorcistas assumem que perfazendo esse teste sobre o paciente, o demônio será provocado e obrigado a se revelar para ser expulso. Se o teste nada acusar, a aflição do paciente é de ordem exclusivamente natural. Caso contrário, é de ordem demoníaca, mas com eventuais danos naturais, já que a possessão e o exorcismo, por vezes, deixam seqüelas físicas e mentais ao paciente.


Exposição do Pe. Gabrielle Amorth, exorcista, sobre demonologia.

Os critérios de identificação mais usuais[1]

O demônio é um ser cheio de ódio contra a Trindade Santíssima, contra o sagrado e contra o gênero humano em particular, por razões que veremos mais a frente. Mesmo que não se compreenda detalhadamente o porquê, o exorcismo é um rito profundamente doloroso e angustiante para o demônio. Com essas informações em mãos, os exorcistas entendem que o meio mais usual de se identificar um paciente legitimamente possesso é abençoá-lo com orações e chamá-lo à devoção. Essas coisas irritam o demônio e, pelo seu ódio intenso, ele acabará por trair a si mesmo revelando-se ao exorcista.

Esse é o meio mais simples, mas ele não é o único. Os exorcistas costumam entrevistar o paciente para saber mais acerca de seu histórico. Tendo em vista que o demônio odeia o sagrado, é muito natural que ele seja mais encontrado em ambientes onde se pratica a profanação religiosa (como as missas satânicas) ou outras coisas que o nosso Senhor Deus detesta, como as invocações de espíritos, a necromancia, o paganismo, etc. Se o paciente teve contato com essas coisas, ainda que por poucos minutos, as chances de suas aflições serem de origem demoníaca são consideravelmente maiores.

Na realidade, o demônio pode até mesmo possuir infantes, caso sejam consagrados ou expostos nesses ambientes.

O demônio, por ser inimigo do gênero humano, não necessariamente se restringe a esses ambientes. Ele pode ser comparado a um ladrão que ao identificar uma vítima vulnerável a assalta, ainda que ela não tenha se exposto voluntariamente. É o caso, por exemplo de pacientes possessos em decorrência de abusos sexuais por incesto ou porque sofreram maledicências pela autoridade da boca de seus pais. Entre os raros casos legítimos de possessão, esses são ainda mais raros.

Da mesma forma que um ladrão pode ser comprado para praticar um crime, um demônio também. E não é pouco comum que os possessos o sejam em decorrência de malefícios lançados contra eles. Um malefício é um ritual por meio do qual um inimigo pessoal de alguém invoca o demônio para fazer-lhe mal. E o malefício, comprando a ação do demônio, pode trazer sofrimentos ao alvo. Muito embora, aquele que invoca o demônio para esse fim, sem sombra de dúvidas sofrerá as conseqüências, porque ninguém mexe com o oculto sem sair incólume.

São essas as causas mais comuns que dão sustentação à possessão e ajudam o possesso e as pessoas que contribuíram para o seu estado a se penitenciarem pelos seus atos maus.

Os sintomas da possessão

As doenças mentais e as possessões demoníacas muitas vezes se confundem. E em certos pacientes, ambos os suplícios convivem juntos. Por isso que num exorcismo verdadeiramente cauteloso, cônscio da fragilidade física e mental do possesso, o exorcista jamais abre mão do auxílio clínico. É comum que um exorcismo seja conduzido de maneira a permitir que o paciente seja medicado ou tratado tão logo a crise passe ou mesmo que o ritual seja interrompido se as necessidades médicas o exigirem. Ademais, o possesso, tão logo liberto, não necessariamente sai de sua tribulação sem seqüelas e não é é anormal que este procure o auxílio médico. Entretanto, há casos em que sendo a enfermidade um sintoma da possessão, o paciente saia curado, como no caso de deficiências auditivas e visuais causadas por aqueles a quem os exorcistas denominam “demônios mudos”.

Discernir entre uma patologia mental e uma possessão não é fácil. Os demônios por vezes causam alucinações, desejos sexuais obscenos, obsessões, agressividade, etc., os quais também são sintomas de psicose, parafilias e esquizofrenia. Mas os exorcistas mais experientes sabem que uma patologia mental é degenerativa. De modo que uma alucinação ou uma fantasia de um paciente comum acabará por se tornar claramente ilógica com o tempo. Isso não se verifica num possesso, conforme exemplificados pela vida de alguns hereges. Um herege, sendo possesso, é capaz de formulações teológicas muito sutis e de argumentações profundamente racionais os quais não encontram paralelos em uma patologia mental degenerativa. Sem mencionar que um possesso tem plena consciência de que suas ações são injustificáveis e destrutivas, embora não as controle. E é essa consciência plena que o diferencia de um doente mental.

Da mesma forma, uma doença física causada por uma possessão demoníaca provavelmente resistirá a um tratamento convencional, ainda que consagrado pela literatura médica. Há casos, inclusive, de possessos que foram submetidos à cirurgia, onde o cirurgião nada constatou em suas vísceras, embora os exames atestassem a necessidade da intervenção médica.

Porém, existem sintomas que tornam a possessão evidente. Os fenômenos “poltergeist”, a clarividência, o conhecimento de línguas nunca aprendidas e mesmo mortas, a alteração anormal de voz, a apresentação de força sobre-humana, a levitação, o repentino embranquecimento dos olhos, a hierofobia, etc., os quais tomados num conjunto, caracterizam claramente uma possessão demoníaca.

O exorcismo

É importante entendermos porque o demônio precisa ser revelado antes de se proceder o exorcismo. O demônio é um ser desapossado e incorpóreo, de modo que, ao possuir alguém, ele logra uma espécie de lar, além de poder usufruir do sistema sensorial do paciente. Por isso que não acreditar no demônio não só não o livra dele, como também atende à sua estratégia, já que se não se suspeita de sua presença, ele não será expulso. Não sendo ele expulso, ele seguirá usufruindo do paciente. Ademais, sendo-lhe o exorcismo doloroso, a sua principal ação de defesa será a ocultar-se, a de confundir, e a de desencorajar o exorcista e o paciente, de modo que as aflições impostas ao demônio cessem e a possessão prossiga. Por isso, ao contrário do que se pensa, o demônio prefere não se expor e falar com cautela, quando impedido de calar-se.

Porque cada demônio é um ser diferente em termos de história pessoal, maldade e poder, a resistência ao exorcismo varia de caso a caso. Todos são mais poderosos que o homem, mas alguns deles se destacam, inclusive por serem personagens históricos cujos nomes são conhecidos pela Tradição da Igreja[2]. Esses são os fatores que determinam a violência e a sobrenaturalidade do exorcismo, além da disposição pessoal do possesso, de quantos demônios habitam nele e por qual razão, etc., e, sobretudo, da soberania e dos interesses de nosso Senhor Jesus sobre o fato.

Os demônios são cruéis, tenazes e não desistem facilmente do possesso. Por esse motivo, o exorcismo é um rito litúrgico fundamentalmente imprecatório, onde o exorcista, pelo Sangue e pelo Nome de Cristo, ordena autoritariamente a saída dos demônios, ameaçando-os com castigos divinos e com uma danação eterna ainda mais severa. Embora essa realidade esteja além de nossos olhos e ouvidos, essas imprecações não são meras palavras. Elas resultam num grande sofrimento sensorial e emocional para os demônios, porquanto eles gritam, choram, blasfemam, prometem vingança, se estafam, como se efetivamente estivessem sob terríveis açoites e torturas. Apesar disso tudo, a tenacidade deles pode levar as sessões de exorcismo a se estenderem por meses ou anos. Porém, ainda que o exorcismo demore muito, é possível que o possesso leve uma vida relativamente normal, podendo ir trabalhar, estudar, etc., mesmo vindo a sofrer com algumas crises pontuais.

Durante o exorcismo é comum os demônios blasfemarem, mentirem (muitíssimo!), zombarem, ameaçarem, agirem com ira e poder, porque essas atitudes servem como distrações. Eles não procedem dessa forma apenas porque são maus e cheios de ódio a ponto de quererem que o possesso sofra gratuitamente. Mas, além da maldade, eles querem constranger, assustar ou desencorajar o exorcista, já que expulsos do possesso, eles correm o perigo de serem enviados pelo nosso Deus ao abismo, onde muito provavelmente ficarão presos até o Dia do Juízo Final após o qual Ele os lançará ao fogo. Não é tolice dizer que os demônios, embora poderosos, temem muito mais o exorcista do que o exorcista a eles. As conseqüências do exorcismo são por demais penosas para eles. E eles farão de tudo para que o rito malogre, se possível, tragicamente.

A história dos demônios[3]

Uma coisa que creio importante pontuar é que os demônios blasfemam com obscenidades sexuais diversas, seja tentando o possesso em suas crises particulares, ou às claras durante o exorcismo para perturbar o ritual. Diante disso, uma questão está posta. Se eles são incorpóreos, porque eles tentam o pecador a atitudes que resultam em sensações corporais, como se eles as conhecessem? Como eles, que não possuem corpo, sabem dessas sensações e o porquê de elas serem tentadoras à carne? A resposta é complexa e desvela a história dos demônios.

