Muito Além da Guerra de Gaza – Parte V

Leia o artigo anterior.

PRELIMINARES: A reação do regime está aqui e a vingança baixa escolhida por ele está aqui. A reação aduladora e degradante dos americanos está aqui.

Até hoje penso como alguém que vai a um fórum internacional pedir apoio político não garantido para o seu povo, poderia estar quebrando um acordo. Quer dizer que se eu vou à Justiça questionar um contrato, eu automaticamente estou quebrando-o? Quer dizer que, segundo Israel, eu não tenho direito de invocar os meus direitos e nem a jurisprudência internacional para defender os meus direitos? Só mesmo na mente surtada e delirante dos líderes israelenses! Ao menos agora todos sabem que por “negociações” de paz com os palestinos, quando Israel menciona “sem pré-condições”, ele quer dizer, em bom português: “não mencionem os seus direitos internacionais durante as nossas conversas! Isso é desleal! Isso é um golpe baixo! Isso não se faz!”

O regime alega que o acordo de Oslo impõe que as partes devem chegar a soluções negociadas. Mas entre o compromisso de negociar e a renúncia formal de direitos há uma diferença abismal. E tal compromisso não pressupõe o direito do regime de ser intransigente, provocativo e de violar as leis internacionais.

Uma visão menos turva dos fatos

Na nossa jornada pela história da tomada da Palestina pelos sionistas, ficou claro que o Hamas não é um grupo terrorista, não no mesmo sentido que se atribui o adjetivo a Al-Qaeda. O Hamas é uma versão árabe dos grupos de resistência europeus que lutaram durante a ocupação nazista em vários países. Essas resistências também atacavam civis, assim como as guerrilhas comunistas onde resistissem nos países não alinhados à União Soviética. Na verdade, justo ou não, terrível ou não, vil ou não, o ataque a civis era uma tática de guerra mui usada pelos Estados mais civilizados: pela Inglaterra contra os alemães e os colonos, pelos alemães contra os soviéticos, pelos soviéticos contra o seu próprio povo e contra os alemães, pelos ianques contra os confederados, pelos japoneses contra os chineses, etc.

Israel, não fugindo à macabra “regra”, mata civis palestinos aos borbotões. Os números das baixas não se discutem. O que Israel nega é apenas o dolo de suas ações, embora impeça o trabalho de observadores neutros, difame mecanicamente os que testemunham as suas ações in loco, e rejeita a aplicabilidade da Convenção de Genebra para se garantir. Israel atua como aquele réu que a despeito de milhares de testemunhas, está cada vez mais convicto de sua inocência. Que a despeito da montanha de evidências, simplesmente diz que não há provas. E, havendo provas, diz que a lei criminal não se aplica a ele, salvo quando prejudicado pelo Hamas, claro.

Não estou a dizer que o Hamas é justo em todas as suas ações individuais. Não é. Mas foram também justos os Aliados quando bombardearam Dresden? Foram justos os alemães ao massacrarem os eslavos? Foram justos os grupos judaicos encrustados na elite soviética em coordenarem e viabilizarem o abate de milhões de cristãos eslavos? Foram justos os croatas papistas em massacrarem os sérvios ortodoxos? Foram justos os soviéticos em estuprarem um milhão de mulheres alemãs? Enfim, é evidente que uma guerra não é uma obra de justiça à parte de qualquer mácula, se e quando ela é justa. A guerra existe porque existe a mácula e o pecado, mesmo se ela é teologicamente justa e sacra. Ela é uma contingência da vida humana imperfeita e carente de correções constantes, seja em luta por um direito nacional pecaminosamente negado ou para sofrer as justas consequências de um pecado nacional.

Uma medida interessante — mas falha porquanto há casos complexos para os quais ela não se aplica — que permite a avaliação moral de uma refrega, desde que presumido um ambiente de leis de honra, é a proporção. Se um beligerante não ataca a sua população civil, não é justo que o outro passe a atacar a do primeiro, tal como covardemente fizeram os ingleses aos nazistas. Se o beligerante usa armas que permitem a sua defesa, não há honra militar em se usar uma arma que aniquile a infraestrutura inimiga por completo, tal como queriam os russos e os americanos fazerem uns aos outros.

