Muito Além da Guerra de Gaza – Parte I

Introdução

Mais uma vez os israelenses atacaram Gaza. Mais uma vez Israel alega agir em legítima defesa. E uma vez mais as represálias que os palestinos sofrem é muitas vezes maior que o dano imposto ao regime de Tel Aviv.

De forma geral, a mídia ocidental trata o conflito como uma guerra provocada por uma organização terrorista, o Hamas. O Hamas lançou foguetes contra o sul de Israel e contra Tel Aviv, o que forçou o regime sionista a reagir em defesa de seus cidadãos. Até o presidente Obama apelou ao bom senso das pessoas, dizendo a elas que nenhum governo que se preze deixaria a sua população à mercê de uma chuva de foguetes sem reagir.

Essa é a mesma resenha que muitos, de boa fé até, engolem em favor da assim chamada única “democracia” do Oriente Médio. Como exemplo, os cristãos sionistas, como sempre, vêem a investida do regime israelense em profundo gozo bovino. Eles comemoram as agressões, iludidos por uma escatologia desconhecida pela Igreja por séculos, além de profundamente equivocada. Ao menos, essa escatologia está perdendo influência, à medida que a América — a principal apoiadora dessas idéias absurdas — declina como um todo, enquanto que as Igrejas verdadeiramente legítimas ganham força.

Um buraco (muito mais) profundo

A questão injustamente ignorada por muitos, é que o conflito sangrento travado contra os palestinos não se trata só de pontuais e cíclicas retaliações ao Hamas. Há muitos eventos precedentes que são ignorados ou desconhecidos por aqueles se põem ao lado de Israel. Por isso que, sem uma análise profunda e honesta, a impressão que muitos tem é que o Hamas ataca Israel por esporte ou sadismo. A realidade é muito diferente do que aparenta.

Gaza é conhecida como a maior prisão a céu aberto, o maior campo de concentração e a área mais densamente povoada do planeta. Tal tragédia não se pode imputar a uma suposta incapacidade inata dos palestinos em viver civilizadamente. Os palestinos são árabes. E os árabes construíram nações e Estados razoavelmente organizados, mesmo sob sanções econômicas e outras vicissitudes. Eles construíram a civilização milenar herdada pelo finado Império Otomano.

É evidente que os palestinos são mantidos em condições sub-humanas de forma artificial. Muitos, sob forte vigília sionista, desconsideram rapidamente essas evidências notáveis como propaganda islâmica, como se o regime sionista não fosse ele próprio um propagandista. É muito óbvio que um regime que é capaz de oficialmente chamar o papa de mentiroso por lamentar o infortúnio palestino, e por conseguinte injuriar os inúmeros governos que concordam com o Vaticano, nutre um ânimo frio e desdenhoso para com a humanidade.

Esse desdém pela condição planejada e deliberadamente imposta aos palestinos pôde finalmente ser mensurado além de qualquer suspeita. Israel foi judicialmente obrigado a revelar como ele gerencia a distribuição de insumos ao povo palestino. E o que se viu, é que o regime sionista implementou uma diretriz para manter os palestinos sob uma constante desnutrição e ruína de suas edificações civis. A desnutrição e a ruína são táticas criminalizadas de guerra, embora sejam muitas vezes usada para se vencer uma conflagração pelo desgaste físico e moral do oponente. De tal forma que toda resistência seja tornada fútil. Os exemplos mais famosos e graves dessa táticas covardes e brutais são o Holodomor Ucraninano, o ataque aos civis alemães e eslavos na Segunda Guerra, a destruição romana de Israel (século I), entre outros.

A revelação judicial dos documentos, feita através da ONG Gisha, representa um ponto de inflexão. Porque sempre se suspeitou, e os testemunhos eram e são constantes e inúmeros, que Israel havia implementado uma forma dura, contudo coerente e profundamente lógica, da cínica doutrina da Muralha de Ferro proposta por Zeev Jabotinsky, um fanático sionista e fundador do grupo terrorista Irgun. Mas, até então, os sionistas de toda parte alegavam que o arrocho era devido às necessidades próprias e legítimas das medidas de contraterrorismo. Agora, porém, a logomaquia sionista está nua. E a criminalidade do regime está clara como a luz do dia. Israel está efetiva e deliberadamente cometendo um crime de guerra contra os palestinos, conforme a Convenções de Genocídio (art. 2, item “c”) e a IV Genebra — os quais proíbem tanto os ataques à população civil inimiga quanto à transferência de população israelense à Cisjordânia por meio dos assentamentos. O regime rejeita a aplicabilidade da Convenção de Genebra no caso palestino, argumentando que não existe um Estado beligerante na Palestina para que ela vigore. Mas a comunidade internacional inteira a confirmou.