Segundo a Tradição, os Santos Anjos foram criados pela Trindade Santíssima logo no primeiro dia da Criação. No período entre o primeiro dia e o sétimo ano da Criação, ocorreu uma revolta entre os Anjos. Satanás foi o líder desse motim e com ele se sublevaram um terço de seus pares. A Tradição relata que Satanás viu que Deus amava muitíssimo o homem. Satanás reputava o homem com desprezo,a quem ele olhava como uma mera criatura inferior, feita de barro. E, apesar disso, Deus deu ao homem privilégios que os Anjos não possuem, como o governo de todas as criaturas terrenais. Os Anjos, ao contrário de nós, não foram criados para governar, mas para a louvação do Senhor. Ademais, Deus revelou aos Anjos que Ele tinha grandes planos para a deificação do homem. Isso irritou profundamente a Satanás, pois ele, sendo o maior dos Anjos e o mais glorioso entre eles, julgou que merecia um tratamento muito superior àquele que Deus dispensara ao homem. E por isso ele sacudiu o jugo do Senhor sobre si e amotinou-se para tomar o governo celestial em suas mãos.

Contudo, dois terços dos Anjos permaneceram com o Senhor. O Santo Arcanjo Miguel, convocado para tomar o lugar de Satanás, liderou a reação e expulsou todos os amotinados do céu. Desde então, Satanás e seus anjos, destituídos de uma grande parte da antiga glória celestial, passaram a habitar os ares, na atmosfera.

Desde o dia em que foram criados, os animais possuíam uma capacidade cognitiva muito avançada, sendo capazes de falar. Então, no sétimo ano da Criação, Satanás, o invejoso adversário do homem, possuiu uma serpente e ela enganou o Primeiro Casal. Como resultado, a Criação sofreu uma queda generalizada, e os animais perderam as suas antigas capacidades cognitivas e de comunicação. E, para agravar a tragédia, o Primeiro Casal não gerou filhos durante os primeiros sete anos da Criação. Se eles tivessem concebido filhos rápido, uma parte da humanidade poderia ter sido salva das conseqüências nefastas dessa queda. O primeiro filho deles só veio a nascer quarenta anos depois da Queda do homem.

Por volta de quinhentos anos depois do início da Criação, o Senhor Deus instituiu uma Comissão de duzentos Anjos com a incumbência de guiar a humanidade na construção de uma gloriosa civilização. Durante os primeiros cinco séculos da Criação, uma parte da humanidade, descendente da raça de Caim, tinha caído em violência e idolatria. A outra parte, de Sete, havia se mantido relativamente bem diante de Deus, através da segregação racial que imperava entre os cainitas e os setetitas. Então, Satanás enganou a Jared, o Patriarca (governante) dos setetitas com o fim de minar a segregação racial. Isso resultou na contaminação cainita, a idolatria e a violência, aos setetitas. Deus quis remediar a situação por meio da Comissão. Mas ela também malogrou tragicamente. Os Anjos não mantiveram-se castos e puros, como seria adequado para o ofício e à natureza que possuíam. Eles cobiçaram as filhas de Adão e materializaram-se a elas para coabitar, mesmo à força. Elas conceberam milhares de seres híbridos, metade anjos e metade homens, conhecidos como os Nefilins, sendo que alguns deles chegaram a medir cento e cinqüenta metros de altura[4]. Porque concebidos contra a natureza e em pecado, eles foram seres ferozes e escravizaram a humanidade. Quando a humanidade tornou-se incapaz de sustentar os gigantes, eles canibalizaram os homens e entraram em guerra uns contra os outros. Ademais, os Nefilins e os duzentos Anjos, acrescentando mais ignomínia à iniqüidade, também criaram quimeras entre os animais e as plantas da Terra, resultando em seres grotescos[5]. Tudo isso aconteceu quando Adão e Eva ainda estavam vivos.

Os Nefilins estavam extinguindo a humanidade por meio da miscigenação e da violência. E um dos duzentos Anjos, Azazel, talvez movido pelo remorso ou pelo prazer sádico, instruiu a humanidade a construir armas de guerra para lutar contra os seus inimigos. Desse modo, a violência se espalhou por toda a Terra.

Os mártires que padeceram nas mãos dos Nefilins, rogaram ao Santos Arcanjos Miguel, Uriel, Gabriel e Rafael para que levassem perante o Senhor a causa da sobrevivência da humanidade. Movidos de compaixão pelos mártires e de revolta pelos atos dos duzentos traidores, o grupo angélico pediu permissão a Deus para vingar a humanidade de seus destruidores. Deus concedeu-lhes o desejo, de modo que os duzentos Anjos foram presos no Abismo e os Nefilins sofreram um imenso e terrível morticínio. Mas Ele também revelou ao grupo que haveria de fazer coisas ainda maiores contra os ímpios e as quimeras que sobraram: o Dilúvio Universal. Ele instruiu os Santos Arcanjos a protegerem Noé enquanto ele construísse a Arca. E, no momento em que a embarcação foi finalizada, o Senhor colocou lá o Seu escolhido Noé, a família dele, e os casais de cada espécime de animais terrestres que sobreviveram impolutos às quimeras, i.e., apenas os animais que valiam a pena salvar.


Arqueólogos encontraram uma suposta quimera em Nevinnomyssk, Rússia.

Ao Se virar contra os Nefilins, o nosso augusto Senhor também os amaldiçoou. Ele decretou que os Nefilins, por serem da Terra, viveriam na Terra na condição de espíritos malignos — demônios — para espezinhar o homem até o fim dos tempos.

Cem anos depois do Dilúvio, quando Noé ainda estava vivo, os demônios começaram a seduzir, a fazer desviar e a matar alguns dos descendentes dele. E orando Noé para que os demônios fossem castigados — sem dúvida, o primeiro Ritual de Exorcismo da História — Deus atendeu ao rogo de Noé e os prendeu. Mas havendo Satanás argumentado em favor dos demônios, lembrando que eles também eram úteis como açoites aos inimigos de Deus, o nosso Senhor soberanamente deixou que apenas a décima parte dos demônios agisse na Terra. E o resto deles foi preso no Abismo.

Desde então os demônios “livres” tem atuado como asseclas de Satanás, sob o seu comando. Essa é a história dos demônios e a relação deles com Satanás e os anjos amotinados, conforme a Tradição.

As motivações dos inimigos de Deus se desvelam

Com o conhecimento de todo esse contexto, logo se vê o porquê dos demônios tentarem os homens à licenciosidade e à violência: porque, quando vivos, eles praticaram toda sorte de impureza sexual, inclusive a bestialidade, além do canibalismo e das guerras sem fim. É compreensível o porquê da oposição deles contra Deus: porque como bastardos e filhos de anjos eternamente condenados, eles não possuem quem lhes salve, ao contrário do homem, que possuiu um Salvador de sua raça: o nosso divino Senhor Jesus, completamente Deus e completamente homem. Ademais, eles sabem que a multidão dos pecados deles aguarda a vingança divina sem misericórdia e eterna. É compreensível o porquê de eles odiarem o gênero humano: porque foram opressores ferozes desde o início e teriam extinguido a humanidade se houvesse mais tempo. O nosso Deus preservou, salvou e elevou a humanidade, enquanto eles perderam tudo. É compreensível o porquê de eles procurarem possuir os corpos humanos: porque já tiveram um[6], além de ser mais confortável possui-los do que perambular errantes pelo mundo. É compreensível o porquê de eles temerem a Satanás: porque um Anjo, ainda que caído, é mais forte que um híbrido como eles, etc.

Da mesma forma, é compreensível o porquê de Satanás compartilhar desse ódio: porque, através de nosso vitorioso e santo Senhor Jesus, homens venceram a morte e aguardam a sua deificação, o governo e a restauração de todas as coisas. Isso é tudo o que Satanás pretendia usurpar pela violência. Por isso o coração dele encontra-se em chamas de ódio, inveja e vingança, porquanto está sempre a procurar quem lhe adore. E é compreensível o porquê de todos os inimigos incorpóreos de Deus odiarem não só a humanidade, mas em particular a nossa amantíssima Mãe, Santa, Rainha e Sempre Virgem Maria: porque muitas e muitas vezes, as mulheres foram as principais peoas do Maligno. No entanto, foi por meio de uma Mulher que veio a Salvação. E foi uma Mulher que, diante de todos os Santos Anjos, dos homens, dos demônios e dos Anjos Caídos, recebeu a honra de ser divinamente declarada a maior entre as maiores criaturas do Deus Vivo para todo o sempre. Nossa Santíssima Mãe é o fim do opróbrio feminino e é a teose de todas as mulheres eleitas.

Nos rituais de exorcismos é comum que os exorcistas invoquem a assistência de São Miguel Arcanjo, que sempre se pôs como o guardião da tocha da humanidade. E os demônios empalidecem de temor e tremor pela sua intercessão. No entanto, muito mais sofrem eles quando a mais eficaz de todos os intercessores, a Mãe de nosso Senhor, cobre o exorcista com o Seu manto de amor maternal. Por isso que no exorcismo, rogos são dirigidos à Virgem sem hesitação e sem pudor.

Conclusão

Em tese, todo cristão batizado pode exorcizar com a mesma autoridade por meio da qual pode administrar o batismo a outrem. Em tese, não é necessário ser um clérigo para isso. Na prática, porém, esse Ritual deve tanto quanto possível ser exercido apenas por pessoas especialmente preparadas e autorizadas, porquanto certos exorcismos são efetuados contra demônios e anjos poderosos e exigem do exorcista uma vida de jejuns e de devoções intensas. Uma possessão demoníaca é um incidente que pode se tornar extremamente violento. E a menos que o exorcista esteja ciente dos riscos, munido dos adequados instrumentos, e seja experimentado, o Ritual de Exorcismo não pode ser levado a cabo. Infelizmente há casos de morte tanto do exorcista quanto do possesso devido a falta dos devidos cuidados e discernimentos.