Os palestinos foram roubados e repentinamente expulsos de suas terras pelos judeus sionistas. E foram brutalmente desarmados pelos britânicos. Obviamente, as suas opções foram minoradas ao chão desde o início dos combates. Por sua vez, os aliados dos palestinos não adquiriram nenhum equilíbrio militar relevante com o regime sionista, senão há poucos anos no rescaldo da guerra do Yum Kippour. Portanto, os palestinos são um povo invadido, despojado, desarmado, e virtualmente sozinho — o auxílio oculto dos países árabes não é uma aliança militar convencional. E o poder militar de Israel é um dos maiores do mundo.

O Hamas ataca civis israelenses. Com foguetes manufaturados, muitos sem ogivas para voarem mais longe, sem controle eletrônico de trajetória, etc. E Israel ataca civis palestinos. Com poder de fogo com potencial para destruição em massa, com reabastecimento ilimitado ao alcance da mão, armas automatizadas, veículos pesados de combate, um exército regular e duas poderosas agências de inteligência. O Hamas consegue prender e executar alguns soldados e colaboradores do inimigo. Israel também. Aos milhares: discricionariamente e sem julgamento, como numa verdadeira guerra. Além do mais, Israel emprega a milenar tática de cerco contra a população palestina, apesar de criminalizada pelas leis internacionais. O Hamas, por seu turno, não está estruturado para mobilizar um cerco contra os israelenses.

Um responde militarmente ao outro. Por isso, o assunto não se trata de uma mera questão de justiça. Até porque o injustiçado foi o mais fraco, que ainda vive a despeito de vários poderes — como Israel, o Egito e a Grã-Bretanha — o terem combatido e oprimido. Estamos diante de um Estado contra uma guerrilha, tal como foram o Irgun, o Haganah e o Lehi contra o Estado Britânico. As guerrilhas judaicas, embora os sionistas rejeitem isso instintivamente, equivalem ao Hamas islâmico. Contudo, o Hamas não traiu um Aliado de guerra generalizada que quase sacrificou o próprio Império para salvar os poloneses e os judeus. E o Hamas não invadiu o país de ninguém.

O assunto se trata de colocar os fatos em perspectiva.

Contra uma guerrilha popular e difundida, somente a exterminação em massa, como faziam os romanos. Algo que Israel ainda não tem estômago para fazer, já que sequer cumpriu a ameaça de invadir Gaza por terra. Essa é a desvantagem da estratégia israelense de guerra de fadiga: ela afeta os dois lados em combate. Resta saber quem será impaciente e abaixará as armas primeiro: Israel ou os palestinos.

Embora os palestinos estejam em êxtase pela simbólica vitória deles em Gaza e na ONU, Israel ainda é forte. É cedo para cantar vitórias, mesmo que palestinos mereçam um pouco de alegria e esperança. Mas o tempo está claramente a favor dos palestinos e contra Israel. Os palestinos podem contemplar vários sinais auspiciosos da reparação divina para a causa deles: eles estão em condições de processar o regime sionista pelos seus crimes de Estado. O último avanço militar de lebensraum que o regime conquistou foi em 1973. E no alvorecer deste século, Israel falhou em todos os seus objetivos militares. Inclusive, e especialmente, em relação ao Irã.

Comparemos o delirante Eretz Israel com a estabilização geográfica da qual os israelenses estão forçosamente submetidos. Delirante porque era um projeto que roubaria as terras dos árabes desde o Cairo a Bagdá, engolfando a Jordânia, a Síria e metade da Arábia Saudita. Os sionistas tiveram que reduzir as suas pretensões para a área do Mandato Britânico. Mas a Grã-Bretanha teve o bom senso de dar a Transjordânia para os árabes. Somente sobrou a pequena área judaica da partilha da Palestina para os sionistas roubarem. Não podemos imaginar os imensos problemas e o sofrimento que o mundo padeceria hoje, em especial os árabes, se os sionistas tivessem pegado toda a área que cobiçavam.

Consideremos também a falta de apego dos judeus israelenses para com a terra tomada: o irregular crescimento populacional judaico em relação às outras minorias étnicas em Israel, os constantes movimentos migratórios de judeus israelenses para o Ocidente, o crescimento constante da população árabe a despeito de todas as dificuldades militares e civis, a alta taxa de abortos no país, etc. Essas coisas são tão deletérias ao sionismo, que as entidades de caridade israelenses imploram à Diáspora judaica para que os membros dela tragam bebês judeus para o país. É claro, como cristão, eu sei que ter uma criança é um privilégio divino, embora eu não tenha uma. Ocorre que normalmente as pessoas tem bebês porque querem amar uma família e não porque tê-los é um meio eficaz de resistência civil contra a raça árabe do seu país.

