A Fuga do Papa Bento XVI

O Papa Bento XVI renunciou por motivo de saúde. A princípio, a atitude dele foi celebrada e apresentada como um modelo de humildade e piedade. Pouquíssimas pessoas, e isso mostra o quão alienada é a nossa geração, viram a renúncia do Papa com preocupação. Ou pior, como um ato de fraqueza egoísta. Essas poucas pessoas tem aumentado em número desde a renúncia do Papa. Entre elas, já estão inclusos alguns purpurados da Cúria Romana. Mas elas ainda são a minoria.

A alienação é notável, porque não ocorreu às pessoas que celebram a suposta piedade da renúncia do Papa, que tal evento não é normal acontecer, muito menos por algo trivial, como um problema de saúde. Nós estamos acostumados a ver essas ocorrências em governos civis porque eles encontram-se dessacralizados e subvertidos. Mas seria inconcebível a um medieval que Carlos Magno renunciasse ao seu bel-prazer. Bem como seria ao cristão antigo se Teodósio, depois de por a Igreja no píncaro do Império Romano, renunciasse por uma simples contingência da vida, comum a todos os mortais na velhice. Foi basicamente isso que Bento XVI fez.

O sentimentalismo das pessoas as cega para o fato de que os poucos Papas que renunciaram na História, três apenas, o fizeram num contexto de profunda desonra para eles ou para a Igreja Romana. Mesmo Celestino V, o único papa que renunciou em tempos de normalidade religiosa, foi chamado de covarde em seu tempo e acabou enclausurado pelo seu sucessor depois de uma fuga vergonhosa.

Enquanto o Papa toca, a Igreja Romana dança

Considere que houveram Papas e Patriarcas mártires que não renunciaram à dignidade oficial nem sob tortura, nem sob a mira das armas. E Bento XVI renunciou apenas porque se sentia mal ou ao menos é isso que o Vaticano quer as nações acreditem. Diante dessa realidade surreal, é muito transparente o porquê de Celestino ter sido difamado. É muito transparente, diante da honra que o papado representaria se não estivesse desligado pelo Grande Cisma, o quão macabra é a cena Papa abandonar o Palácio Apostólico para tocar piano no seu retiro em Castel Gandolfo. Bento XVI, consciente disso ou não, estava alegremente tocando e vituperando sobre a cova dos fiéis que morreram exercendo o episcopado. Especialmente sobre a cova dos bispos mártires. O único atenuante dessa bizarria é o fato da Igreja Romana estar sem sucessão apostólica legítima ao menos desde a ascensão do primeiro Papa simoníaco: Rodrigo Bórgia.

A razão da bizarria é simples: embora o governo papal contenha liberdades e direitos ilícitos do ponto de vista da Tradição da Igreja, um dos direitos papais é a renúncia, não se espera que ele renuncie. O papado, e qualquer outro governo, tem a sua autoridade vinda do próprio Senhor. Ele não é um emprego normal. O Papa não é um simples estagiário ou um empregado doméstico, embora hipocritamente se chame de “Servus Servorum Dei” ao lado de seus atributos papais de vice-Deus. Como tal, ele não pode (ou não deveria) abandonar as suas responsabilidades apenas porque se sente frágil e cansado.

O papado importa privilégios. Privilégios importam deveres. A conduta inadequada de um líder em sua posição divinamente dada é ingratidão para com Deus. A renúncia, tecnicamente, também. Se o Papa é um servo, quem é o servo para sacudir o jugo ao qual o seu Mestre o constrangeu? Tanto pior se um governante da verdadeira Igreja desprezar a responsabilidade para o qual está sacramentado. Com que autoridade ou direito um Patriarca ortodoxo poderia desprezar o sacramento episcopal que recebeu de Deus para o bem de Sua Igreja? Se um Papa tem privilégios oficiais, ele deve ter uma conduta compatível com o seu dever moral: morrer no cargo. É por isso que os Papas não costumam renunciar. Eles sabem que esses deveres e privilégios são consequências próprias da sacralidade do cargo o qual, por conseguinte, não existe para a pessoa do Papa, mas para a Instituição. Bento XVI, seja qual for o motivo de sua renúncia, desonrou a Igreja Romana.

A mensagem que o Papa Bento XVI deu ao mundo religiosamente iletrado, é que o Papado é um governo tão sacro quanto o presbiterato rotativo da Igreja Presbiteriana. Daqui por diante, os próximos Papas serão pressionados a dar uma prova de sua piedade no exemplo de Bento XVI.