No mais, o exorcismo depende muito da renúncia do possesso acerca de seus pecados e das vulnerabilidades que ele eventualmente trouxe para si. O possesso deve ter ciência da responsabilidade que ele tem de iniciar uma vida cristã para com Deus, doutra forma, o seu tratamento não trará resultados permanentes. A possessão é, em última análise, uma tribulação espiritual que só pode ser vencida espiritualmente com os dons gratuitos de nosso Senhor. Por isso que procurar o oculto, os encantamentos e os feitiços para resolver tribulações dessa natureza só resultará no aumento do sofrimento do possesso. Não se procura um ladrão para expulsar um ladrão. E nem se apaga o fogo com querosene. Similarmente, não se terá um exorcismo eficaz, senão aquele única e sacramentalmente cristão.

Nenhum cristão tem o direito de rejeitar as fórmulas consagradas de exorcismo as quais são conhecidas e testadas há séculos. Alguns exemplos dessas fórmulas eficazes estão no Ritual Romano, sendo preferível a versão de Paulo V, no caso da Igreja Romana; e no Livro das Necessidades, no caso da Igreja Ortodoxa. No entanto, se não há nenhuma impossibilidade, somente um clérigo sacramentalmente dentro da sucessão apostólica deverá ministrá-lo com todos os cuidados devidos.

Indubitavelmente, o nosso Deus Trino merece a nossa sincera adoração, porquanto salvou a humanidade da extinção certa e iminente pelas mãos dos demônios. Louvado seja o Senhor, cuja vontade não pode jamais ser derrotada.

Notas

  1. Cf. o Tratado de Demonologia e Manual de Exorcistas do Pe. José Antônio Fortea.
  2. No Ritual de Exorcismo, seguindo a Tradição, o exorcista conjura os demônios a revelarem os seus nomes. Os demônios, que sempre procuram se ocultar e falar com cautela durante o Ritual, ao nominarem-se, dão sinais de subjugação ao exorcismo.
  3. Além dos livros canônicos, a história da civilização antediluviana é contada pelos livros: o “I de Adão e Eva”; o “I de Enoque” (versão Copta); “dos Jubileus”; e “do Justo”.
  4. As lendas dos povos são testemunhas imprecisas dessas verdades. Contudo, ainda assim, testemunhas. A Teogonia de Hesíodo onde é contada a estória dos Titãs, os quais foram derrotados na guerra contra os deuses do Olimpo, é um exemplo da má preservação dessa Tradição. No caso, os Titãs claramente representam os Nefilins. E os deuses, os Anjos que desceram dos céus (o Monte Olimpo) para guerrear em prol da humanidade em risco de extinção.

    Da mesma forma o testemunho dos povos sobre as quimeras que os duzentos Anjos criaram. Os deuses egípcios e a Esfinge são testemunhos bastante claros desses fatos.

  5. A existência de quimeras possui uma implicação importante para a Biologia. Ela explicaria o porquê de alguns animais extintos e fossilizados parecerem evoluídos de outros. O fato é que um híbrido possui características de ambas as espécies que o geraram. E presumindo erradamente que o híbrido veio acidentalmente de um processo cego de duração incalculável, realmente parece que ele é um elo perdido entre duas espécies.

    Entretanto, a existência do híbrido fossilizado também pode ser logicamente explicada tal como a Tradição a apresenta: o seu aparecimento se deu de forma súbita consequência de uma maliciosa manipulação artificial por reprodução sexual assistida. A sua existência artificial nada depõe sobre a idade da Terra ou sobre a validade da evolução natural das espécies. E por ele ter sido gerado em condições únicas e assistidas, se as mesmas não podem ser naturalmente repetidas, a evolução também não será observável com um processo natural.

    Porque Deus extinguiu as quimeras, se explica o fato paleológico de existirem seres tão estranhos e aparentemente híbridos, enquanto nada similar é encontrado hoje.

  6. Se os demônios são espíritos de seres falecidos e possuem a capacidade de se alojar em corpos vivos, em tese, os seres humanos falecidos também podem fazer o mesmo. Talvez seja por isso que alguns exorcistas, ao imprecarem contra o espírito maligno, se deparam, por vezes, com um que afirma insistentemente não ser um demônio mas uma pessoa falecida e condenada por Deus.

    É importante salientar fortemente que isso não justifica as práticas espíritas. Porque Deus as proibiu severamente, mostrando que ao nos deparamos com um espírito dentro de um hospedeiro, devemos considerá-lo um condenado e inimigo. Em outras palavras, devemos julgar apriori que todo espírito que se aloja num corpo que não é o dele não está lá para fazer algum benefício. Antes, devemos expulsá-lo como a sã doutrina manda.

O Pecado Original: o Entendimento Latino e o Oriental

Estando patente o entendimento profundamente jurídico do Cristianismo Latino e Ocidental (o que inclui os protestantes) acerca das coisas sagradas, naturalmente a doutrina do pecado original não escapa desse prisma. Ela também é vista de forma legalista pelos latinos.

O entendimento latino

Reza o protestantismo que o pecado original é a imputação judicial de culpa à toda humanidade devido à desobediência de nossos primeiros pais, Adão e Eva. Por solidariedade de raça, todos nós somos judicialmente culpados, com eles, desse pecado. E junto com essa culpa, nós carregamos todas as conseqüências dessa primeira desobediência: sofrimentos, doenças, labor amargo, concupiscência, envelhecimento e morte. O Senhor Deus é o Juiz dos vivos e dos mortos. Contra as Suas ordens expressas os nossos primeiros pais O desobedeceram e Ele os julgou imputando a eles e à toda a descendência, por solidariedade racial, a culpa original. Como cada indivíduo da raça humana é humano a partir de sua concepção, cada humano é concebido culpado do pecado original.

Séculos após o advento do Cristianismo, o Protestantismo viria a proclamar a justificação pela fé, e pela fé somente. Essa justificação que se dá por meio dos méritos de nosso augusto Senhor Jesus é uma contra-sentença judicial. Essa nova sentença é ab-rogatória da sentença original que o Senhor Deus impôs à toda humanidade, em benefício de uma determinada porção escolhida dela. Ambos, a Igreja Romana e o protestantismo, concordam que no momento em que Deus profere a justificação judicial [1], o réu de pecado original, sendo participante da porção escolhida da humanidade, é imediatamente absolvido.

O entendimento do papismo não difere muito do entendimento protestante. A diferença fundamental entre ambos é essa: no protestantismo a imputação de justiça ao pecador é eficaz para os pecados passados e futuros em relação à data de sua primeira profissão de fé. No romanismo, a imputação é eficaz apenas para os pecados passados em relação à data em que ele foi batizado. Os católicos (ortodoxos e romanos) acrescentam que o sacramento do batismo infunde graça para que o pecador viva num crescendo de justiça. Se o pecador não perseverar na justiça infundida, ele perderá a salvação. Essa perda de salvação, o protestantismo considera impossível, porque ele crê que a justiça não foi apenas infundida, mas irretratavelmente imputada, de forma independente dos méritos ou deméritos do pecador. Portanto, incondicional.

O entendimento oriental

Porém, todo o entendimento latino é fundamentado na hamartiologia de São Agostinho que, embora venerado pela Igreja Ortodoxa como um santo, é reputado por ela como um teólogo equivocado. Agostinho expôs a sua hamartiologia em resposta ao heresiarca Pelágio, o qual negava qualquer tipo de culpa ou corrupção herdada pela descendência humana a partir de Adão e Eva. Segundo Pelágio, cada indivíduo da raça humana só peca por aprendizado e não por força de uma tendência natural herdada – tal como sempre ensinaram as Igrejas Latina e Oriental. Em outras palavras, na visão pelagiana, é possível, ao menos em tese, o nascimento natural de homens e mulheres que cresçam e vivam perfeitamente sem qualquer auxílio divino. Se, porém, esses perfeitos venham a malograr na sua conduta em qualquer momento de suas vidas, sofrerão todas as nefastas consequências da queda.

Houveram de fato dois indivíduos que efetivamente viveram com perfeição: Jesus e Maria. Todavia, o nascimento deles não foi completamente natural. A Igreja Ortodoxa ensina que ambos eram justos porque contaram com o auxílio divinal. Maria, por divino auxílio, nunca pecou a despeito de ter nascido de pai e mãe como qualquer humano. E Cristo nunca pecou porque nasceu como Adão, ou seja, por intervenção direta de Deus. Porém, em contraste a Adão, Cristo foi divinamente impedido de pecar por toda a Sua vida, tal como Maria, a despeito de ambos terem herdado as fraquezas da natureza humana. Maria, de seus pais, e Cristo, de Sua Mãe.

Quanto a todos os demais seres humanos, a Igreja Ortodoxa ensina que eles não só herdaram as deficiências naturais de Adão, como pecaram por força delas. É nesse ensinamento que a Ortodoxia refuta a heresia pelagiana.

A Igreja Ortodoxa contra São Agostinho

Existe, entre a refutação a Pelágio exposta por Agostinho e a exposta pela Ortodoxia, uma diferença hamartiológica muito sutil, mas com implicações profundas. Devido a um erro de tradução, já que Agostinho utilizava a Bíblia em latim e não no original grego como seria apropriado para um estudioso das Escrituras, o teólogo concluiu o seguinte: Adão pecou contra Deus e Deus de imediato julgou-o e castigou-o com a morte espiritual. O julgamento divino vinculou-se à humanidade por solidariedade racial. Julgada ela, foi castigada da mesma maneira. Porque ela foi castigada com a morte espiritual, ela segue pecando. Um pecador está preso no vício do pecado até a sua morte física.

