Muito Além da Guerra de Gaza – Parte IV

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Uma péssima escatologia para uma péssima conduta

Consideremos as contradições imensas da escatologia do sionismo cristão. Os seus adeptos alegam que a profecia sionista de retorno à Palestina da posteridade dos antigos deicidas foi realizada. E os judeus seriam, inconfundivelmente, os beneficiários dela. Porém, como eles admitem, os judeus haviam sido expulsos como nação da Palestina porque rejeitaram a Cristo.

Agora, um detalhe: desde quando o Senhor concede o cancelamento de um castigo pela incredulidade obstinada, sem que o pecado que lhe deu justa causa seja denunciado pelo próprio pecador? Os judeus, em geral, ainda são incrédulos. Alguns até mesmo celebram o que os seus antepassados fizeram com Cristo! Como o Senhor, que nunca toma o culpado por inocente, pode retirar a Sua santíssima mão incondicionalmente?

E mais: porque o Senhor faria isso às custas de cristãos árabes e palestinos que habitavam há séculos a terra de onde eles foram violentamente expelidos por bárbaros e por traidores da Cristandade? O Senhor, na vigência do Antigo Testamento, não poupava Israel de ser exterminado por Sua ira justamente porque Ele providenciava e preservava para Si um remanescente fiel? Porque agora Ele teria mudado o seu proceder constante e regular? A escatologia sionista não faz sentido!

Mas concedamos o benefício da dúvida aos fanáticos. Suponhamos que o objetivo do Senhor não era punir o Seu povo sem motivo, mas salvar os judeus de uma exterminação para que eles sofram uma outra na Palestina, pelas mãos de um vindouro Anticristo apocalíptico. Consideremos a enormidade dessa idéia do sionismo cristão: ajudar os judeus para que eles se precipitem num abismo futuro. Não parece uma idéia concebida por gente maluca?

Mas esqueçamos que essa interpretação está obviamente em conflito com a justiça do Senhor e os objetivos de Sua obra — porque errada: o Anticristo já veio há muito, os israelitas eleitos já foram integrados na Igreja nos seus primeiros séculos e o verdadeiro Israel é agora a Igreja Católica (não necessariamente a de Roma). Como sabem, então, os cristãos sionistas que essa “profecia” se cumpriu pelo estabelecimento do Estado de Israel? Houveram falsos candidatos a Messias que precederam ou sucederam o nosso divino Salvador Jesus em tempo próximo e imediato à vinda Dele. No entanto, nenhum deles era o Messias e ainda assim confundiram muitos em Israel. Então, como os cristãos sionistas podem estar certos de que estão diante do verdadeiro Israel? E se eles fizeram confusão e não perceberam que o verdadeiro Israel ainda estaria por vir?

Como eles sabem que os cidadãos israelenses são descendentes legítimos daqueles que habitavam o Israel Antigo? Como eles sabem que o estabelecimento de uma República em condições ilegítimas por todas as leis internacionais — e, por isso, bastarda enquanto claudicar — representa, ainda que simbolicamente, a restauração de uma antiga monarquia davídica ou de um antigo sistema de juízes tribais? Como eles sabem que não confundiram uma — infelizmente — comum ocorrência de deportação forçada de um povo, por mãos de gentios talmudistas, com uma má interpretação das Escrituras? A verdade é que eles simplesmente não sabem.

Essas questões são importantíssimas porque se vai ao inferno aquele que chama, sem justa causa, o seu irmão de “tolo”, muito mais irá aquele que apóia a limpeza étnica contra o seu próprio irmão na fé! Por isso, se os cristãos sionistas estão prontos para apoiar tamanha iniquidade contra os irmãos palestinos na fé, eles deveriam, ao menos, fazê-lo pelos motivos corretos.

Mas dirão os iludidos: os testes de DNA provam que os judeus possuem alelos típicos de um habitante do Oriente Médio. É verdade. Porém, isso é totalmente irrelevante para fins de prova acerca do direito bíblico à terra. Porque a questão não é estimar com quem os judeus se parecem, e nem mesmo supor experimentalmente onde e com quem habitaram ou para onde emigraram. A verdadeira questão é saber documentalmente qual a linhagem genealógica tribal que cada judeu possui e se algum ancestral eventualmente miscigenou com algum cônjuge não israelita. O requisito bíblico para a cidadania é a linhagem de cada judeu ser puramente tribal e israelita — ou seja, ser por exemplo: judaita, efraimita, benjaminita, levita, aserita, etc. Caso contrário ele é — como os judeus gostam de dizer para pejorar os gentios como nós — um goy. Como um goy, ele tem tanto direito à Palestina quanto qualquer hindu, budista, ateu, etc. Ou seja, tanto quanto qualquer pessoa que jamais pôs os seus pés na Palestina.

