Porque Eu Não Creio no Aniquilacionismo


Dante e Virgílio no Inferno por William Bouguereau.

Eu penso que a doutrina do Aniquilacionismo é uma resposta emocional, até compreensível, para um problema que é inexistente. O Aniquilacionismo, a crença de que os ímpios deixarão de existir, é uma reação justa contra a crença dos horrores desproporcionais da doutrina de um Inferno supostamente real. É mais razoável crer que os ímpios serão punidos com a não-existência, e assim eles serão punidos de alguma forma, do que crer que eles serão torturados sem fim por um deus que seria supostamente Amor. É óbvio que a doutrina do Inferno é totalmente descabida e desproporcional. Ela é uma invenção medieval tardia, incorporada ao Catolicismo, e herda o conceito pagão de um deus irado e passional.

O Catolicismo não é a Ortodoxia. A verdadeira pornografia do “Inferno de Dante” que o Catolicismo entende por real de uma forma ou de outra (basta que vejamos as visões de Dom Bosco), não é a doutrina ortodoxa. O Catolicismo apresenta um deus passional, que tortura e machuca, e exige que os cristãos se punam em reparações para satisfazê-lo. Um deus dividido entre o amor e a justiça, porque ele não consegue amar sem punir. Um deus que precisa se vingar do pecador, tanto em vida quanto após a morte dele. O deus católico não é um deus de amor, porque se ele fosse amor, os católicos jamais teriam criado a Inquisição. É previsível que uma doutrina como o Aniquilacionismo venha para refutar essa concepção tão baixa e dividida de Deus. Porém, a doutrina ortodoxa mostra que essa concepção não é baseada na realidade, é uma heresia, daí que o Aniquilacionismo não tem razão de ser.

A realidade é diferente do Catolicismo. Deus é realmente amor. Ele ama de verdade, sem estar dividido entre Amor e Justiça. Ele ama a vida, do justo e do pecador, e por isso a preserva para sempre. É o que diz o Livro da Sabedoria: Deus ama a vida, por isso ela subsiste (Sabedoria 11:25-26). Por isso o Aniquilacionismo é impossível. Deus não põe um fim à existência, justamente porque Ele é Amor. Como Deus também é impassível, inerentemente imune às emoções, Ele ama de forma constante, sem oscilar. Ele nos ama pelo que somos, impassivelmente. O que fazemos ou deixamos de fazer, não pode mudá-Lo. Por isso, por mais difícil que seja admiti-lo, Ele ama o Diabo tanto quanto Ele ama um santo. E porque Ele é amor, ambos, o Diabo e o santo, subsistirão para sempre.

Deus realmente pune, mas não como entende o Catolicismo. Ele pune o malfeitor para dar um freio ao mal e não porque isso O satisfaz. Tão logo o pecador se torna impotente para fazer o mal, Ele deixa de puni-lo. A morte rende o pecador impotente para continuar pecando, logo, após a morte, Deus não pune mais o pecador. Essa é a doutrina ortodoxa. Deus não está divido entre o Amor e a Justiça. Ele ama, pune apenas enquanto o mal está em curso, e de forma perfeitamente equilibrada e proporcional.

Os pecadores experimentarão o Inferno. Mas o Inferno não é um lugar ou uma prisão, tal como ensina o Catolicismo. O Inferno, ou melhor, o Lago de Fogo e Enxofre (Apocalipse 20:10) é a própria glória de Deus. É o Lago da glória de Deus (as pedras ardentes de enxofre são um simbolismo antigo para a deidade). O Inferno, o Paraíso, a Árvore da Vida, a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, são todos uma mesma coisa: a visão da glória de Deus. A diferença entre o Inferno e o Paraíso não é o que eles são, mas como o pecador os experimenta. O Inferno e o Paraíso são a postura do pecador ao contemplar a glória eterna e luminosa de Deus. A postura do pecador pode ser de repulsa, como os demônios durante um exorcismo; ou de alegria e aceitação, como os santos durante uma visão divina. Porém ambos, os demônios exorcizados e os santos em visão, estão diante da mesma coisa: a glória divina.