Para a Ortodoxia, em conformidade à leitura correta da Bíblia em grego, o incidente ocorreu assim: Adão pecou e de imediato sofreu uma deformação em sua natureza (o que a Igreja Ortodoxa chama de mortalidade). Depois disso, Deus julgou somente os atos dele e os de sua esposa. Por coabitação, a deformação de Adão é transmitida a nós. E porque nascemos naturalmente deformados, pecamos quando capazes; e porque pecamos como indivíduos, somos individualmente condenados por Deus. Em outras palavras, para os latinos, o pecado original é essencialmente um problema jurídico vinculativo à toda a raça humana. Para a Ortodoxia, ele é uma doença herdada com eventuais efeitos jurídicos para cada enfermo da raça.

Eis o ponto: se diz eventuais porque nem todos os enfermos da deformação herdada são pecadores. A Virgem compartilhou da nossa natureza humana imperfeita e não pecou; os bebês também compartilham e, igualmente, estão isentos de pecado[2].

O pecado original na concepção oriental e a doutrina da justificação pela fé

Para a Ortodoxia, sendo o pecado original uma doença, e os pecados individuais dos homens os seus sintomas, a justificação pelo batismo canônico não é tratada como uma promulgação judicial entre Deus e o pecador. Mas como o início de uma relação terapêutica entre ambos, cujo objetivo é a teose do pecador enfermo, ou seja, a sua glorificação corporal pela ressurreição futura, à semelhança do que foi feito a Cristo.

Os latinos enfatizam ou pontuam quase que exclusivamente que Cristo em Seu sublime sacrifício deu satisfação de nossos pecados ao Supremo Juiz e por isso podemos conviver com Ele. Mas os orientais consideram estranho à Tradição esse conceito vicário. Eles não vêem Deus tal como os latinos o vêem, que é uma visão similar a como pagãos viam os seus próprios deuses: como uma entidade cujo furor só se satisfaz com sangue. Deus é Amor e isso é uma verdade literal para os orientais. O perdão dos pecados é verdadeiramente um ato de graça da parte de Deus e não uma consequência legalista do sacrifício de Cristo. Para os orientais, Deus perdoa os pecados com ou sem sacrifício (2Sm 12, Mt 9:1-6). Deus não está divido ao meio entre o amor e a Sua justiça. Para a Ortodoxia, Deus não é “amor, porém é justiça”, como dizem os latinos. Mas, sim, Deus é amor e justiça, sem contraste.

De fato, isso explica muito da generosidade do Senhor. Ele Se considera um Pai adotivo para aqueles a quem Ele quer salvar. Todo pai, ao perdoar o seu filho, não dá a ele um certificado de anistia para que seja apresentado a um tribunal. E também não derrama o sangue alheio para perdoá-lo. No entanto, um pai é capaz de dar a própria vida por um filho que ama, mesmo pelo desnaturado. Os latinos concordam que Deus é um Pai, mas ensinam que esse Pai age de forma muito diferente dos demais pais. Isso de fato contradiz o amor paternal superior e generoso a todos os pais, do qual Cristo testificou acerca de Seu Pai (Lc 11:9-13).

Por isso os orientais refutam o conceito de que o sacrifício de Cristo foi uma substituição expiatória. O sacrifício de Cristo não foi uma transferência de culpa ou uma satisfação judicial. Mas um meio pelo qual Ele, o último Adão, venceu a morte física, a qual é concebida pelo pecado, para conceder aos justos a teose e fazê-los participantes de Sua natureza humana e glorificada[3]. Estávamos presos à mortalidade e, por amor, a Trindade Se moveu para mudar essa realidade. A visão oriental do sacrifício e da ressurreição de Cristo é, sem dúvida, mais ampla, elevada e mais familiar ao amor humano de pai. É uma visão de triunfo, que trouxe a ressurreição final tanto para os justos, quanto para os injustos. Aos justos, a ressurreição para a vida eterna. Aos injustos, a ressurreição para o Lago de Fogo.

Em outras palavras, ninguém mais morrerá fisicamente, porque Cristo capturou a morte em Sua ressurreição e a destruiu. Se Ele não Se sacrificasse, após a morte, nós viveríamos para sempre como espíritos desencarnados.

A Ortodoxia está numa irreconciliável contradição com o entendimento latino, porque ela ensina, corretamente, que o inocente não pode ser punido pelo pecado de um ímpio. Cristo Jesus não poderia ser punido pelo pecado alheio e de fato não foi, porque Ele não está no inferno eterno. Nenhum tribunal humano em sã consciência puniria um inocente no lugar de um culpado confesso, mas os latinos dizem que Deus faz isso com o Seu próprio Filho. Logo, a imputação de justiça ensinada pelos protestantes, é blasfema para a Ortodoxia. Uma vez que os protestantes desenvolveram logicamente a sua hamartiologia do romanismo, o papismo também é culpado por ela. Sendo a idéia de transferência de culpa o cerne do Cristianismo latino, os latinos precisarão reconstruir toda a sua soteriologia a partir dos rudimentos da fé.

No entanto, ambas as visões, latina e oriental, são complementares no que diz respeito ao simples perdão dos pecados, sem os seus nuances judiciais. O perdão dos pecados de fato está implícito no batismo, não por uma necessidade judicatória, mas por amor divino. Quem é capaz de se sacrificar ao custo da própria vida por um injusto, é plenamente capaz de perdoar com o seu sacrifício. É justo dizer que o sacramento do batismo traz o perdão dos pecados e a Ortodoxia concorda sem titubear com a simplicidade desse fato. Com efeito, o nosso Senhor e Redentor Jesus diz:

Porque isto é Meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados. (Mt 26:28)

Pode-se ortodoxamente interpretar que o batismo é o início de uma terapia inaugurada pelo perdão amoroso dos pecados.

Aqui uma contradição do romanismo é exposta: se o pecado é perdoado por meio de um sacrifício vicário, qual é o fundamento sacrificial do sacramento da penitência para o perdão dos pecados capitais? O protestantismo diria que o perdão pela penitência (que é tratada apenas como um arrependimento pessoal e privado) é o próprio sacrifício de Cristo, que perdoa os pecados capitais passados e futuros. Mas o romanismo diz que o sacrifício só perdoa os pecados passados ao batismo, ele não é eficaz para perdoar os pecados capitais futuros no âmbito deste sacramento. Não há uma resposta lógica para esse dilema no romanismo. Na Ortodoxia, porém, a resposta é simples: o perdão através do sacramento da penitência vem livremente de Deus, sem sacrifício, após a comoção divina pelo coração contrito e arrependido. É por isso que Deus diz: “misericórdia quero, e não sacrifícios”.

Antecipando uma objeção contra a visão oriental do pecado original

Os defensores da hamartiologia agostiniana poderiam se contrapor argumentando que, na História da Redenção, houveram várias pessoas e grupos raciais cuja culpa, oriunda não deles, mas da má conduta de seus ancestrais, foi-lhes imputada. A família do Rei Acabe, a família do Rei Saul, a nação de Canaã, a nação de Esaú, etc., são exemplos notórios dessa objeção. Contudo, o maior e o mais famoso exemplo de culpa imputada por solidariedade racial é a acusação de deicídio que pesa sobre todos os judeus. A questão do deicídio, embora seja evitada em nossos dias, foi inquestionavelmente um ensinamento constante da Igreja por séculos.

Para responder a essa objeção, existem algumas coisas a considerar. O infortúnio causado aos descendentes de alguns dos citados, tais como os cananeus e os edomitas, deve ser atribuído principalmente (mas não só) a problemas de transmissão de herança e a todos os fatores a ela relacionados, os quais perfazem um outro e fascinante assunto. Alguns infortúnios dos outros citados, como os filhos do Rei Acabe, não se devem à imputação de culpa, mas à recusa do Senhor Deus em tratá-los com benevolência. Deus pode, possui o direito e efetivamente faz isso com os réprobos sem considerar outra coisa senão a culpa individual de cada um deles. Em outras palavras, esses infortúnios podem ser explicados por outras causas além da suposta imputação de culpa hereditária. Sem mencionar que, embora a culpa pessoal não seja transmissível, as consequências dela geralmente são.

Contudo, a acusação de deicídio contra os judeus é um caso interessante de onde o correto entendimento de culpa individual é desvelado como um princípio geral. As Escrituras Sagradas afirmam que todos darão conta de seus próprios atos a Deus. E salientam que os filhos não serão culpados pelos pecados de seus pais se não compactuarem com as transgressões deles. Mas também citam que Deus não ignora a iniquidade dos pais nas gerações dos filhos. E é aqui o ponto focal da relação entre a culpa pessoal e os atos ancestrais.

Os judeus e os israelitas contemporâneos ao ministério de Cristo, O rejeitaram em grande parte, seguindo o mal exemplo de seus pais em relação aos profetas. Sabendo dessa rejeição porque ela foi predestinada, Cristo disse-lhes que por tal atitude obstinada, eles eram culpados por todas as violências lançadas contra os justos desde Abel. Isso é muito significativo e compreensível, porquanto toda a História da Redenção foi preparada para aquele único momento onde o Senhor Deus, na Pessoa do Filho, estava lá, diante de Suas criaturas, pregando-lhes o Evangelho. E não só a História da Humanidade havia sido preparada para esse fim, mas a própria Criação.

A criação do homem, o dilúvio universal, os patriarcas, os cataclismos de Moisés, a História de Israel e dos Impérios vizinhos, etc., tudo culminava em Cristo. E os judeus e os seus concidadãos israelitas O estavam rejeitando com blasfêmias terríveis. Em outras palavras, eles não rejeitaram o Messias somente, mas tudo o que foi feito por Ele desde o primeiro dia da Criação. Portanto, de fato, por rejeitarem tudo, se tornaram culpados por tudo.

