Muito Além da Guerra de Gaza – Parte II

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Mentiras e hipocrisia

Enquanto os israelenses emigram, os palestinos que descendem dos expatriados pelo regime sionista, estão legalmente impossibilitados de voltar para a sua terra. A iníqua Lei de Retorno promulgada por Israel os exclui de forma expressa da possibilidade de obterem a cidadania israelense. Ela é tão injusta que torna facilmente possível a um ateu gentio, mesmo que jamais tenha pisado no Oriente Médio, adquirir a cidadania israelense. Basta que o ateu esteja casado com um judeu praticante, mesmo que o cônjuge não seja semita. Já ao palestino despojado, ainda que verdadeiramente semita e descendente de ancestrais que habitaram a terra há milhares de anos, não há possibilidade de retorno e nem compensação. Nem mesmo é possível em Israel que um palestino se case com um israelense para a aquisição de cidadania. Tal concessão, normal em outros países, é expressamente vedado ao nubente palestino na única “democracia” do Oriente Médio. Evidentemente, essas disposições discriminatórias não se aplicam aos nubentes judeus de cidadanias distintas.

Ademais, considere que os sionistas, ao emigrarem para a Palestina aos montes, prometeram jamais expatriar um único palestino, se Israel viesse a ser estabelecido. Eles nem poderiam deportá-los, pois a comunidade internacional, que estabeleceu Israel, nunca autorizou tal coisa. Porém, homens cínicos como David Ben Gurion diziam uma coisa em público e outra em privado. De modo que, desnecessário dizer, quando a guerra de independência de Israel eclodiu e os palestinos foram postos em êxodo pelo terror sionista, a promessa foi quebrada. Os palestinos expulsos jamais voltaram aos seus lares que, a propósito, foram destruídos, mudados e renomeados. E os que ficaram em Israel, por não serem judeus, estão impedidos legalmente de desfrutar de seus bens roubados, através de uma complexa e dolosa legislação de propriedades e de intervenção militar. Os mesmos bens, no entanto, foram dados como habitação aos judeus imigrantes, especialmente nos anos críticos do estabelecimento do Estado sionista.

Diante desses fatos, os sionistas e os seus capachos ainda possuem o descaramento de dizer quem em Israel não existe apartheid. Ela pode não ser crua como o apartheid bôer ou a segregação americana. Mas, claramente, está lá. E remanesce lá com a aprovação hipócrita e histérica das mesmas organizações judaicas que negam, nos respectivos países de atuação, os direitos civis dos povos europeus de permanecerem europeus. Ademais, se um palestino residente deixar Israel por um pouco de tempo, ele perde o seu status de residente inadvertidamente. Israel faz de tudo para que os árabes não tomem posse do que pertence a eles.

Mahmoud Ahmadinejad disse que o Estado de Israel — a entidade jurídica “Israel” e não os cidadãos israelenses — é anti-natural e não vai sobreviver. Ele está totalmente coberto de razão. Com base nessas considerações bíblicas, nas leis israelenses iníquas e na demografia vacilante de Israel, é muitíssimo provável que o Estado siga o mesmo destino da União Soviética já nas próximas décadas, caso a América mantenha a atual tendência de declínio. Aliás, em seus primeiros anos, a URSS também foi mundialmente considerada um empreendimento judeu.

Hoje, o Estado de Israel só se mantém artificialmente por causa da América, inclusive em seu poderio militar. Sem ela, ele cairá sob o seu próprio peso tão assombrosamente quanto a Yugoslavia.

No mais, não deixa de ser irônico como os sionistas se queixam que os árabes falam em paz quando em público e em guerra quando em privado. Decerto eles aprenderam com os sionistas e deram-lhes de beber do próprio veneno.

Tensões, provocações, violência e desordem pública

Do século XVI a meados do século XIX a população judaica na Palestina perfazia irrelevantes 1,7% da população árabe daquele território. A terra era compartilhada por cristãos ortodoxos e muçulmanos. Na independência de Israel, depois de décadas de engenharia social sionista, a população judaica era ainda de apenas um terço do total na Palestina. Mas isso foi o suficiente para que os líderes sionistas empreendessem todo tipo de táticas de terror e destruição contra a população palestina, com o uso de armas não convencionais, para provocarem o êxodo em massa. Ao contrário do que diz a viciada e mentirosa propaganda sionista, a violência terrorista judaica na independência de Israel, não foi um ato de defesa pelo cumprimento da resolução da ONU pela partilha da Palestina — que aliás, era uma resolução não-vinculativa. Ela foi o culminar de atos provocativos e abertos, já nos anos 1920 — muito antes de Hitler, da Segunda Guerra mundial, ou de qualquer evento real ou imaginário que é invocado para justificar o roubo de terras palestinas. Esses atos indicavam claramente a intenção sionista de tomar a Palestina e povo árabe de assalto e governá-los. E os sionistas da época, ao contrário do que proceder dissimulado de hoje, nunca esconderam dos árabes esse intento colonial.

