Habemus Antipapam! Dominum Georgium Marium, Romanae Ecclesiae Cardinalem Bergoglio (1)

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O novo degrau descido pela Igreja Romana

Se havia — e não havia — qualquer resto de dúvida sobre a completa falta de sucessão apostólica por parte da Igreja Romana, agora não há mais. Pelos seus próprios padrões, a Igreja Romana acaba de entronizar um antipapa de fato e de direito na Basílica de São Pedro: Francisco I.

Na história da Igreja, as renúncias papais se deram num contexto de profunda desonra ou para a Igreja Romana ou para o Papa demissionário. Não podia ser diferente com o Papa Bento XVI, agora emérito. E não foi e não é diferente. A eleição de Francisco I foi a eleição de um partido ideologicamente inimigo do Papa Bento XVI. Esse partido foi derrotado no Conclave papal de 2005 e representa uma linha pós-Conciliar que estava em vias de ser inviabilizada pelo conservadorismo de Bento XVI, fosse o Papa mais jovem, menos polido, e mais determinado. Os derrotados no Conclave de 2005 viraram a mesa e assumiram a cátedra de Roma. Aos olhos de Bento XVI.

Evidentemente, para maquiar esse fato, a desculpa oficiosa da renúncia papal dada pelo Vaticano é verosímil. O Papa Bento XVI é um homem idoso, sobrecarregado e cansado. Normalmente um idoso nas condições deles quereria — e merece — descansar. Superficialmente falando, parece um evento trivial. Mas em dois mil anos de Sé Romana, Bento XVI não foi o primeiro Papa idoso a ocupar a cátedra. Nem mesmo o primeiro em mais de duzentos e cinquenta Papas a ter uma saúde frágil e um ânimo desgastado. Portanto, nesse angu há muitos caroços. E um caroço chocante e revelador foi o Papa Francisco I. Não pelos (de)méritos dele propriamente, porque o Cardeal Bergoglio nem vivia na Cúria. Ele é um ponta-de-lança, se consciente disso ou não, é uma outra história. Mas porque o surgimento de Francisco I revela os estratagemas dos curiais que o puseram lá.

Nada do que aconteceu até aqui foi mera coincidência. Bento XVI foi efetivamente defenestrado por gente insatisfeita pelo magistério dele. Havia até mesmo uma ameaça de morte não tão velada contra o Papa por parte de supostos membros da Cúria. Se ela era fantasiosa ou não, é irrelevante. Primeiro porque se trata de um crime. E segundo porque, de qualquer forma, ela revela o estado de ânimo da hierarquia da Igreja para com o seu próprio Papa.

O jogo de cadeiras no Vaticano

A gota d’água da guerra civil curial foi o escândalo do Vatileaks. O Vatileaks é um escândalo onde reside por detrás uma suposta chantagem ou contra o Papa Bento XVI ou contra os seus colaboradores de confiança ou contra ambos. Ela supostamente se deu assim: a Cúria romana estabeleceu um mecanismo pelo qual ela podia controlar a nomeação de clérigos liberais, de tipos como o Papa Francisco I. O mecanismo envolvia uma complexa engrenagem diplomática capitaneada pela Secretaria de Estado do Vaticano e pelos núncios apostólicos espalhados pelo mundo. O Papa Bento XVI quis bloquear essa engrenagem pela nomeação de seu homem de confiança e colega de Santo Ofício, o Cardeal Tarcísio Bertone.

Porém, Bertone não é um homem impoluto. Aparentemente, ele tem bloqueado os esforços de cardeais voluntariosos para moralizar o Banco do Vaticano. O Banco, considerado mundialmente como de péssima reputação em termos de controle de lavagem de dinheiro, encontra-se em mãos da facção conservadora da Igreja Romana. Justamente a facção que suporta o Papa Bento XVI. Daí a suposta chantagem: se os curiais progressistas não podem controlar as nomeações episcopais e tiverem ameaçadas as conquistas ecumênicas, eles não deixarão que os conservadores prosperem. A começar por impedi-los de tirar proveito, impunes, da usura vaticana.