Por isso, uma das coisas que Tel Aviv mais teme é que os Palestinos se tornem um Estado independente sem assegurar a primeiramente a anistia geral aos asseclas do regime. Eles não são tolos. Eles sabem que um estabelecimento de um Estado palestino, trará enormes chances a esses criminosos de serem postos sentados ao lado de ditadores africanos no Tribunal Penal Internacional. A solução tão propalada dos dois Estados para o conflito palestino, é um blefe. O que, aliás, indica a atitude hipócrita de alguns políticos americanos atulhados (e ameaçados?) pelo lobby sionista. O Reino Unido já deixou claro que só apoiará o pedido palestino se a Autoridade Nacional Palestina renunciar ao seu direito de processar o regime sionista e aceitar os assentamentos judaicos ilegais na Cisjordânia.

A essas coisas, os cristãos sionistas dão um enorme e cúmplice sorriso amarelo, ameaçando nesciamente os seus detratores com o Apocalipse. Esse fanatismo seria risível, se eles não tivessem influência na maior fonte de suporte do regime — a América.

O que torna uma nação legítima

Por mais duro e difícil que seja, é importante que entendamos que o genocídio per se não deslegitima a nação que o perpetra. Os poloneses não perderam os seus direitos por perseguirem os alemães, nem os turcos pelos armênios ou os gregos, nem os russos pelos ucranianos e os poloneses, nem os britânicos pelos irlandeses e os bôeres, etc. O inquestionável genocídio dos palestinos é coisa horrível e vil. Mas a legitimidade de Israel é posta em causa por outro motivo.

Uma nação, no sentido teológico da palavra, é uma etnia que estabeleceu um local de habitação por séculos a fio. Isso porque a Palavra do Senhor é clara em atribuir a Ele essa ação migratória e de acomodação geográfica para cada nação e raça. Não necessariamente o território ocupado por uma entidade étnica coincidirá com os limites políticos do Estado dentro dos quais ela vive. Na verdade, a coincidência quase nunca ocorre. A precisão das fronteiras políticas que os Estados exibem entre si, é coisa muito recente e não é universal. Mas, ignorando-as, pode-se perceber (pela filologia ou pela ancestralidade genética) que os limites habitacionais de uma etnia são estáveis ao longo dos séculos. Exceto, óbvio, nos raros e curtíssimos períodos de grande migração.

Esse é o padrão da habitação étnica dos eslavos, dos germânicos, dos asiáticos, dos africanos, etc. Tomando um período de séculos como escala de tempo, sempre se observará uma relativa estratificação das nações.

Obviamente, este não é o caso de Israel em seu posicionamento geográfico na Palestina. Ele é diferente de qualquer coisa que lembra uma nação.

Nas nações comuns os nativos são cidadãos de um Estado porque, via de regra, é possível traçar a ascendência deles até os ancestrais seus de longas gerações. Ademais, como dito, o território ancestral é relativamente estável. Por isso, a nação tem naturalmente uma história, uma cultura e uma língua comuns. Em Israel, porém, a regra é a exceção. Os cidadãos israelenses, em sua imensa maioria, ainda que Sabras, possuem uma ascendência que é precisamente traçada até povos diversos da Europa Oriental, da Ibéria e do Oriente Médio fora da Palestina.

Israel é uma babel de nações, unidas por uma língua artificial, recentemente moldada e remendada a partir de várias fontes — o que, por si só, já indica uma diversidade genealógica. A formação desse Estado se deu não por uma expressão e por uma aliança de nativos, tal como a evolução dos feudos europeus para os reinos ou a unificação das tribos chinesas sob um Império. E sim por ocasião de um experimento social, onde comunidades judaicas inteiras foram insufladas por doutrinação muito recente a emigrar da Europa para a Palestina.

Às vezes, a emigração judaica ocorreu à força, seja pelas consequências óbvias da agressão sionista há muito premeditada, por ação terrorista direta dos próprios sionistas contra os judeus recalcitrantes, ou porque os sionistas se aliaram aos inimigos figadais dos judeus (como os nazistas por exemplo) para forçá-los a emigrar, etc. Enfim, se os sionistas foram capazes de hipotecar a paz secular existente entre os judeus e os árabes do mundo inteiro por uma vaidade exclusivamente sua, e também capazes de efetuar atos diversos e calculados de traição contra o próprio povo, é de se questionar o que tais homens não seriam capazes de fazer aos palestinos. Os palestinos, embora não sejam judeus, são muito mais semitas de raça do que a maioria esmagadora euro-árabe dos judeus. Na realidade, é plausível que entre os palestinos existam descendentes de levitas.

O que acontece com os cidadãos de um Estado, como Israel, quando eles não possuem raízes históricas e étnicas firmes no local em que habitam? Ou com aqueles que possuem raízes no exterior? Simples: mais da metade da população israelense considera requerer passaportes para emigração. Hoje, mais do que nunca, um total de 10% dos cidadãos israelenses vive no exterior. Essa é a mesma proporção de expatriados do México. Contudo, o México é um país de terceiro mundo, está profundamente desgastado pela guerra ao narcotráfico, e não possui o privilégio de receber bilhões de dólares oriundos de diversas nações a título de ajuda ou de compensações. A idéia de que Israel é indispensável como um porto seguro para os judeus é simplesmente equivocada.

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