O problema é que as informações de linhagem tribal, guardadas pelo Israel Antigo, foram perdidas para sempre com a destruição dupla de Jerusalém pelo Império Romano. E não apenas isso. Porque os israelitas se sublevaram não só em Jerusalém, eles foram abatidos em diversos pontos do Império — ex.: na Síria, na Alexandria, na Grécia, etc. A Igreja ocupa, física e simbolicamente, o lugar de Israel como o povo de Deus, agora.

Afirmar que a Teologia ensina que a Igreja substituiu o Israel Antigo é dizer uma verdade incompleta. A realidade é que o Israel Antigo — o Estado com o seu sistema levítico — foi extirpado do mapa, enquanto ainda existia ao lado da Igreja primeva. Em outras palavras, a verdade é que a Igreja não substituiu Israel como se ela fosse uma alternativa conceitual entre outras opções. Israel pura e simplesmente deixou de existir. Não existem opções conceituais. Isso é um fato e não uma hipótese teórica. O fim do Israel Antigo é uma realidade geo-política, religiosa e histórica, independente de quaisquer considerações teológicas que se proclame. A população sobrevivente de Israel, foi absorvida pelo Império Romano, pelo Império Bizantino e depois pelo Império Turco. E remanesce até hoje na Palestina, embora muitos tenham sido deportados à força pelo Sionismo genocida. Reconstruir o Israel Antigo sem os dados históricos perdidos pela destruição de Jerusalém é pura e simplesmente um delírio.

Para tornar mais difícil o cumprimento da “profecia”, a lei israelense de concessão de cidadania admite a integração de cônjuges e residentes não-judeus. Como saber então quem é quem? Supondo? É justo destruir os direitos de um povo inteiro por causa de uma suposição? Dizer que o Israel Antigo ressurgiu milagrosamente, a despeito de todos os crimes cometidos pelo sionismo e da ausência completa de provas genealógicas e dos demais requisitos bíblicos, é tão crível quanto crer que o homem surgiu de um macaco geneticamente deformado. Tal crença é uma verdadeira macaquice.

Contudo, quando o Israel Antigo voltou do cativeiro babilônico, ele voltou nacionalmente arrependido de seu pecados e com o apoio internacional, pacífico e firme do império medo-persa. Ele retornou à terra depois de passadas apenas algumas pouquíssimas décadas, sem recorrer a genocídios, a roubos de terras alheias, a massacres, a deportações violentas em massa, etc., e sem realizar a proeza de colocar o mundo inteiro contra si. E o mais importante: com os registros genealógicos preservados e completos, de modo que se revogou a cidadania dos filhos bastardos de israelitas. Quando foi que algo remotamente semelhante ocorreu ao moderno Israel? Quando foi que o moderno Israel separou os legítimos filhos dos judeus daqueles que, embora concebidos por judeus, são bastardos? Na realidade, se o Estado de Israel tentasse fazer tal coisa, ele seria considerado uma instituição humilhante e anti-semita pelos próprios judeus na Diáspora.

Agora considere o fato, inquestionável, de que o Senhor faz uso indireto do pecado dos homens e dos anjos — já que Ele próprio não peca jamais — com o fim de trazer um bem maior. Nisso deixou a iniquidade de ser iníqua porque o Senhor fez uso dela? Nisso estaríamos nós autorizados a aprová-la e aplaudir os iníquos? Nisso poderíamos nós imitar o mal exemplo do santo rei Josafá em se aliar com ímpios como o rei Acabe? É evidente que não!

Considere que a escatologia sionista esteja correta, e que os seus adeptos tenham descoberto os inefáveis segredos do futuro, de modo que nós — os opositores dela — sejamos os tolos, os ímpios e os cegos. Por acaso essa doutrina ensina que devemos aplaudir a incredulidade e a injustiça dos supostos beneficiários dela? Ela ensina que devemos ignorar completamente o sofrimento dos palestinos e apoiar incondicionalmente Israel, não importa as decisões que ele tome e o modo desleal que ele proceda? Ela ensina que devemos dar suporte financeiro, moral e político para uma religião falsa, cabalística, talmúdica e especialmente contrária a Cristo? Ela ensina que nós devemos retirar as cruzes de nossas igrejas e substituí-las por símbolos sionistas? Ela ensina que devemos trocar os domingos de culto pelos sábados e celebrar os antigos feriados prescritos na Lei mosaica? Não! Ela não ensina tais absurdos! Então porque raios as igrejas evangélicas estão se judaizando, doando dinheiro a incrédulos e formando alianças de jugo desigual com eles? Porque os cristãos sionistas fecham os olhos ao apartheid óbvio que os cristãos palestinos sofrem com os seus irmãos de raça? Porque os clamores de cristãos palestinos caem em ouvidos moucos? Porque os cristãos sionistas preferem os incrédulos, até mesmo os inimigos jurados e amargos da Cristandade, aos seus próprios irmãos na fé que encontram-se sob forte opressão na Palestina?

