A Minha Visão para o Futebol Brasileiro: um Novo Calendário Anual

Leia a postagem anterior.

Reformular o Campeonato Brasileiro e os estaduais não é suficiente para a reforma do Futebol sem que eles sejam inseridos num calendário anual racional, perfeitamente dividido e organizado. Certamente, um dos motivos pelo desinteresse público aos campeonatos estaduais é o conflito de datas existente entre eles e um campeonato muito mais importante, a Libertadores. Além do mais, um campeonato internacional requer prioridade de recursos, o que implica no sacrifício dos campeonatos regionais concorrentes. Os clubes que disputam a Libertadores se sentem constrangidos a relegarem os estaduais à negligência e à perda de qualidade técnica.

O mesmo pode ser dito da Copa do Brasil, que conflita com o Brasileirão, os estaduais e a Libertadores. Os problemas do futebol brasileiro, além da falta de dinamismo do campeonato nacional principal e do excesso de rodadas, também residem no fato de que o atual calendário anual prevê muitos campeonatos superpostos um ao outro.

A feitura de um bom calendário anual de competição deve obedecer aos princípios de prioridade, exclusividade geográfica e hierarquia:

  1. Não haverão dois campeonatos com a mesma abrangência geográfica: a Copa do Brasil deve deixar de existir em prol de um novo, valorizado, reformulado e exclusivo Brasileirão.
  2. Todo campeonato deverá ter um meio exclusivo de acesso, que se dará pela vitória do campeonato de menor abrangência geográfica: um campeonato estadual é ingressado por meio de vitória nos respectivos campeonatos regionais ou metropolitanos; o Brasileirão, por meio dos estaduais; a Libertadores, pelo Brasileirão, etc.
  3. Se dois campeonatos, um regional e um outro de maior abrangência, estão em conflito de datas, os disputantes do campeonato maior serão dispensados do campeonato menor, ganhando, ademais, o benefício de ingresso concedido pelo menor. E.g.: se um campeonato estadual concede ingresso ao Brasileirão e está em conflito com a Libertadores, os disputantes nacionais da Libertadores devem ser considerados já classificados para o Brasileirão seguinte, a depender da performance.
  4. O calendário nacional deve ser estabelecido em função dos campeonatos internacionais, prevendo o adiamento de jogos e de campeonatos nacionais em benefício deles, se necessário.
  5. Todo campeonato deve ser organizado de maneira que jogos ocorram todos os dias da semana, desde que um clube não jogue mais do que uma vez por semana. Deve-se instituir o rodízio de estádios, mesmo que isso implique na perda de mando de um clube, porquanto é preciso respeitar as datas de manutenção e de eventos culturais diversos desses locais.

Com base nesses princípios, um bom e razoável calendário anual para o Futebol poderia ser esse:

  1. O mês de Janeiro será reservado para amistosos e para pré-temporada geral.
  2. Os meses de Fevereiro e Março serão reservados aos campeonatos regionais e metropolitanos, sem prejuízo à Libertadores. Ou seja, considerando que os todos os disputantes nacionais da Libertadores não poderão dar perfeita atenção a esses campeonatos, eles devem ser dispensados de competi-los e considerados pré-classificados para os seus respectivos estaduais. Os campeonatos regionais e metropolitanos serão eliminatórios para os estaduais seguintes.
  3. A primeira quinzena de Abril — reservada à pré-temporada dos estaduais.
  4. A segunda quinzena de Abril ao final de Junho — reservado aos campeonatos estaduais e aos classificatórios para os regionais e aos metropolitanos do ano seguinte, de maneira que observar-se-á a regra de classificação automática aos campeonatos imediatamente menores em benefício dos disputantes estaduais e aos disputantes nacionais da Libertadores. Os campeonatos estaduais serão eliminatórios para o Brasileirão seguinte.
  5. O mês de Julho ao final da Libertadores — reservado aos amistosos, às férias e à pré-temporada do Brasileirão.
  6. O término da Libertadores a meados de Dezembro — reservado ao Brasileirão, aos torneios de repescagem para vagas em sul-americanos e em campeonatos regionais e metropolitanos do ano seguinte. Ademais, autorizar-se-á os torneios entre regionais e metropolitanos com os classificados no primeiro semestre, exclusive os disputantes do Brasileirão.
  7. O dia de Natal — reservado ao Jogo de Acesso.

Como a proposta anterior de uma nova fórmula para Brasileirão não previa a Libertadores e a dispensa aos campeonatos estaduais, uma adaptação para tornar o campeonato nacional adequado ao calendário anual aqui exposto seria essa:

  1. Preservar-se-á o primeiro conjunto de vinte e sete vagas para os campeões estaduais e o segundo conjunto de uma vaga para o clube estrangeiro convidado.
  2. O terceiro conjunto de vagas será ampliado para vinte vagas. Ele será dividido proporcionalmente entre as Federações estaduais que possuem infra-estrutura padrão FIFA e o restante
    será reservado aos remanescentes da Libertadores que não caíram na Primeira Fase.
  3. A primeira fase do Brasileirão será formulada em oito grupos de seis clubes.