O Inferno é fogo, porque a glória de Deus é luminosa e ardente como o fogo. E não porque ele seria um lugar que foi queimado por incêndios. Desse fogo, há dois testemunhos aparentemente conflitantes. A julgar pelo milagre do Fogo Sagrado, é um fogo divinal que não dói (vejamos também o Livro de Êxodo 3:2-3). É um fogo que gera calor, mas não causa uma ardência dolorosa. Já a julgar pelas queixas dos demônios durante os exorcismos, é um fogo que realmente queima. Essa aparente contradição pode ser explicada na suposição de que o fogo da glória de Deus normalmente não arde, mas que só arde durante os exorcismos, porque os espíritos maus precisam ser imediatamente expulsos. Mas tão logo eles sejam expulsos, o fogo deixa de arder. O que se pode dizer, e o que se sabe pela experiência e pelo testemunho de São Serafim de Sarov, é que ele não necessariamente dói, mesmo se toca um pecador que não é santificado ou preparado para ele.

O Inferno atormenta porque quando o pecador morre, a alma perde o meio corpóreo para realizar as suas paixões. É como uma crise permanente de abstinência dos vícios. O sofrimento do Inferno são as nossas paixões bestiais que ardem sem satisfação, em nossa completa impotência. Se não aprendermos a viver como Deus, impassíveis, as nossas paixões e vícios vão nos torturar depois da morte e eternamente. O mundo que Deus criará após a ressurreição geral dos mortos, é um mundo imortal que será inóspito para as nossas paixões atuais, por isso o perigo do sofrimento infernal. A doutrina ortodoxa da santificação é a doutrina de como o cristão pode vencer essas paixões e tornar-se um santo impassível. A doutrina ortodoxa da salvação é a doutrina de como o cristão pode contemplar a visão da glória de Deus, sem que ela vire um Inferno.

Essa verdade do sofrimento infernal, que em nada é similar ao Inferno Católico, explica porque envelhecemos e morremos. Nós envelhecemos e morremos não só porque nós não existíamos e tendemos a voltar naturalmente para a não-existência. Mas sobretudo porque a velhice diminui o poder das nossas paixões. Apenas poucos cristãos se tornam santos, ou seja, mortificam completamente as paixões, ainda em vida. A grande maioria morre passional. A morte do corpo serve para tornar o processo de abandono das paixões (o processo chama-se “ascetismo”) mais simples. O processo ascético é mais fácil de se completar, sem a própria carne para atrapalhá-lo.

Mesmo que não completemos o processo, ou nos recusemos a fazê-lo ainda que desencarnados, Deus, impassível, nos ama incondicionalmente. Ele quer que vivamos com Ele eternamente, mesmo que não queiramos viver sem satisfazer as nossas paixões, ou que o queiramos longe de nós. Nessa postura infernal, a nossa vivência é triste e melancólica, similar a um filho doente mental que tem que ficar algemado para ser controlado, porque o amor dos pais não permite que o doente fique longe deles. É similar ao amor parental a um suicida, que é alvo do amor da família, mesmo rejeitando-o e não compreendendo-o ao ponto de tentar se matar. É similar ao amor de Deus que não afasta os Seus filhos doentes, mesmo que eles O queiram afastado. Somos rendidos impotentes, sofridos em nossa abstinência eternamente, mas perto de Deus, imersos em Sua glória.

Deus não pune, não está irado conosco depois que somos rendidos impotentes na nossa morte. Somos nós mesmos que causamos o ardor do inferno, quando em contato com a glória de Deus. Como não há punição após a morte, o Aniquilacionismo deixa de ter razão de ser. É uma pseudo-refutação para uma mentira (o Inferno Católico).

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