Daqui se extrai o princípio geral da relação entre culpa individual e pecados ancestrais: somos culpados pelos pecados de nossos pais não porque ela nos foi imputada judicialmente. Mas porque, mesmo conscientes dos pecados de nossos pais, os celebramos e os aplaudimos. E quando celebramos os pecados pessoais de nossos ancestrais, fazemos deles os nossos próprios pecados pessoais. Dessa forma, os judeus são deicidas enquanto, de forma arrogante e dolosa, se alegrarem por seus ancestrais terem assassinado o Deus encarnado [4].

Essa é uma questão interessante, pois os judeus estão diante de um dilema: se honrarem os seus ancestrais, desonrarão a Deus. E, se honrarem a Deus, desonrarão os seus ancestrais. Por isso que Cristo disse aos Seus irmãos de raça e aos judeus de Seu tempo que Ele trouxe a espada e a divisão dos filhos contra os seus pais. Não é porque a espada é um estado desejável para as famílias. Mas porque os israelitas e os judeus estão num dilema do qual não há escapatória. De fato, eles não podem escolher ambas as opções simultaneamente. Mas sempre que eles honrarem os seus ancestrais em um sentido indigno contra Cristo, serão deicidas tanto quanto os seus pais.

Esse princípio é positivo, porque se houvesse culpa imputada por solidariedade racial, os judeus não teriam nenhuma esperança de salvação. A raça inteira estaria condenada. E os israelitas raciais como Cristo, idem. Assim, não haveriam os Santos Apóstolos israelitas; a Igreja jamais teria sido fundada em Jerusalém; e a primavera semítica do Cristianismo no Império Romano teria sido impossível.

Antecipando uma objeção contra a visão oriental do sacrifício de Cristo

Os latinos poderiam objetar à visão oriental, mostrando a abundância de textos bíblicos que atestam a substituição dos pecadores em Cristo. Cristo levou sobre Si as nossas iniquidades e cancelou as nossas dívidas, enfatizariam os latinos. Mas a Ortodoxia não nega esse fato. A contradição que ela aponta é o seguinte: os latinos dizem que “levar sobre si as iniquidades” é inexoravelmente levar sobre si a culpa e não a consequência, ou seja, a mortalidade. Cristo morreu, então, forçosamente, Ele levou sobre si as consequências letais de nossos pecados. Não porque Ele tivesse alguma culpa que O matasse, mas porque Ele deixou a tranquilidade de Sua natureza divina, encarnou-Se solidariamente à nossa constituição física mortal, para sofrer à nossa semelhança. Portanto, Ele estava propenso a morrer. Ele tomou as nossas dores e de fato cancelou as nossas dívidas. Porque o salário do pecado é a mortalidade física e a morte foi tragada pela Vida.

Da mesma forma é a expressão “sem derramamento de sangue não há redenção”, na Epístola aos Hebreus. O termo redenção, no grego original, é sinônimo de resgate. Resgate de onde? De uma prisão: o Sheol, o cativeiro da morte. Por isso Cristo, que derramou o Seu sangue, desceu ao Sheol quando esteve morto. Para saquear do inferno, os Seus eleitos falecidos,dentre os que vieram antes dEle.

O inferno eterno, porém, é consequência da culpa individual por atos e escolhas individuais. E não da morte física que o pecado acarreta. Porque os pecadores impenitentes serão jogados vivos no Inferno, após a ressurreição. Há uma diferença, então, entre a mortalidade e a culpa como consequência do pecado. A mortalidade não faz de ninguém um pecador, mas a culpa faz, embora ambas as realidades existam devido ao pecado. É a culpa que leva ao inferno e não a simples morte física.

Notas

  1. A posição protestante implica que os bebês cristãos não são beneficiários desse meio de justificação judicial já que eles não podem professar a fé. No caso, a justificação deles é assumida simplesmente como um fato forense sem qualquer outro meio envolvido. Eles, os bebês, são judicialmente declarados justos apesar de pecadores por solidariedade racial, ainda que inocentes de atos pecaminosos pessoais e incapazes de juízo racional. Mas isso gera um problema colateral: se pecadores impenitentes, ainda que bebês, podem ser justificados sem qualquer fé ou vida devocional, para quê, afinal, elas servem? E o pior: não seria vã a teose como um lento processo? Dizer, como os protestantes, que a vida devocional é meramente um sinal da justificação do pecador, não responde o porquê de ele existir em primeiro lugar ou para quem ele é dirigido.

    Por sua vez, o Romanismo, querendo tratar do problema do pecado original dos bebês e repudiando a idéia protestante de justificação forense, criou a fábula do Limbo. Não se pode dizer que tal invenção é incoerente com a má teologia de onde advém o conto. Mas, em termos de lógica, ao menos, o suposto Limbo provê, considerando o entendimento latino do pecado original, uma solução soteriológica sem grandes lacunas em relação à contraparte protestante.

    No mais, o Protestantismo e o Romanismo discordam quanto ao alcance dessa justificação judicial. Para os protestantes, ela é ampla, geral e irrestrita. Para o romanismo, as penas temporais de cada pecado estão excluídas do perdão. Elas haverão de ser pagas após a morte física do réu, no Purgatório. Tendo quitados todas as penas temporais, todos os réus residentes sairão, cada um a seu tempo, do Purgatório e adentrarão na vida eterna.

  2. Por isso que a idéia romana de Limbo é uma fábula inventada para salvar uma hamartiologia ruim. O conto se dá assim: se os bebês são pecadores por solidariedade racial em Adão e se são privados do batismo canônico, logo, morrendo nessas condições, merecem a condenação eterna. Mas essa conclusão é insuportável para qualquer pessoa normal. Dessa forma, o Romanismo inventou um Limbo onde os bebês poderiam viver eternamente como pecadores, mas sem o sofrimento doloroso daqueles que pecaram por volição.

    Daí que se percebe porque a militância romana contra o aborto é tão aferrada. Porque não se trata apenas de salvar uma vida de um assassinato covarde, mas, sobretudo, de salvá-la do Limbo. Essa hamartiologia é tão néscia que implica na infelicidade de pais devotos perderem os seus filhos nascituros para o Limbo, se a gestação malograr por qualquer motivo. Isso assumindo que o Limbo é real, já que a fábula sequer é unanimidade entre os romanistas. Aqueles, entre eles, que negam a sua existência, ensinam que os bebês mortos sem batismo vão para o Inferno com todas as dores e sofrimentos.

    Para a Ortodoxia e para os protestantes os quais dispensam tais contos, os bebês assassinados são equivalentes aos mártires cristãos quanto ao injusto suplício e aos anjos conservados em graça sem a existência de uma justificação forense quanto à eleição deles.

    A Ortodoxia pode ainda dispensar a doutrina romanista da Imaculada Conceição de Maria. Essa doutrina estabelece que Maria, sendo o Templo no qual Cristo foi gerado, não podia jamais ter sido maculada pelo pecado. Com isso, de um modo mais abstrato, a Ortodoxia concorda. Mas, se para Roma, o pecado original é uma imundície, é forçoso concluir que de alguma forma Maria foi concebida imaculada, misteriosamente distinta a todos os seres humanos. A Ortodoxia enfaticamente discorda: embora a Virgem Mãe tenha, segundo o que é ortodoxo, herdado uma natureza deformada, a deformação não é uma imundície. Não é pecado padecer de doença, e é apenas disso que a mencionada deformação se trata. Portanto, a Santíssima Virgem não é maculada por impurezas e nem foi concebida de forma distinta da Humanidade, embora tenha sido impedida de pecar por toda a Sua vida. Sem pecado e não obstante deformada, Ela estava apta a gerar o Cristo, o nosso Divino Senhor Jesus.

    Além disso, Cristo sentiu todas as fraquezas de Sua natureza humana e as sofreu. Decerto, isso veio de algum lugar e só pode ter sido de Sua Mãe, através da herança de consanguinidade. Se Ele a herdou, se segue que Maria padecia das mesmas coisas. Logo Ela não podia ser imaculada desse sofrimento, embora não tenha nenhuma culpa que a torne impura.

  3. A doutrina clássica sobre a Eucaristia é esclarecida pela teose. Porque, ao contrário da idéia romana da celebração eucarística ser a reapresentação do sacrifício vicário de Cristo — onde, nessa concepção legalista, ela também serve para anistiar os pecados veniais — a teose revela que a Eucaristia é, na verdade, um sacrifício de louvação por meio do qual, pela Real Presença de Cristo, a nossa futura participação na natureza Dele é antecipada por um curto momento durante a Liturgia.
  4. Os judeus, ao se defenderem contra a acusação do pecado de deicídio, costumam argumentar que os verdadeiros responsáveis do assassinato de Jesus foram os romanos os quais eram os únicos que possuíam autoridade legal para executá-Lo. Ademais, Cristo havia dito a todos os presentes em Sua crucificação: “Pai, perdoa-Lhes, eles não sabem o que fazem”, etc.

    Dado que os Santos Apóstolos reiteraram por diversas vezes a realidade do pecado de deicídio contra os seus compatriotas; que o Segundo Templo israelita foi destruído por vingança da parte do Senhor; que Ele sobrenaturalmente impediu que o mesmo fosse reconstruído nos tempos do Imperador Juliano, o Apóstata, e após; e que o Império Romano se cristianizou e perdurou por longos e gloriosos 1.500 anos; só podemos concluir que o perdão de Cristo foi direcionado aos soldados romanos que estavam pilhando as Suas vestes e zombando Dele sem nenhum conhecimento dos fatos e de Quem Ele era.