Rumores tenebrosos em Roma

A renúncia de Bento XVI é muito estranha. Até demais. O fato é que ela veio na esteira do escândalo do Vatileaks. Segundo rumores, a Comissão de investigação do escândalo acabou por descobrir uma rede pederasta operacional no Vaticano. Bento XVI teria renunciado para abrir caminho a um sucessor jovem cujo papado longevo venha a cortar esse mal pela raiz.

Isso dá mais luz à atitude do Papa, caso seja verdade. Contudo, a suposta estratagema de Bento XVI mesmo assim não justificaria a renúncia papal. O Papa é um monarca absolutista e o Vaticano é um Estado soberano. Na hipótese dessa rede de corrupção existir, cabe ao Papa e aos seus auxiliares de confiança, compartilhar essas informações com os outros governos. E que os governos dêem encaminhamento penal aos criminosos de batina em seus respectivos países! Quando os governos não atuarem ou quando os criminosos estiverem dentro do território papal, cabe ao Papa fazer gestões para trazer os criminosos a si e julgá-los com toda a severidade que a Doutrina exige. Inclusive com a eventual aplicação de pena capital.

Se o Papa limita-se a chorar e a pedir desculpas às vítimas da pederastia clerical, sem fazer mais nada, apesar do poder teórico que ele dispõe, então o Vaticano não serve para nada. Na sua omissão (criminosa se o rumor é verdadeiro) e sem uma sucessão apostólica legítima, quando menos, o Vaticano torna-se apenas um circo grotesco. E quando muito, ele torna-se um empreendimento internacional de usura ilícita, deficitário e inidôneo para qualquer padrão europeu. Em ambos os casos, a Igreja Romana jamais deveria ter um poder temporal se a espada do Papa é feita de borracha. Quem brinca de espadas ou de poder temporal, são as crianças e não os governos. A Igreja Romana deveria se levar mais a sério se ela deseja ser reputada como séria.

O Vaticano, tal como se encontra, só serve para dar imunidade judicial ao Papa. O resto dos papistas fica a ver navios.

Remendo novo em roupa rota

Alguns histéricos entre os papistas vêem o rumor e a renúncia de Bento XVI como um sinal dos tempos e como uma confirmação das profecias de tipos como os fatimidas. Pura bobagem. A única coisa que o rumor confirmaria, se ele é verdadeiro, é o padrão histórico da existência contínua de uma banda clerical podre na Igreja Romana. Não há nada novo debaixo do sol romano. O papismo sempre foi notório por conviver com um núcleo de tarados e ladrões no seu seio. O simonismo das indulgências papais foi uma das causas célebres da Reforma Protestante. E os vícios sexuais da Cúria são uma constante na Idade Média.

A incrível ingenuidade dos papistas nos frutos colaterais do celibato chega a comover. Muitos deles sinceramente não sabem porque é estúpida a idéia de enfurnar num local fechado um monte de homens solteiros de várias idades, constrangendo-os, ademais, a períodos obrigatórios de introspecção (ócio, neste caso). E tampouco são capazes de saber o porquê das prisões americanas, sem visitas íntimas e com longos períodos de ócio, estarem infestadas de sodomia. É claro que há uma correlação: se o objetivo de uma instituição é internar os seus homens num local fechado de modo que eles não forniquem, mas fiquem introspectivos, então eles devem ser castrados. É necessário padecer de muita idiotia para crer que só porque alguém atravessou uma porta de mosteiro ou de prisão, magicamente deixou de ter genitália. Tal ingênuo realmente acredita que se você tirar o alimento diário de um homem, ele não sentirá fome! Ele de fato acredita que o faminto não será capaz de comer pedras em desespero! Não é essa uma crença estulta?

Os evangélicos são tão estúpidos quanto os papistas, quando ensinam aos seus jovens a esperarem per se o casamento para o coito, ao invés de os prepararem de forma ostensiva para que se casem o mais cedo possível e assumam bem as responsabilidades familiares.

Para essas coisas, a réplica manjada do papismo é o fato do celibato (real, próprio da pessoa, e não meramente auto-imposto) ser um dom celestial. Os papistas só se esquecem que o celibato é um dom obviamente extraordinário, caso contrário a humanidade se extinguiria. Ele decisivamente não é próprio para ser utilizado em larga escala por todo o clero. A tara pederasta no romanismo é o típico exemplo de como uma má idéia, mesmo pretensamente teológica, naufraga nas pedras da realidade. Um homem extremamente sedento é capaz de beber águas salinas na privação, ainda que isso o mate. Além do mais, o dom do celibato não implica ou presume o comportamento anti-social de se enfurnar num retiro vitalício, por mais espiritual que isso seja.