A situação pode ser mais complexa do que parece à primeira vista, porque não se trata apenas de levar o governo de Bento XVI ao impasse. O problema é a possibilidade dos familiares ou dos amigos íntimos de Bento XVI estarem envolvidos com as supostas tramóias com o Banco, o que motivaria tamanha leniência contrária aos padrões bancários internacionais. E, obviamente, a renúncia do Papa. Em todo caso, comicamente, apenas o mordomo dedo-duro foi processado nas investigações do Vatileaks sem maiores consequências às facções em guerra no Vaticano.

E ainda há a questão da pederastia romana. A carreira eclesiástica de Bento XVI foi crítica para a Igreja Romana pelos cargos sensíveis que ele ocupou. Sendo a carreira dele difamada por sua suposta leniência no combate à pederastia clerical de um lado, e por sua suposta leniência no combate ao escândalos financeiros do outro, o resultado global é a imagem de uma Igreja Romana tão decadente quanto a de Rodrigo Bórgia. Em pleno século XXI. Nesse contexto, não é incompreensível que o Papa tenha renunciado. Além de seu magistério ter sido levado ao brejo pela sua própria Cúria, é desconhecido o número de bandidos pederastas que escaparam das mãos dele. O Papa de fato se pôs numa situação muito vulnerável.

A questão da suspeita de leniência em casos sexuais é muito delicada. Mesmo Marcial Maciel, o bandido pederasta de batina mais famoso do mundo, só foi “punido” por Bento XVI — oh, quão difícil e terrível jugo! — a uma vida contemplativa. As conclusões da investigação vaticana foram convenientemente publicadas num momento em que sequer Maciel poderia ser processado. E, mesmo se pudesse, o Vaticano, sem pena de morte, não serve para nada.

Essas coisas confirmam o conhecido adágio macabro que pesa sobre a Igreja Romana: “ele só não cometeu o pecado de se casar”. Se um padre agir como um pederasta e como um tarado, é bem possível que ele escape ou que seja protegido por um bando de chicaneiros abutres. E quanto aos cúmplices dos pederastas, o máximo que costuma a acontecer é uma transferência-promoção. No entanto, se um padre cometer o crime de ser homem, de agir como um homem, e se casar, será automaticamente banido do sacerdócio! Sem misericórdia ou parola! E se algum papista desavisado se atrever a sugerir (!) que um padre pederasta de alguma forma não recebeu o dom celibatário que pediu a Deus, já está dogmaticamente anatematizado!

É realmente necessário nos questionarmos o porquê do Cristianismo Ocidental ter uma tendência irresistível a ser efeminado?

O punhal se afunda nas costas do Papa

Bento XVI caiu. Mas não sem mandar recados. Ele resmungou timidamente contra a porfia clerical em suas últimas audiências, sem dar nomes aos bois. Tal como esperado de um homem que reside num ambiente religioso efeminado e acovardado. O murmúrio papal foi ignorado. Na verdade, o Papa foi publicamente zombado e humilhado.

No momento que em o novo Papa se apresenta pela primeira vez ao povo a partir do Palácio Apostólico, é costume que ele homenageie o seu antecessor estendendo um tapete com o brasão do Papa anterior na sacada do apartamento papal. O Papa Francisco I, pela primeira vez em nossa era, foi apresentado com um tapete em branco. E não é só isso. Ele foi apresentado com os cardeais integrantes da facção inimiga dos conservadores: Hummes e Tauran. Francisco I também foi apresentado ao lado de Agostino Vallini, o que é interessante, pois esse cardeal de facção conservadora é claudicante. Vallini já foi contra a Missa Gregoriana, quis a excomunhão da Fraternidade São Pio X, mas nutre uma relação razoável e de confiança com Bento XVI. Ele aparenta ser um purpurado bastante maleável às ocasiões. Fosse ele um político brasileiro, ele bem poderia pertencer aos quadros do insosso PMDB.