Ademais, os árabes não são idiotas, como bem indicou o terrorista judeu Zeev Jabotinsky em sua doutrina sanguinária. Eles sabiam muito bem o que significava a imigração em massa e sem precedentes dos judeus oriundos do Leste Europeu para a Palestina. E também que o Império Otomano, o detentor do território Palestino, foi rifado pelos britânicos pela eclosão da Primeira Guerra Mundial. Essas coisas estavam implicitamente contidas na Declaração de Balfour e explicitamente redigidas no Mandato Britânico para a Palestina.

É bom pontuar, aliás, que os motivos pelos quais os alemães se sentiram traídos pelos judeus na derrota aos Aliados e em Versalhes após a Primeira Guerra Mundial, é que a despeito do fato da Alemanha Imperial condenar oficialmente os pogroms czaristas, de lutar contra a Rússia e vencê-la, de apoiar Lenin (que, aliás, possuía ascendência judaica) e de confiar aos judeus alguns postos sensíveis no Império, foram judeus de várias nações e ideologias que protagonizaram alguns eventos cruciais nos bastidores da Guerra, que levaram o Império à derrota e à trágica dissolução. Por exemplo, foi fundamental o papel da imprensa americana em azedar o humor dos EUA contra a Alemanha imperial. O corte de financiamento de instituições bancárias internacionais, foi importante para inviabilizar a beligerância alemã. Após a Guerra, judeus de várias nacionalidades assessoraram a redação do Tratado de Versalhes. Vinda a República de Weimar, alguns judeus alemães conquistaram notabilidade pública na política, na indústria e nas artes. E foram judeus que lideraram vários golpes comunistas nas províncias alemãs. Os alemães, que não eram anti-semitas ao contrário do que se pensa, se ressentiram amargamente desses acontecimentos e da miséria detestável sob a qual foram postos. E eles compreenderam que esses eventos funestos estavam entranhados com a venda da Palestina aos sionistas. Contudo, os alemães não discerniam a elite sionista judaica — cuja ideologia foi proposta por um judeu alemão, assim como o Comunismo, para piorar a impressão germânica — dos demais judeus. Muitos deles eram tão empobrecidos quanto outros europeus pobres.

Os judeus não possuem culpa pelo que faz uma parcela elitista de seus membros, mesmo que eventualmente se tornem beneficiários dessas ações. Da mesma forma, não são culpados de deicídio os judeus-cristãos que não compartilham da satisfação condenatória a Cristo que é manifesta desabridamente por muitos de seus pares. Mas é importante lembrar como alguns colocaram o sionismo acima de tudo, até mesmo da segurança pessoal dos próprios judeus, como exemplificado nos exemplos árabe e alemão.

Os atos de provocações que os sionistas impingiram aos árabes trouxeram consequências amargas. Contudo, uma coisa são as revoltas populares, impulsivas e emocionais, que os árabes manifestaram por amor à terra ancestral e pelo desejo natural de auto-determinação. Outra coisa são os atos coloniais de assassinato seletivo e premeditado que os sionistas imigrantes na Palestina empreenderam não só contra os árabes. Mas contra os britânicos e contra os judeus reticentes também. É terrível pensar que os britânicos, aliados dos sionistas em duas guerras mundiais fossem traídos dessa forma baixa e covarde, tão rapidamente, pouquíssimos anos após os conflitos nos quais a Inglaterra jamais deveria ter se envolvido. Mas se envolveu, e os sionistas manifestaram dessa forma a sua gratidão ao sacrifício britânico.

Hipocritamente, a propaganda sionista confunde os atos violentos e pontuais de desordem popular com terrorismo. Ela quer com isso igualar os seus crimes de guerrilha militar treinada, com os atos espontâneos cometidos por turbas árabes furiosas nos anos 1920. Para dar um exemplo, um desses incidentes, ocorrido em 1921 na cidade de Jaffa, foi provocado — que surpresa! — por dois partidos comunistas judeus, um dos quais era liderado por David Ben Gurion. Gurion e os seus comparsas exigiram nada menos que a derrubada violenta da administração britânica. Os dois partidos brigaram entre si, e alguns muçulmanos e cristãos correram em socorro da polícia! A notícia da confusão se espalhou por Jaffa e vários outros pontos da Palestina. E os árabes, ensandecidos por boatos de que estavam sendo atacados, atacaram os judeus. Dias depois, após declarado um estado de emergência pela administração britânica, que chegou a recorrer aos bombardeios navais e aéreos, a calma voltou. Meia centena de pessoas morreram de ambos os lados, judaico e árabe.

No motim seguinte, o incidente de 1929 em Jerusalém, os asseclas de Jabotinsky fizeram uma provocação gratuita no Muro Ocidental em Jerusalém. Eles levantaram a bandeira sionista diante do Muro e cantaram um hino — ambos viriam a ser os símbolos nacionais de Israel. Eles amaldiçoaram Maomé e, novamente, conforme relatos, agrediram muçulmanos entre a população local. Irados com a afronta, os árabes espalharam a retaliação violenta por toda a Palestina.

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