A tara sexual é comprovadamente viciante. Ela é tão ou mais forte que a heroína. Embora o celibato per se não provoque a pederastia, um pseudo-celibatário pode ser levado à sodomia pelo ambiente de privação, e da sodomia reiterada ao vício sexual, sem jamais ter dado quaisquer sinais de tendência em momentos anteriores da vida.

“Bento, o arregão”

Barbara Gancia, jornalista do horroroso panfletário “Folha de São Paulo”, cunhou a frase de efeito acima. Eu não concordo necessariamente com (todos) os motivos que ela alegou ao proclamá-la. Mas a frase é inquestionavelmente apropriada para descrever a ocasião.

A pilha de areia papal onde Roma está assentada

No entanto, essas coisas servem para mostrar a qualquer pessoa (especialmente se o rumor é verdadeiro, senão, o passado basta), tenha ela algum conhecimento teológico ou não, que há algo muito errado com Roma. Roma se separou da Igreja há vários pares de séculos. Ela selou o seu destino quando modificou o credo Niceno-Constantinopolitano, a despeito dos juramentos Papais que prometiam preservá-lo sob pena de anátema. A Igreja Romana, ao introduzir a cláusula Filioque, voluntariamente anatematizou a si mesma. Os papistas inventam mil e uma desculpas para este relapso. Mas elas são irrelevantes, já que a verdadeira questão é o juramento ao qual os Papas se vincularam perante a Igreja Católica (terrenal e celestial, representada nos Concílios Ecumênicos) e perante os habitantes do mundo inteiro (representados nos Imperadores cristãos do antigo mundo conhecido, que guarneciam e presidiam os mesmos Concílios). O Grande Cisma e os escândalos posteriores do papismo foram apenas um desenrolar necessário desse simples fato.

Se o cristão desconhecedor de Teologia deseja saber onde está a Igreja verdadeira, existe um impressionante sinal que ele pode verificar por si mesmo. Há na Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, um milagre anual que atesta qual prelado porta o válido sacramento da sucessão apostólica. É o único milagre conhecido pela humanidade que tem data e local para ocorrer. Bem como é o milagre operacional mais antigo e regular em termos de continuidade. Porque relacionado à ressurreição de nosso Senhor, ele é tão antigo quanto a própria Igreja. Os ortodoxos o chamam de “Milagre do Fogo Sagrado”.

O milagre consiste na inflamação de velas portadas exclusivamente por mãos de altos prelados da Igreja Ortodoxa. E apenas da Ortodoxia. O fato ocorre durante as celebrações da Páscoa na Igreja do Santo Sepulcro, onde Cristo ressuscitou. Os outros prelados não-ortodoxos, desde armênios monofisistas aos católicos romanos, também tentaram obter a chama, mas sempre fracassaram. O fogo é inofensivo.

O milagre é desconhecido no Ocidente, e compreende-se claramente o porquê.

A resposta à queda da instituição papal não está e nunca esteve em Fátima. Sempre esteve em Jerusalém de onde os Santos Apóstolos partiram em sua saga. E nem poderia ser diferente. O mais famoso dos milagres romanistas, a aparição de Fátima, é uma fraude. É um belo conto de pesca, decerto. A realidade é que os videntes de Fátima, além de crianças iletradas, e portanto sem qualquer autoridade para ensinar à Igreja, eram meninos levados que se contradiziam uns aos outros. Jacinta dizia que a Virgem usava saias até os joelhos. Os demais, até os pés. Lúcia dizia que a Virgem aparentava ter 12 anos. Depois se desdisse. Os videntes disseram que a Grande Guerra terminaria no último dia da aparição. Terminou meses depois. No mesmo dia, alguns viram o Sol bailar. Outros, entre os presentes, apenas um simples brilho. E o resto do mundo, obviamente, nada. Um vidente via e ouvia. Um outro apenas via. Sem mencionar as fraudes documentais e a falta de fé do próprio Vaticano relativa ao evento.

O contraste com o Milagre do Fogo Sagrado é gritante: o Fogo é público, acessível, uniforme, todas as testemunhas vêem a mesma coisa, etc. Tal como os milagres de Cristo e dos Seus Apóstolos. Mas enfim…

E Moisés falou a Coré e a toda a sua congregação, dizendo: Amanhã pela manhã o SENHOR fará saber quem é seu, e quem é o santo que ele fará chegar a si; e aquele a quem escolher fará chegar a si. Fazei isto: Tomai vós incensários, Coré e todo seu grupo; e, pondo fogo neles amanhã, sobre eles deitai incenso perante o SENHOR; e será que o homem a quem o SENHOR escolher, este será o santo; (Números 16:5-7)

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