Que raios de escatologia é essa que precisa de dinheiro cristão, de constante apoio religioso e conchavos políticos para ser mantida? Quando um profeta nos tempos de Cláudio César alertou a Igreja Antiga da fome mundial iminente, os santos apóstolos não ordenaram que os cristãos botassem fogo nas fazendas romanas para garantir a confiabilidade e a realização da profecia. E não proibiram os cristãos de alimentar uns aos outros (e os pagãos que pudessem ajudar) sob a desculpa de que tal atitude de alguma forma obscureceria o impressionante controle de Deus sobre os eventos. Eles não instaram os fiéis a celebrar publicamente a fome perante os pagãos, como se com isso pensassem que de alguma forma o poder de Deus seria proclamado.

Em profundo contraste, os cristãos sionistas trabalham e trabalham para garantir que a “profecia” sobre Israel esteja sempre de pé, como se não existisse a confiabilidade no propósito de Deus de mantê-la Ele próprio. Omitem o sofrimento dos cristãos palestinos e mesmo chegam a desencorajar quem os queira ajudar, como se isso fosse prejudicar a execução da “profecia”. E celebram o sionismo como se houvessem motivos para tal, como se pilhagem, opressão e violência indiscriminada fossem boas coisas porque em nome de um suposto desígnio de Deus.

Se os cristãos sionistas estão seguros da sua crença profética, porque fazem o possível e até o inumano para mantê-la de pé, como se a qualquer momento ela fosse cair como um castelo de cartas? Essas atitudes são profundamente reveladoras do medo íntimo dos cristãos sionistas em estar seguindo uma religião falsa. Não é fácil a alguém aceitar que investiu dinheiro e os belos anos da vida em vão. E a judaização das igrejas evangélicas é bastante reveladora da verdadeira condição espiritual de seus líderes e da validade de sua religião. Às vezes, as atitudes pessoais falam muito mais do que qualquer tratado prolífico de apologética.

Os iludidos argumentam que apóiam esses horrores porque devemos abençoar a semente de Abraão sobre a qual está a promessa de benção para quem a abençoar e de maldição para quem a amaldiçoar. Contra isso, percebamos que esse argumento revela uma promessa racial, já que é independente da condição pessoal da fé do suposto descendente de Abraão. Porém, mesmo nós, cristãos kinistas, que enfatizamos a realidade racial, não negamos de forma alguma que a descendência por fé se sobrepõe à descendência racial. Isto é, ensinamos que mesmo que alguém seja verdadeiramente cristão e adequadamente casado com um primo cristão (independente do grau, desde que razoavelmente conhecido pela família, pela filologia ou pela História, etc.), não podemos garantir que todos os filhos e netos individuais do casal serão verdadeiramente cristãos. Por que isso é matéria de eleição divina e não um compromisso racial que está posto contra o nosso Deus. Contudo, ensinamos que o Senhor é bom e misericordioso, de modo que, entre a descendência do casal, sempre haverá um filho, um neto ou um bisneto que seguirá a fé. Essa é a descendência de fé, cuja linhagem é, às vezes, muito menor — e até desconhecida — que a racial. O Senhor Jesus dá essa graça para que o nome de cada família possa continuar existindo pela história até a eternidade.

Se é verdade que qualquer pessoa é divinamente protegida por pertencer a uma raça, de forma incondicional e independente de sua condição religiosa, então é claro que os santos profetas do Antigo Testamento também seriam malditos, porque amaldiçoaram não só os seus irmãos de raça, como a própria nação em muitas ocasiões funestas. E seria maldito o nosso Santo e Justo Senhor, porquanto Ele amaldiçoou os fariseus que se aliaram a Nero César para incitar os cristãos à apostasia pelo ato de render o culto imperial. O Senhor chamou esses traidores e blasfemos de Sinagoga de Satã. E seriam malditos um sem número de mártires cristãos que amargaram a perseguição pagã dos primeiros séculos da Igreja — incidentes que foram muitas vezes instigados pelos descendentes dos fariseus, a exemplo de Nero. É incrível como nossos opositores, em sua cegueira, não enxergam as bobagens óbvias de seus delírios.

Diante dessas coisas o que dizer dos cristãos sionistas e de sua obstinação? Com lamento:

Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem, mal, que fazem das trevas luz e da luz, trevas, do amargo, doce e do doce, amargo. — (Isaías 5:20 NVI)

Truques semânticos

O Israel moderno tem tanto o direto de existir quanto tinham o Império Romano, o Império Sacro-Germânico, o Império Bizantino, os Estados Papais, o Império Otomano, o Império do Brasil, Império Austro-Húngaro, a Checoslováquia, etc. Porque isso? Porque uma coisa é a pessoa jurídica chamada de “Israel”. Outra, completamente diferente, é o povo que habita em suas fronteiras políticas. Uma coisa é a República israelense. Outra, os israelenses.