O que está claro — e não é necessário ser um profeta ou um analista militar para vê-lo — é que o projeto sionista é um retumbante fracasso, apesar da aparente invencibilidade do país em seus anos iniciais. Essas vitórias eram de Pirro, porque as nações árabes haviam acabado de conquistar a independência e naturalmente demoraram algumas décadas para acomodar as suas instituições militares. Em todo caso, o Senhor Deus já havia posto um freio fortíssimo nas ambições dos conspiradores sionistas. Assim, por se tratar de uma arrogante e malogrado projeto de engenharia social, os palestinos também tem o afeto natural à terra ao seu lado. A tendência é a fadiga atingir Israel muito antes dos palestinos. Porém, é possível que o regime se torne cada vez mais totalitário em resposta ao desespero e ao isolamento mundial, tal como os zelotes recrudesceram a sua injustiça no cerco à Jerusalém. Elementos fanáticos na sociedade israelense não faltam para tomar de assalto o governo. Institucionalmente ou não. Esses mesmos elementos são uma das causas do desânimo e da vontade de emigrar daqueles israelenses que só querem viver uma vida normal e pacífica.

Quando os amigos não ajudam

Tentando minimizar a má fama do apoio americano incondicional a Israel, Zbigniew Brzezinski afirmou que os Estados Unidos não são uma mula estúpida que segue tudo o que os israelenses fazem. Porém, é um fato conhecido que os americanos se sacrificam por Israel às vezes com danos aos próprios interesses nacionais.

Uma vez que os Estados Unidos estão insensíveis e obstinados em se conduzir dessa forma indigna, para que os palestinos ganhem a reparação que lhes é de direito, os americanos devem perder a sua influência mundial. Essa necessidade não é devido à questão palestina. Mas ao fato de que cristianismo americano perdeu a sua função civilizatória. Os evangélicos americanos possuem idéias e práticas profundamente opostas à fé sadia. O grupo mais influentes deles, a Direita religiosa americana, crê numa religião que espera de forma entusiástica e ansiosa por um grande morticínio mundial. Os católicos romanos, imersos em escândalos sexuais e em inovações rituais, não possuem vitalidade e apoiam quietamente a reengenharia social do país através da imigração irrestrita de católicos latinos. Os protestantes históricos estão perdidos na sua obsessão iníqua de sexualizar e feminizar a Igreja, além de abjurarem em massa à fé de seus pais. Os católicos ortodoxos são uma minoria sem influência. E por fim, os próprios americanos são muito diferentes étnica e culturalmente do que eles eram há 100 anos atrás.

Sendo os EUA a fonte primária desse um Cristianismo decadente e confuso, eles precisam passar a tocha da civilização para um outro filho de Jafé que tenha um mínimo de noção verdadeiramente cristã de dignidade civilizacional. No momento, somente a Rússia se destaca entre as nações. O que não quer dizer que ela está pronta e aperfeiçoada para a responsabilidade. Mas ela é de longe a melhor e a mais promissora filha jafetita que a humanidade tem. Se este século não será um século russo para contrapor o século anglo-judaico passado, ao menos a Rússia deverá guiar a Europa na recuperação de sua sanidade cristã.

O mistério do declínio do último Império Anglo-Saxão

Se o Império Britânico caiu por causa de sua sanguinolência contra os próprios irmãos de fé e de carne, o Império Americano precisa se retrair para que o Cristianismo são respire e volte a florescer. Por isso que a queda da civilização ocidental, causada principalmente pelo morticínio generalizado de euro-descendentes, não é o fim dos filhos de Jafé. Mas um recomeço.

Não houvesse o Papa romano atentado impenitentemente contra a unidade da Igreja e investido com violência desmedida, prolongada e fútil contra os protestantes, não haveria secularismo e outras tantas doutrinas deificadoras do homem sem Deus. A Igreja romana nada logrou com o cisma e, como castigo, ela viu a sua própria Cristandade européia se partir em pedaços — para depois ela própria se dividir em discórdia no Concílio Vaticano II.