    De qualquer forma, o ministério terreno de Cristo foi dirigido a Israel e cabia a ele, e não aos romanos, reconhecê-Lo durante aquele período crucial. Mas, ao invés disso, os cabeças do povo, na posição de representantes de todo o país, entregaram o Senhor aos romanos após um julgamento ilegal e por meio de uma falsa acusação de subversão política. Por isso os líderes de Israel se condenaram perante a Trindade e, com eles, o país inteiro. Todas essas coisas ocorreram a despeito dos milagres públicos praticados por Cristo, cuja incredulidade de Seu próprio povo atraiu até mesmo a ira e a consternação do rei pagão de Edessa que quase guerreou contra Israel por esse motivo. E também a despeito das inúmeras profecias claríssimas registradas na LXX sobre o Messias, a qual estava em uso geral e global na época. E, por fim, a despeito do fato de Pilatos não querer executá-Lo, sendo obrigado a fazê-lo pelo populacho para evitar um motim sangrento.

A Legitimidade do Sedevacantismo

Atualizado dia 18/08/13

Introdução

Uma das tarefas de um bom apologista é colocar-se no lugar do adversário, assumindo os seus pontos de vista e a sua cosmovisão. Às vezes essa é uma tarefa ignara, como no caso do pobre São Irineu de Lyon que se encontrou na infeliz situação de ter que estudar meticulosamente todos os absurdos aviltantes do Gnosticismo. São os ossos do ofício, mas é necessário que certifiquemos de que não estamos refutando um homem de palha.

Essa pequena introdução é o princípio que guiará a minha análise do sedevacantismo defendido por alguns tradicionalistas católicos.

A sustentabilidade do sedevacantismo

O sedevacantismo é sustentável teologicamente? Certamente que sim!

Três princípios muito corretos fundamentam o sedevacantismo:

(1) Todo fiel, clérigo ou não, ao cometer heresia ou apostasia é um excomungado de facto. A Igreja, na excomunhão, apenas ratifica uma situação existente a priori. Se o excomungado é um clérigo, ele perde todos os seus poderes e bens eclesiais, acarretando a situação na qual, se ele vir a se penitenciar da heresia, será recebido como um leigo comum.

(2) Perdendo o clérigo os seus poderes, os seus atos eclesiais posteriores ao fato excomungante são inválidos, nulos e sem efeito.

(3) Ninguém, em princípio, está isento de cometer heresia ou apostasia.

O sedevacantismo é um dado da história. Ele é vivo na presença milenar da Igreja Ortodoxa, que nos eventos subsequentes ao Grande Cisma no século XI, declarou vacante a Sé Romana. Inclusive, é bastante interessante pontuar que muitos, especialmente os católicos romanos, erroneamente supõem que o Protestantismo é um cisma que também reclama a vacância da Sé Romana. Porém, como o Protestantismo não possui uma eclesiologia fundamentada numa sucessão apostólica sacramental, um conceito protestante de vacância de Sé é desprovido de sentido.

Contudo, estamos assumindo o ponto de vista tradicional de toda a verdadeira Igreja Católica. Tendo em vista que Roma possui inúmeras divergências em relação à Tradição, a questão posta é: o sedevacantismo é defensável do ponto de vista da Igreja Romana? Certamente que não!

O problema do ponto de vista de Roma

Roma é uma coisa; a Tradição, outra. A Tradição concorda que ninguém está isento de cair em heresia (3) e defende que qualquer herege deve ser afastado da comunhão, em conformidade aos cânones da Igreja (1). Roma, por outro lado, sutilmente diferencia a heresia formal da material, afirmando que somente a formal incorre em pena de excomunhão. Portanto, sob o prisma de Roma, para que a Sé Romana seja considerada vacante por ilegalidade, é necessário: (4) que um usurpador tenha por meio de fraude ocupado o trono papal; ou (5) que o papa, embora legítimo, tenha cometido uma heresia formal.

Uma heresia formal é composta por atos ou palavras públicas, dolosos, contrários a um dogma romano e reiterados, mesmo após admoestações da parte da Igreja[1]. Que um papa possa cometer uma heresia formal, é apenas uma hipótese teológica jamais admitida como concreta devido às conseqüências devastadoras à Igreja Romana. Um famoso opositor da atual fé reformada de Roma, Marcel Lefebvre, pôs o dilema aproximadamente assim: “se um papa comete uma heresia formal, quem o advertirá canonicamente? Quem irá julgá-lo? Sendo ele herege, em que situação está a Igreja? Quem indicará os futuros cardeais ou ab-rogará o cardinalato escolhido pelo herege a fim de que um Conclave verdadeiramente legítimo eleja um novo papa?”. Logo, pela complexidade da tragédia, um papa cometer uma heresia formal, é virtualmente impossível. Essa implicação contradiz a Tradição (3), o que explica porque o governo papal, tal como concebido por Roma, induz a um impasse.

Além disso, toda excomunhão, especialmente a de um clérigo, supõe um processo canônico. Porque ainda que o herege já esteja secretamente julgado por Deus, a Igreja precisa, para si mesma, constatar a heresia e as intenções do herege. Foi o próprio Senhor Jesus quem determinou um processo de admoestações por testemunhas antes da excomunhão do réprobo, sentença que deve ser declarada em Sínodo, representando a Igreja. Não existe excomunhão sem um processo canônico, sem que o réu de heresia mostre publicamente à Igreja o dolo de suas ações.

Roma prevê a excomunhão latae setentiae no caso de heresia. Isso contradiz a Tradição, já que um dos objetivos do processo canônico é a conversão do herege. Entretanto, mesmo na excomunhão sumária, sem julgamento, a sentença condenatória deve ser declarada e confirmada por uma autoridade eclesiástica competente.

Com base em sua conclusão inquisitorial, a Igreja deve seguir o rito adequado para a remoção e a substituição formal do herege. À ela foi dado o poder das chaves do Reino celeste para que ela ligasse e desligasse os seus atos eclesiais no céu e na Terra. Unida a esse poder, está a necessidade intrínseca de um processo canônico, para que medidas sejam tomadas em ordem, num exercício normal de autoridade eclesial, ainda que meramente para formalizar uma situação de fato. A necessidade de ordem se deve, entre outras coisas, ao fato de que a Igreja tem que discernir com calma o que invalidar dos atos pregressos do herege. Senão, certas medidas corretivas seriam impraticáveis. Por exemplo, como rebatizar cada um dos membros de uma seita cismática numerosa que queira voltar à comunhão? É impraticável. Por isso a Igreja já determinou que um batizado, mesmo por meio de um herege cismático, é verdadeiramente batizado se cumpridas a correta intenção e a forma do batismo. Assim, nem sempre convêm invalidar os atos clericais de um herege.

Agora, considere que a jurisdição do papa seja universal. O único poder eclesial de jurisdição homóloga é um Concílio Ecumênico. Porém, Roma considera heresia, denominada de “conciliarismo”, afirmar que um Concílio possa depor, julgar ou condenar um papa. O que é coerente com a (herética) premissa de que um papa pode, ao seu unilateral julgamento, dissolver, transferir ou invalidar um Concílio Ecumênico. Isso significa que não existe na Terra nenhum órgão que possa, legitimamente, instruir um processo canônico contra ele ou ordená-lo para que saia do seu posto por condenação sumária. Sem isso, o papa, ainda que obviamente herege, não pode ser formalmente excomungado e, por conseguinte, nem substituído. E se ele conserva o ofício papal, possui todos os direitos e deveres oriundos de seu título. Novamente, isso contradiz a Tradição (2). Pois a sucessão apostólica é, tradicionalmente, uma sucessão de fé, além de sacramental. Um clérigo que trai a fé, ainda que ele seja sacramentado, deve forçosamente perder não só a sua dignidade eclesial, mas os seus poderes canônicos.

Ao contrário do que diz Roma, a dignidade eclesial está ligada aos poderes episcopais. Para a Tradição, quem perde um, perde o outro. Um papa herege deveria perder ambos. Contudo, do ponto de vista de Roma, ainda que um papa caia em heresia (5) ele não perderá os seus poderes e os seus atos eclesiais seguirão legítimos.

Considere ainda que, para Roma, os sacramentos são indeléveis. Sendo um sacerdote alguém consagrado de forma sacramental, mesmo que ele seja excomungado, permanece sacerdote. Isso significa que um sacerdote, ainda que herege, não perde a sua dignidade eclesial, embora a tenha suspensa no caso dele sofrer uma punição canônica. Ou seja, todo o clero romano, mesmo caindo em heresia, se não for canonicamente julgado pela autoridade competente, não só conserva o seu direito ex officio, como também permanece na sucessão apostólica.

Mantenha em mente que os sedevacantistas simpáticos à fé romana (chamar-los-ei de pró-romanos, já que eles se julgam católicos romanos, a despeito de Roma considerá-los heréticos e cismáticos) referem-se aos papas de nossa era, isto é, de meados do século XX até agora. Resta óbvio que não houveram excomunhões em massa de cardeais neste período e nem assaltos graves e evidentes ao Direito Canônico da Igreja Romana. De modo que não há nada que possa impugnar quer o direito do cardinalato em eleger o papa, quer os conclaves ocorridos nessa era.

Nada houve desde o início dos fatos em discussão, do ponto de vista de Roma, que sugerisse a ascensão de um papa usurpador[2]. Olhando de todos os ângulos, mas ignorando a Tradição e abraçando Roma, não é difícil concluir que os pró-romanos lutam por uma causa perdida.