Essa formula é em certa medida similar à atual Copa do Brasil, com a exceção de que ela prevê uma fase de pontos corridos e um número menor de clubes. A propósito, a Copa do Brasil é uma conseqüência dos eventos que levaram à Copa União em 1987, que causaram o enxugamento do Brasileirão e tornaram inúteis os estaduais. A Copa União foi uma inovação, um divisor de águas, da qual a CBF jamais se recuperou. Ela poderia ter absorvido o melhor do Brasileirão e da Copa do Brasil num único campeonato nacional. Porém, no rescaldo daquela Copa, ela estabeleceu dois campeonatos que sobrecarregam até hoje o atual calendário. Por conseguinte, com um calendário inflado, todos os jogos foram desvalorizados. Para revalorizá-los e não matar os estaduais, é necessário excluir do calendário a mancha inflacionária representada pela Copa do Brasil e ampliar e dar exclusividade ao atual Brasileirão. Não se pode ampliar demais o Brasileirão. Quanto mais amplo o Brasileirão, menos valorados serão os estaduais e menor a qualidade técnica do campeonato como um todo.

A questão da Copa Sul-Americana

O problema dos campeonatos sobrepostos, de igual abrangência geográfica, não é exclusivo da CBF. É, igualmente, da Conmebol. A Copa Sul-americana nada mais é que o segundo turno da Libertadores. A Recopa seria a disputa final entre ambos os turnos. A compatibilização do calendário brasileiro também depende da Conmebol adotar o princípio de exclusividade geográfica e sacrificar a Sul-Americana e a Recopa em favor da Libertadores. A Libertadores é mais tradicional e valorada.

Essa mudança não depende da CBF. Nós brasileiros não devemos ter ilusões quanto a Conmebol vir a agir com bom senso nesse ponto. O conflito entre o calendário do Brasileirão é um fato posto. Pode-se mitigar o problema, adotando o princípio de que um clube deve ter o direito de solicitar o adiamento de sua partida no campeonato nacional, se uma outra é iminente no campeonato sul-americano. Isso implica que o Brasileirão, embora ocupe um semestre inteiro do calendário esportivo, deve possuir poucas rodadas possíveis, para comportar as eventuais suspensões inclusive relativas às datas-FIFA de convocação para a Seleção brasileira.

O Brasil tem direito a cinco vagas na Libertadores e a oito na Sul-Americana. Todas elas devem ser definidas no Brasileirão:

  1. Os primeiros colocados da Libertadores: os quatro semifinalistas do Campeonato Brasileiro. A vaga restante será disputada num torneio de repescagem entre os quatro desclassificados das quartas-de-final do Brasileirão.
  2. Os primeiros colocados da Copa Sul-Americana: os três últimos colocados na disputa de repescagem da Libertadores, seguidos pelos quatro classificados na disputa de repescagem entre os desclassificados nas oitavas-de-final do Brasileirão.
  3. Os torneios de repescagem deverão ser considerados torneios paralelos ao Brasileirão e terão fórmulas próprias. Não há nenhum problema nisso. Eles serão disputados por times desclassificados e de abrangência geográfica indefinida e não deverão receber taças de vitória.

O direito de associação e o direito à proteção de imagem

Quem foi o campeão do País no ano de 2002? Um apressado dirá que foi o Santos (pelo Brasileirão). Entretanto, ninguém pode realmente dizer quem foi. Não se pode dizer que foi o Corinthians (pela Copa do Brasil), porque há o Santos. E vice-versa. Alguém poderia apelar para a tradição, para o costume e reafirmar o título do Santos. Mas quem a imagem de campeão futebolístico no País é a CBF e ela o conferiu a ambos.

Há uma só nação e dois campeões nacionais.

Idem para a Conmebol. Quem foi o campeão do continente sul-americano de 2005? O Arsenal pela Copa Sul-Americana, o Boca Juniors pela Libertadores ou o Internacional pela Recopa? Ninguém sabe. Os títulos são sobrepostos.

Eis o ponto. O Estado não pode ferir o direito constitucional à livre associação das entidades privadas e das pessoas. Com razão, a FIFA pune as Federações esportivas que usam a Justiça comum para interferir nos resultados dentro de campo e na organização privada das associações de desporto. A CBF e a Conmebol tem o direito de realizarem os campeonatos que quiserem, desde que não abreviem a vida dos atletas ou fraudem os torcedores pagantes.

Tanto quanto o Estado deve respeitar a privacidade das pessoas, ele também não deve se submeter ao capricho alheio e ser feito de bobo. Entidades, como a CBF, que realizam campeonatos superpostos não deveriam ter o mínimo direito à proteção estatal da imagem. Como proteger um bem imaterial que não é certo, claro e inequívoco? Se a CBF quer usar de seu direito de associação para realizar campeonatos de campeões indefinidos, que não reclame se os mesmos forem considerados juridicamente equânimes a uma pelada no meio da rua num dia de Domingo. Que não reclame se o Estado se recusar a subsidiar tais práticas esportivas, por dar preferência aos campeonatos mais antigos.

Se a CBF quer independência, então ela deve agir com independência! Ela não deveria ter direito à isenções fiscais, a um quinhão em loterias estatais, à renegociação de dívidas tributárias, nada. Que aja como uma entidade privada, sustentada com os recursos privados de seus associados! Se ela quer essas benesses, então que deixe o Congresso influir na sua administração. Se ela deseja o direito à proteção da imagem de seus campeões, então que ela dê ao Estado o direito de exigir que o campeonato tenha exclusividade geográfica para um ano civil e que haja segurança jurídica para a fórmula de competição, etc. Se o Estado investe algo na CBF, ele tem o direito a influir no produto investido, como em qualquer relação comercial.

O futebol é importante demais para ficar em mãos privadas da CBF ou da FIFA. A bagunça que essas entidades provocam nos respectivos calendários é mais uma prova de que em mãos privadas e sem nenhum pudor, um bem imaterial vira um caça-níqueis. É legítima a prosperidade. Mas com ordem e decência e, no caso das relações internacionais, com subsidiariedade.

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