Sobre o Concílio Pan-Ortodoxo Realizado em Creta, no Semestre Passado



Sua Santidade o Patriarca Ecumênico Bartolomeu preside sobre a Divina Liturgia Sinodal e concelebra com os Primatas das Igrejas Ortodoxas Locais na Igreja dos Santos Paulo e Pedro em Chania, Creta. Foto: John Mindala.

Em curtas palavras, um grande desperdício de tempo. É uma pena, porque haviam grandes temas pendentes de resolução.

O Concílio foi um fracasso. Ele foi feito para que todas as 14 Igrejas locais da Ortodoxia aprovassem as resoluções apenas se se manifestassem de forma unânime. Os Patriarcados russo e antioquino não estavam lá, entre outros que também faltaram. O consentimento unânime tornara-se impossível. Só o Patriarcado russo representa 2/3 de todos os ortodoxos do mundo. O Concílio foi uma conferência de uma pequena minoria de bispos pró-Ocidente.

O ecumenismo foi o tema principal do Concílio. Haviam gemidos e temores de que ele seria uma espécie de uma versão ortodoxa do Vaticano II, onde o sincretismo haveria de ser oficialmente promulgado na vida litúrgica e devocional da Igreja. Isso não se concretizou, mas também não foi posto um limite acerca do que a Igreja pode tolerar na coexistência com os heterodoxos. A coexistência, mesmo pacífica, é incondicional? Pode-se tolerar tudo, mesmo as seitas mais absurdas, coisa que nem mesmo os códigos penais dos Estados modernos toleram? Ou seria essa coexistência restrita aos membros do Concílio Mundial de Igrejas? Isso o Concílio não diz. Ele aprovou um laicismo radical.

Historicamente, a coexistência pacífica com os heterodoxos é limitada pelo caráter do Estado. Se o Estado é confessionalmente heterodoxo, a Igreja busca ser tolerada conjuntamente com outras as seitas que ele tolera. Se o Estado é confessionalmente ortodoxo, a Igreja pode coexistir com seitas que são muito parecidas consigo, mas costuma interferir profundamente no funcionamento público das seitas restantes. Imperadores e bispos santos fecharam templos e baniram para longe os seus líderes pagãos e heréticos. O Concílio, ao falar genericamente sobre a coexistência, condenou homens santos como Justiniano, Teodósio, e outros, como os bispos Cirilo de Alexandria e Crisóstomo de Constantinopla, etc. Esses homens fecharam templos de heterodoxos e deixaram os cabeças incomunicáveis com os seus séquitos. Eles não conheciam a laicidade de Estado. Como essa realidade passada encaixa-se no conceito de coexistência do Concílio? Ele não diz.

Negar o passado parece ser um movimento calculado, porque o Concílio carece de um preâmbulo que deveria receber formalmente as decisões dos Nove Concílios Ecumênicos anteriores (os Sete Concílios Ecumênicos, mais o IV Concílio de Constantinopla e os Sínodos Palamitas). Tal preâmbulo é um costume dos Concílios passados e sua falta diz muito sobre as reais intenções dos partidários do ecumenismo. As consciências eclesiais dos padres do Concílio os incomodaram, por isso preferiram fugir do passado. O fato é que se tentou impor à toda a Igreja um ecumenismo profundo, anti-canônico e quasi-sincretista. Pela Providência Divina, os ecumenistas falharam. Mas introduziram impurezas e omissões o bastante para render o Concílio imprestável. Uma delas é o reconhecimento, errôneo, dos batismos dos heterodoxos. A Igreja não reconhece a validade dos batismos feitos fora de seu seio, embora, como um incentivo para os novos convertidos, Ela não costuma repeti-los com freqüência. Basta, em muitos casos, Ela fazer a Crismação para conferir a graça celestial que falta ao batismo irregular. Isso é um ato de liberalidade e não de reconhecimento sacramental. O Concílio passou da liberalidade relativa para o reconhecimento oficial, o que também implica num reconhecimento, errôneo, de uma realidade eclesial fora da Igreja. Porque fora dela haveria uma comunidade de batizados, o que é falso.

Até havia um espaço para uma tolerância maior ao ecumenismo, a despeito dos cânones da Igreja. Na história, o que o Papa Francisco cunhou como um “ecumenismo de sangue” é uma realidade ainda que incômoda. Quando a perseguição anti-cristã é generalizada, não é incomum que ortodoxos e heterodoxos compartilhem os locais de adoração. Quando a Igreja foi ferozmente perseguida pelo Imperador Valens (Valêncio), ariano, os cismáticos novacianos emprestaram os seus templos aos ortodoxos. Os protestantes americanos emprestaram os seus templos aos ortodoxos russos, quando eles não tinham um local para adorar, senão os navios da Marinha Imperial da Rússia. Esses exemplos mostram que há um legítimo espaço para o ecumenismo, se a causa é de natureza humanitária, privação forçada ou pobreza, e se os envolvidos são parecidos e não se impõem condições prévias. Se o Concílio não estivesse com o ânimo festivo de aprovar o ecumenismo total por razões sentimentais, ele poderia muito bem, com um ânimo sério, analisar um possível e legítimo relaxamento dos cânones por razões humanitárias, por exemplo. Tratou-se de uma solução desperdiçada.

O desperdício era inevitável. Como as Igrejas Locais deveriam se manifestar unanimemente, a Igreja de Jerusalém e a Igreja de Antioquia não poderiam ser pacificadas. Elas brigam sobre a jurisdição do Qatar e sem um Imperador global que possa arbitrar sobre o assunto, e sem a disposição de ambas de chegarem a um acordo, um Concílio como o formatado em Creta, não poderia dar uma solução para um problema importante de sua competência. O que é uma prova de que um Concílio Ecumênico depende de um Rei Ecumênico (Imperial).

Resta saber quais serão os reflexos deste Concílio daqui para frente. Principalmente considerando que os principais Patriarcados se omitiram de participar. Será que haverão cismas? A aguardar.

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