Não fosse o doentio apetite canibal dos anglo-americanos contra os seus irmãos, os confederados, os irlandeses, os holandeses, os alemães e outros, o mundo inteiro seria hoje tão cristão quanto fora no começo do século passado. E não houvessem essas tragédias para ceifar a vida de e minar a fé de tantos cristãos, não haveria uma seita evangélica que se dá ao despeito de viver uma vida em constante transe e alienação. A atual condição cultural e institucional dos Estados Unidos é o último elo desse plexo teratológico.

O governo dos Estados Unidos está para cair sob o seu próprio peso. Não é mais uma questão de “se”, mas “quando”. Isso está ocorrendo porque os EUA voluntariamente abriram mão de sua condição de fazendeiros do mundo para viver uma vida fácil por financiamento usurário. E, havendo uma dramática mudança demográfica no país, o povo que foi uma vez foi responsável pela Águia americana alçar vôo, hoje está definhando em números e em influência. O país é o seu povo histórico e nativo, ainda que o neguem os mais fanáticos. Se este povo cai, aborta os seus filhos, definha ou perde a saúde, o país cairá com ele. É simples assim.

Alguns sinais sutis desse fim melancólico já são palpáveis: a América abandonou o programa do ônibus espacial, ela passou a cobrar impostos dos americanos residentes no exterior, ela perdeu para a China a condição de maior parceiro comercial do mundo, as ameaças americanas de sanções financeiras contra a ONU já são ignoradas, a América já não é tão militarmente voluntariosa, o dólar está sendo paulatinamente abandonado como moeda internacional, a participação americana no PIB mundial caiu quase pela metade nesta década, etc. Winston Churchill passou para a história como o coveiro do Império Britânico. E é muito possível que Obama receba a mesma pecha em relação à sua presidência.

Para não ser injusto com os americanos, devemos admitir que o próprio Ocidente destruiu cada um de seus Impérios Europeus, um após o outro. E abandonou voluntariamente a sua outrora benéfica influência religiosa e cultural. Os Estados Unidos são apenas a última peça da fila de dominós a cair, como que seguindo uma tendência geral.

O Hamas e a Al-Qaeda

O Hamas e o Fatah são as forças militares que os palestinos tem à disposição no momento. Agora que a Palestina é reconhecidamente um Estado, eles são governos autônomos de fato e de direito. Nada diferente da história do estabelecimento de Israel e a incorporação dos grupos terroristas judaicos ao exército do regime. Claro que esse estado de coisas está muitíssimo longe ideal. Mas os palestinos simplesmente não possuem outra força que os defenda do poder hostil que os oprime diariamente há décadas. Esse poder contesta todas as resoluções que foram manifestadas a ele em relação ao conflito, exceto a que lhe deu existência. E mesmo essa resolução que reconheceu o regime, ele a cumpre apenas parcialmente. Pois invadiu a cidade de Jerusalém, que não lhe foi dada, e a ocupa até hoje.

Essa é a diferença fundamental entre o Hamas e a Al-Qaeda. O Hamas, a despeito de suas táticas e de todo o desencadeamento da guerra, é uma instituição governamental que bem ou mal, decentemente ou não, fala em nome de um povo e legalmente representa esse povo em Gaza. Portanto, os seus objetivos e o seu raio de ação são circunscritos a uma região e a uma necessidade geo-política conhecida, efêmera e contigencial.

A Al-Qaeda, por outro lado, é um culto islâmico internacionalista. Ela não tem nenhum alvo nacional especifico para atacar. Ela é visionária, porque luta por um califado islâmico, sem mencionar como ele será, os seus fundamentos legais e religiosos, onde estará, quem o governará, etc. Ela carece de um objetivo concreto, o que mostra que as suas ações são, a despeito das racionalizações complexas, tão gratuitas quanto a de qualquer gangue. Isso explicaria o fato delas serem esparsas e pontuais. Como a Al-Qaeda carece de um objetivo, ela realmente não representa ninguém, salvo a si própria. E como qualquer grupo similar, ela é fraticida e tem atacado principalmente muçulmanos. Ela não é essencialmente diferente de outros visionários violentos, tais como: os Jesuítas durante a Contra-Reforma, o Gush Emunim judaico, os sertanejos de Antônio Conselheiro, dos Davidianos, os membros do Aum Shinrikyo, etc. Porém, sem dúvida, é uma organização civil, paramilitar e criminosa que precisa ser extirpada da terra.

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