Em síntese, a facção progressista da Igreja Romana desfrutou discretamente da sua vingança, temperando-a com ironias finas e imperceptíveis ao populacho. Como se ela sussurrasse ao episcopado conservador: “seja a sua memória apagada da face da Terra”.

O fato é que a ameaça de “morte” ao Papa Bento XVI previa um prazo de doze meses para a sua execução. Curiosamente, no exato fim do prazo, o pontificado de Ratzinger morreu. Um pouco após de ele tomar conhecimento do relatório conclusivo do Vatileaks. Ademais, a ameaça prometia que o Papa seria sucedido por um cardeal italiano da facção progressista: Angelo Sodano. Não veio Sodano ao trono papal, é verdade. No entanto, veio um outro ainda melhor para as fantasias progressistas: Bergoglio. E ao contrário do que dizem os tontos — eles o dizem porque a nossa geração perdeu a noção bíblica de cidadania jus sanguinis — Bergoglio é um legítimo italiano, filho de italianos, com um nome italiano e um legítimo europeu por raça. O Cristianismo — mesmo na versão corrupta oferecida pelo papado — foi, é, e continuará sendo um produto dos filhos de Jafé. Para o bem ou para o mal.

Contudo, Bergoglio é o Presidente Obama da Igreja Romana. É interessante pontuar, inclusive, que Obama e Bergoglio compartilham algo em comum: ocupam os respectivos cargos ilicitamente.

A era do eclipse romano

Será que Bento XVI renunciou porque o relatório apontou algum envolvimento seu? Não se sabe. Será que ele renunciou para proteger os seus chegados? Não se sabe. Será que foi porque os inimigos dele prometiam botar a boca no trombone e arruinar a reputação da Igreja Romana como um todo? Não se sabe. O fato é que os beneficiários da saída de Bento XVI são bem conhecidos, e não são exatamente simpáticos ao Papa “Emérito”. O fato é que a renúncia papal foi precedida por diversos atos clericais de felonia, desde a resistência à Missa Gregoriana ao quasi-cisma na Áustria. O Papa Francisco I está em vias de promover uma revolução a forçar o Concílio Vaticano II até as últimas consequências, no caminho quase oposto ao de Bento XVI. Os teólogos liberais estão em transe, extasiados, com a expectativa de verem reabilitados a espúria Teologia da Libertação, o Ecumenismo com os pagãos e outras aberrações. Isso só pode resultar numa coisa: cismas.

Por mais que seja dura a realidade de um sacerdote sodomita, pederasta, tarado ou usurário, o fato é que esses crimes não se comparam ao crime contra a fé. No pior dos mundos, é preferível um Rodrigo Bórgia promíscuo e assassino, embora intelectualmente ortodoxo, a um Pio X herege, mas impoluto na carne e na consciência. O crime contra a fé é o pior e o mais insidioso dos crimes. O Senhor Jesus perdoou os assassínios de São Paulo, mas ao Anti-Cristo Simão Mago, fez com que ele fosse um dos primeiros a serem lançados no Lago de Fogo. O nosso Deus Trino perdoou a violência de Davi, mas ao apóstata Acabe exterminou a ele e a descendência dele. Escolher um antipapa para moralizar a Igreja Romana, ainda que ele aja como uma versão masculina da Madre Teresa de Calcutá, não é melhor do que deixar Roma aos pés de um Papa vacilante e capenga. É por isso que os curiais progressistas, com a sua estratagema, só estão apressando a queda de Roma como um todo. O Senhor Deus ama primeiramente a Si mesmo, Ele tem uma noção muito clara de prioridade acerca do mal que Ele deve lancetar primeiro. Logo, os blasfemos são sempre os primeiros a sofrer a Sua ira direta.

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