A obviedade de uma heresia

Mas arguirão eles: “são evidentes as heresias cometidas pelo papa fulano, ciclano e beltrano. Eles são ecumenistas, se reúnem com hereges, não condena(ra)m tais e quais ideologias e mudaram a missa de sempre.” É verdade. Sem dúvida alguma, as objeções são razoáveis, se desconsiderarmos o ponto de vista de Roma.

O fato é que o papa não é apenas o sumo sacerdote. Ele é um monarca e líder autocrata de um Estado político. Assim, uma das funções de um líder político é a de se reunir com gentes de todas as qualidades. Se ainda essa reunião acarreta uma evidente heresia material, ela, per se, não comprova a heresia formal. Da mesma forma, um estadista é um estrategista político. Às vezes, como provou o pontificado de Pio XII no seu auxílio a várias centenas de milhares de judeus, o silêncio e a discrição estratégicas em relação à política alheia são mais preciosos do que o ouro[3]. No mais, o poder papal é tão amplo e ilimitado — em oposição à Tradição, cuja eclesiologia é descentralizada — que ele tem o direito de legislar até a respeito da Liturgia. Como o susposto vigário de Cristo o papa é virtualmente Deus andando sobre a Terra.

É evidente que essa desculpa não justifica o fato do papa, na condição de doutor da Igreja Romana, ensinar uma heresia que ela própria define como tal. Dizer que o papa, ao errar no ensino, é sempre um herege material e nunca um herege formal, é insultar a inteligência do fiel papista. Isso é mera tergiversação, um mero truque dialético que elucubra sobre o que é intrinsecamente insanável, a saber: colocar um pecador, o papa, como a Rocha da Igreja, no lugar de Cristo, o Santíssimo. É óbvio que o papa, ao pregar consistentemente e recorrentemente uma heresia, está agindo de má fé e deveria ser deposto. Ele, como a referência da Igreja, como um bispo de longa carreira e com uma cúria de apoio, jamais deixaria de saber o que está fazendo ou como ensinaram os seus predecessores. Pensar o contrário, nada mais é do que uma atitude desesperada para salvar uma Religião contradizente, porque nunca alguém presumiria semelhante inocência a um herege comum e menos versado.

Seria mais honesto a um papista dizer que o papa herético remanesce papa, simplesmente porque sim. Houveram reis imunes penalmente, e o mesmo se aplicaria ao papa herético. As demais justificativas são meras bobagens impraticáveis.

Ex cathedra, não ex cathedra, ex cathedra, não ex cathedra

Existe uma implicação discreta, mas profundamente perversa na doutrina romana de infalibilidade ex cathedra. Ela permite que o papa, digamos assim, assuma compromissos sem assumi-los de fato, de forma muito similar a um jovem que, ao prestar o juramento à bandeira, cruza os dedos em riso contido.

Como um exemplo, vejamos o pleito dos pró-romanos contra o Concílio Vaticano II. De fato, como eles atestam, o Concílio introduziu inovações claras em relação à fé romana histórica. Para qualquer pessoa imparcial, isso demonstra que a Igreja Romana não é fiel sequer ao seu próprio depósito da fé e muito menos ao verdadeiro depósito apostólico. Porém, para Roma, pela boca do clero progressista, o Concílio é um legítimo desenvolvimento doutrinal. E, contraditoriamente, pela boca dos conservadores, o Concílio é apenas “pastoral” — ou seja, para um bom entendedor, é algo que, pela intercessão dos santos romanos, será um dia revogado e esquecido como um “conciliábulo”, para o gozo dos tradicionalistas. Essa situação, de certa forma hilária, é possível porque a infalibilidade papal, da forma vaga como foi definida, confunde o fiel no seu esmero em definir em qual documento romano e em quais trechos encontra-se um artigo de fé ou não.

O mais grave, porém, é o engajamento de Roma no ecumenismo com outras comunidades cristãs. Em especial com a Igreja Ortodoxa, Roma iniciou os diálogos ecumênicos por meio desse Concílio; animou-a, chamou-a de “irmã”, visitou-a na pessoa do papa João Paulo II, e exortou-a à unidade tão tristemente perdida há séculos. No entanto, para o público interno, Roma definiu-se a si mesma como “a Igreja de Cristo” e chamou a sua “irmã” de um conjunto de “igrejas particulares”. Ou seja, igrejas onde o papa possui canonicamente o poder de enviar legados para fazerem o que bem entenderem de um ponto de vista obviamente não-Ortodoxo[4]. E também o poder de revogar, a qualquer tempo, qualquer eventual concessão de autonomia, por mais minúscula que seja, em relação a Roma. Isso é tudo o que a Ortodoxia abomina.

O mais curioso é que Roma sabe disso. E porque ela foi capaz de iludir a sua “irmã” de uma forma tão baixa? A resposta é brutalmente simples: quando o papa João Paulo II esteve no Oriente comungando e ensinado com os Patriarcas ortodoxos, ele, evidentemente, não foi infalível. Mas quando Bento XVI esclareceu alguns aspectos doutrinais para os seus, ele foi. Vale o segundo caso e não o primeiro. Agora, se esse comportamento seletivo não é nitidamente um engodo, eu realmente não sei o que mais poderia ser.

Como se não bastasse a hipocrisia, Roma ainda acrescenta à injúria, usando os uniatas para pescar seguidores papistas no aquário da sua “irmã”. Afinal, se a “irmã” é cristã, para que ela precisa de proselitismo da parte de Roma?

Porém o papa é, para todos os efeitos, um político. E como tal, ele tem uma descarada língua dupla, embora Cristo tenha ensinado: “seja o vosso falar sim, sim; não, não”.

Conclusão

A posição quasi-divina do papa, a sua irresponsabilidade penal, os seus poderes ilimitados e irretratáveis, a sua infalibilidade convenientemente seletiva e o tradicional cinismo da ostpolitik Vaticana não apenas parecem imorais. Eles são imorais e heréticas. Todas essas atitudes papais reprováveis podem ser, em última análise, imputadas à doutrina romana de supremacia (e não primazia); e, igualmente, à doutrina do poder temporal do papa. Roma decaiu muito, teológica e moralmente, após o Grande Cisma e nenhuma melhoria ela poderá experimentar sem que renuncie de forma honesta a vários de seus dogmas onde essas doutrinas servem como fundamento.

Quando ao ecumenismo insincero de Roma para com as outras comunidades cristãs, não há como interpretá-lo de outra forma senão como um meio torto para reunir toda elas sob a liderança do papa, com o fim de privá-las lentamente de autonomia, até a completa conformação. Por isso, sem que Roma se arrependa de seus erros, não há a menor possibilidade de qualquer relação inter-religiosa honesta.

A verdadeira questão é que o Sedevacantismo é um movimento que realmente possui uma base sólida, porque é próxima à Tradição e ao bom e prático senso. Mas Roma não é a verdadeira Tradição. E não poderia ser diferente porque os papas blasfemam quando dizem ser a própria Tradição ou a Rocha angular da Igreja. Os pró-romanos terão que procurar outro lugar para alcançarem a paz. Ambas, a Roma pré e pós-conciliar, não os quer, considera-os hereges e não tem parte com eles. Para eles, talvez a Igreja Ortodoxa seja a mais adequada.

Notas

  1. Código de Direito Canônico, 1983, Cân. 751.
  2. Na realidade, Roma agride a Tradição da Igreja de uma forma tão absurda e ridícula que sequer admite, em clara oposição à sã doutrina e ao bom senso, que um papa vindo a aceder ao trono por meio de suborno (pecado de simonismo) possa ser considerado ilegítimo. É um fato histórico que o papa Alexandre VI, o mais corrupto de todos os papas, usou-se de simonia para eleger-se. Isso é tão grave e surreal que o arrolamento de Rodrigo Bórgia na lista dos papas legítimos levanta sérias e justificáveis dúvidas sobre se Roma realmente possui uma sucessão apostólica. Porquanto ela é culpada de ter provocado o Grande Cisma do Oriente, onde foi validamente excumungada por um Sínodo com os demais membros da Pentarquia, em conformidade ao I Nicéia e aos Cânones Apostólicos. E, ademais, possui um papa simoníaco cujos atos eclesiásticos para a nomeação de cardeais eleitores do Conclave são indubitavelmente nulos.

    Para Roma, realmente, não importa o que diga a Bíblia — ela a considera nebulosa. Não importa o que diga a Tradição — ela a considera infantil e digna de desenvolvimentos posteriores. Não importa o que digam as leis da Igreja — ela as reputa como sem competência para julgar o papa. Ou seja, é necessário ser muito tolo para não enxergar que Roma só se sustenta sobre si mesma e se importa apenas consigo mesma. Assim, o sedevacantismo não é herético porque supostamente injusto e insustentável. E sim porque ela arbitrariamente o reputa. Se não houvessem disposições canônicas suficientes para o condená-lo — e os que há ensejam dúvidas e disputas — ela os criaria no futuro em nome do “desenvolvimento doutrinal”.

    Se ela se protege até mesmo de acusações de simonia, porque não faria o mesmo em relação às heresias formais ou materiais do papa, como se isso constituísse alguma diferença?

    Na verdade, ela vai tão longe em proteger a sua legitimidade, que Pio XII — ele é nesciamente venerado pelos sedevacantistas — declarou que os cardeais são imunes à excomunhão para fins de eleição papal. Essa determinação é uma clara e direta contradição ao papa Paulo IV e per se refuta a idéia de infalibilidade papal para qualquer pessoa intelectualmente honesta. Os sedevacantistas até tentam minimizar ou harmonizar essa escandalosa e ridícula disposição legal com a Tradição. Para salvarem a reputação de Pio XII e a eles próprios, os sedevacantistas costumam usar diversas distinções sutis de excomunhão, algumas das quais não estariam cobertas pela imunidade cardinalícia. A atitude, aliás, é muito própria da língua dupla do Romanismo. Mas o sofisma deles esbarra num simples fato: a excomunhão sempre foi e sempre será um ato de declaração eclesiástica para qualquer tipo de réprobo, não importa se o excomungado é um herege, um cismático, um apóstata, um indisciplinado, etc. A excomunhão é um anátema que separa o cristão do Corpo de Cristo, não importa o porquê dela.