Essa distinção é importante porque os sionistas, querendo defender o regime que implantaram à força, apresentam Israel e o povo de Israel como se fossem uma coisa só. Eles querem com isso dizer que aqueles que se opõem a Israel, estão clamando por um genocídio. O argumento sionista é cheio da insídia própria do caráter de seus líderes. Porque é como se alguém dissesse que quando o Império Romano caiu, os romanos sumiram. Ou que, porque Alexei I da Santa Rússia anexou a Ucrania, os ucranianos sumiram. É evidente a má fé do argumento, pois se ele fosse aceito, seria a primeira vez na história da humanidade que um Estado deve remanescer para sempre a todo e qualquer custo. Por isso que não existe o direito per se de um Estado existir. O Estado, em si próprio, é uma convenção política e social seja porque fundado pacificamente, seja porque fundado à força, seja porque fundado sob as bênçãos da Igreja, seja porque expandido por uma dinastia secular, etc. Não há como garantir a existência de uma instituição política sem se saber, primeiramente, quais as políticas vigentes neste Estado. E se elas baseiam-se em perpetrar a guerra civil permanente? Tal instituição política mereceria estar imune às reformas ou à completa remodelação?

Israel precisa aceitar o fato de que a sua população judaica foi construída artificialmente por meio da imigração em massa. E abandonar as suas pretensões de ser um Estado exclusivamente judeu, para integrar os árabes palestinos ao país. Se isso acarretará a mudança de nome de “Israel” para “Santa Terra de Alá”, não importa: os judeus israelenses não vão evaporar por causa disso. Essa é a única retribuição justa que se pode fazer aos palestinos depois de décadas de sofrimento. A solução dos dois Estados é um blefe, pelo simples e mero fato de que Israel não quererá abandonar o controle das fronteiras do Estado Palestino e nem renunciar aos assentamentos na Cisjordânia ou ao controle marcial dos que lá habitam.

A questão dos assentamentos é crítica, porque uma grande parte deles foi construída na fronteira com a Jordânia. Os palestinos e os jordanianos são uma única raça. Se um Estado Palestino é criado sem que Israel renuncie aos assentamentos, os palestinos ficarão isolados, ilhados de seus irmãos da Jordânia. E eles dependerão indefinidamente da boa vontade de Israel ao leste e ao oeste. É dessa forma que Israel segue roubando terras dos palestinos até hoje. Pois ainda que ele não seja o soberano delas de jure, apenas de facto, ele usa desonestamente a sua soberania nas áreas militarizadas da Cisjordânia para construir assentamentos. No futuro, o regime pode usá-los como desculpa para pleitear mais terras, tal como fez Hitler para anexar as áreas alemãs da Checoeslováquia e da Polônia.

Israel já está anexando os assentamentos ocidentais da Cisjordânia, sem pleito e sem nenhum constrangimento. O regime os usa como marcos de referência para a construção do Muro da Vergonha.

Não há uma solução concreta para o conflito, a menos que os palestinos e os israelenses estejam sob um único Estado com direitos iguais e uma única fronteira comum, conforme o Livro Branco publicado pelos britânicos. A proximidade da guerra e a necessidade de apoio árabe, fez a Bretanha perceber o óbvio, muito tardiamente. Porém, os israelenses tem medo desse ato de justiça, porque acham que só podem sobreviver em condições cuidadosamente controladas. Essa é a verdade. Eles não querem uma paz justa e, por isso, vivem num estado de profunda negação e inventam mil desculpas para as instituições artificiais que conceberam.

Israel nutre um medo de aniquilação como se isso fosse a única coisa a unir o país. É óbvio que uma sociedade assim jamais deixará de pender a ameaça militar sobre as cabeças dos palestinos. Uma elite política que leva a sério uma doutrina suicida como a Opção Sansão, é um perigo para si própria e para o mundo inteiro. A Opção é voltada não só ao Oriente Médio, mas à Europa. Israel é hoje, efetivamente, a maior ameaça nuclear à paz mundial.

Diante de todos esses problemas sem um fim próximo, é óbvio que a praga do sionismo jamais deveria ter começado. Mas tendo gerado tantos frutos, não é possível voltar ao passado. Os palestinos e os israelenses devem viver juntos. A Lei do Retorno deve ser revogada. Se qualquer um entre ambos os povos quiser emigrar, especialmente em vista das incertezas e das prováveis tensões mútuas, deverá primeiramente renunciar à cidadania israelense. O mais, a própria Natureza corrigirá pelas mudanças demográficas.

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