    Logo, se um cardeal é imune por ocasião do Conclave, mesmo se excomungado por apostasia satânica, tem o direito de eleger ou de ser eleito papa. É evidente que uma Religião pretensamente cristã, que ensina tais absurdos, não se sustenta.

  3. Essa é a razão pela qual o romano pontífice nomeia cardeais “in pectore” em locais onde a prudência o determina. O silêncio diplomático protege o cardeal secretamente nomeado de represálias oriundos de um regime ou sociedade hostil. Ver Cân. 351 § 3.
  4. Ibid., Cân. 333.

Pensamentos Sobre a Infalibilidade Papal

Introdução

Muitos daqueles que se opõem à pretensa infalibilidade papal esquecem que a Igreja Romana infelizmente padece de uma certa língua dupla no que concerne à teologia dela. A fé romana é profundamente legalista e jurídica, logo possui uma forma de expressão sagaz, típica dos discursos advocatícios. Dessa forma, é comum que os opositores citem casos pontuais que, sob um prisma ortodoxo, provam a invalidade dessa infalibilidade. Mas Roma é cheia de sutilezas, de modo que ela não produziu essa doutrina sem estudar minuciosamente esses casos. Por isso, embora esteja em evidênciao absurdo da doutrina pela própria História, a Igreja Romana usa de sua profunda e milenar experiência jurídica para simplesmente tergiversar das objeções. 

Some-se a isso a concepção romana de desenvolvimento doutrinal. Os escritos individuais dos Santos Padres da Igreja, os quais são um subconjunto da Tradição, às vezes se contradizem entre si – e isso também é válido para os Papas. De modo que algumas explanações teológicas, por mais que atendam ao bom senso, são descartadas em nome de um lacônico desenvolvimento, o qual nada mais é do que dizer: “Fulano contradiz esse (ou outro) dogma romano, porque não o compreendia”, etc. Esse descarte arbitrário é um exemplo primoroso da sutileza romana, já que ela ignora um ponto sério. Pois trata-se de um Padre “não” compreender um dogma que, por definição, é obrigatório a crença do fiel para a sua salvação. Haja vista que, na História da Igreja, houveram pessoas anatematizadas post mortem [i], em consequência da objeção passada a um dogma tardiamente definido, porém de verdade eterna; porque o mesmo não se aplicaria aos santos do passado que igualmente o contradizeram? E se eles são dignos de anátema, o que dizer então da santificação que, pretensamente, deveria ser infalível? Decerto em uma resposta, Roma tergiversaria de novo, pontuando queuma coisa é a heresia formal, outra a material, outra a eventual, outra a pertinaz, etc. 

Diante disso, há uma abordagem simples de análise teológica de um ideário, no caso, a suposta infalibilidade papal. Basta para tanto usarmos da regra de fé da Tradição nessa análise: o dogma é válido no consenso dos Santos Padres [ii] e pela coerência que se pode deduzir dele. Pelo contrário, ele é inválido.

Um Concílio Ecumênico contra essa doutrina

Assumamos então que o papa seja infalível. As condições para isso são: (a) ele invoca o seu ofício eclesial; (b) ele dirige-se a toda Igreja; e (c) ele define um dogma acerca da fé. Podemos aplicar essas condições num caso arbitrariamente escolhido onde elas foram atendidas (um só basta, porque o dogma é, por definição, forçosamente válido para todos os casos onde é aplicável) e tirar as conclusões.

Consideremos o Tomo do Papa Leão I apresentado ao Concílio Ecumênico de Calcedônia. O Tomo, sem dúvida alguma, atende a essas condições de infalibilidade: (a) é autorado e apresentado por um papa; (b) é destinado a toda Igreja universal, representada no Concílio Ecumênico [iii]; e (b) define o dogma da dupla natureza de nosso divino Senhor Jesus.

Que o Tomo é infalível, não pode haver dúvidas quanto a isso. Tanto do ponto de vista Romano, considerando a infalibilidade papal; quanto do ponto de vista da Ortodoxia, considerando a infalibilidade dos Concílios Ecumênicos. O Tomo foi recebido, aprovado e incorporado na Igreja como um símbolo de fé e remanesce assim para sempre. O problema, porém, é desvelado na forma como ele foi incorporado à fé, o que refuta sutilmente a doutrina da infalibilidade papal.

Inicialmente, quando o Concílio recebeu o Tomo, alguns o celebraram como uma dádiva petrina, e aclamaram que “São Pedro havia falado pela boca de Leão”. Isso abonaria a infalibilidade papal [iv], se ignorados certos eventos importantes no Concílio. De fato, uns aclamaram o Tomo, mas outros não. Houveram, até mesmo, suspeitas acerca da ortodoxia de Leão. E, em face a isso, o Concílio nomeou uma comissão, sob a presidência do Patriarca de Constantinopla de então, para tratar do assunto. Esse fato, por si só, demonstra que a infalibilidade papal não era unanimidade entre a Igreja. Ou seja, a doutrina não fazia parte do “consenso unânime dos Santos Padres” [ii]. Contudo, há mais além disso.

Quando a comissão tratou de investigar a ortodoxia de Leão, apurou-a com base na carta de São Cirilo de Alexandria ao então Patriarca Nestório, de Constantinopla, com doze anátemas. Ou seja, Cirilo havia se tornado o juiz de Leão em matéria de fé e moral, através dacomissão de investigação. Isso, por si só, nega o dogma romano de que o papa não pode ser julgado por outro homem senão por seu sucessor no papado. Nega que seja ilícito confrontar os escritos de um papa contra um outro [v]; ou mesmo contra um suposto subordinado seu no episcopado, se considerarmos a doutrina romana de supremacia papal. E nega que um papa não esteja sujeito a um Concílio, pois, obviamente, Leão estava sujeito a sofrer excomunhão, se fosse constatado alguma contradição de seu Tomo aos ensinamentos de Cirilo.

Obviamente, a carta de São Cirilo foi infalível, já que o Concílio considerou ambos, o Tomo e a carta, equivalentes. Mas é ensinado, tanto por Roma, quanto pela Ortodoxia, que os bispos (no caso da Igreja Romana, exclusive o papa) não são individualmente infalíveis. Logo, se São Cirilo foi infalível, a infalibilidade dele foi incidental, conforme a Providência divina para o bom andamento do Concílio. Resta claro, porém, por tudo o que foi visto, que a infalibilidade de Leão também foi incidental. Ou seja, nem Cirilo e nem Leão foram infalíveis por força de episcopado; doutrina essa, romana, que é uma verdadeira inovação desconhecida pelos Santos Padres. É essa diferença muito sutil entre infalibilidade incidental e de ofício que nega a doutrina romana de infalibilidade papal.

Conclusão

Por mais que Roma tergiverse ou procure minuciosamente na História exemplos que possibilitem um meio vago de descrever um dogma inovador como no caso da infalibilidade papal, ela não é onisciente e não pode atentar para todos os detalhes. De modo que, superficialmente, o Tomo de Leão parece abonar esse caso. Mas, em profundidade, vê-se situações e fatos incompatíveis com as implicações desse ensinamento específico da Igreja Romana. 

O dogma da infalibilidade papal não se classifica como um ensinamento uno dos Santos Padres. E embora exista de fato uma infalibilidade, ela não é coerente com a infalibilidade prevista para o papa segundo Roma, já que outro no episcopado ou mesmo um Sínodo pode julgá-lo em matérias de fé, mesmo que proclamadas ex cathedra. E, decorrente disso, decerto, é a Igreja Romana que possui uma fé deficiente, já que a falibilidade do papa contradiz diversos outros dogmas seus. Sem dúvida nenhuma, Roma quandoquebrou a comunhão universal com a Cristandade oriental, quebrou a si mesma.

Notas

i. O entendimento romano acerca do caso do anátema de São Leão II contra o seu predecessor, o papa Honório I, é que foi motivado, na pior das hipóteses, por uma heresia material. Ocorre o seguinte: se por uma heresia material se deu um anátema a um papa, que é suposto contar com a assistência do Espírito Santo em decorrência do ofício papal, quanto mais caberia a maldição a um simples fiel equivocado, onde não há disputas quanto ao dever eclesial de excomunhão! Muitos santos negaram, material ou formalmente, as inovações dogmáticas de Roma. Dado que o anátema pode retroagir, porque a Igreja Romana não os condena por heresia? O fato, porém, é que a santificação oficial do fiel também é infalível. De modo que, narealidade, a Igreja Romana se encontra em um beco sem saída Ela nem pode abrogar a santificação do santo herege, nem pode impor-lhe o dogma novo como condição para a salvação.

ii. Cf. o Concílio Romano de Trento, sessão IV.

iii. O fato de Roma não ter reconhecido o cânone 28 do Concílio não mina o argumento. Ele não está em causa neste artigo e a Igreja Romana aceitou a profissão de fé do Concílio como um dogma. 

iv. A aclamação geral seguida à proclamação ex cathedra da bula “Ineffabilis Deus” é um prova da submissão e da consciência da Igreja Romana sobre a infalibilidade papal.

v. Epistola ad Archiepiscopum Parisiensem, Papa Leão XIII, 1885.