Da Psiquiatria e os Seus Objetivos

Assista primeiro ao documentário “O Marketing da Loucura” antes de ler esse post.

Introdução

O documentário citado acima traz questões profundamente pertinentes e interessantes sobre a ciência psiquiátrica. E, involuntariamente, à própria ciência.

Ele traz uma crítica dura contra a Psiquiatria em geral e contra os abusos e as omissões da indústria farmacêutica em particular. As questões que ele propõe, colocam em causa a Psiquiatria como uma ciência médica legítima. Ele o faz comparando essa ciência às demais no seio da Medicina, denunciando a notável diferença no proceder metódico do médico psiquiátrico em relação aos seus colegas de outras especialidades médicas.

As críticas abordam a metodologia de abordo da Psiquiatria no trato do paciente; o subjetivismo de seus diagnósticos; a impossibilidade técnica da medição de doenças psíquicas e do resultado dos tratamentos pesquisados; a tendenciosidade das pesquisas; e, por fim, a notável pressão política e econômica que essa área médica sofre no que concerne ao reconhecimento oficial de patologias. Isso, sem dúvida, merece uma séria ponderação.

Os méritos do documentário

Sobre o documentário, os seus autores merecem louvores por trazerem a público as pressões e os interesses egoístas que pesam sobre os psiquiatras, os quais são oriundos de grupos políticos de pressão e do lobby farmacêutico. O documentário destaca principalmente esse lobby ao qual interessa a multiplicidade de diagnósticos psiquiátricos subjetivos para a venda de mais e mais psicotrópicos. Essa sanha avarenta da indústria farmacêutica é uma mais uma faceta torpe do capitalismo usurário do Ocidente.

Um outro elemento meritório do documentário é a denúncia da metodologia deliberadamente frouxa que os pesquisadores farmacêuticos utilizam com o fim de promover os seus remédios com a conivência de psiquiatras desonestos. Essa denúncia merece, sem dúvida, a urgente atenção das autoridades de saúde de toda parte para que as metodologias de pesquisa farmacêutica sejam revistas e tornadas mais rigorosas e técnicas.

Entretanto, os seus méritos param aqui.

Reprovando através de uma referência reprovável

O documentário inicia as suas críticas à Psiquiatria lembrando a história controversa dessa ciência. Essa especialidade médica esteve vinculada às diversas práticas hoje consideradas violentas e duvidosas, como a lobotomia, a eugenia de deficientes com retardo mental, as ridículas suposições de Freud e a subversão levada a cabo por seu seguidores, o seu uso como um instrumento da repressão soviética, etc. E hoje ela está associada à certas pressões mencionadas mais acima, as quais minam a sua credibilidade científica.

Que a Psiquiatria tem um passado controverso, ninguém questiona esse fato. Que o freudismo lhe causou um terrível retardo em termos de desenvolvimento científico, idem. Que ela infelizmente sofre pressões de grupos de interesse na determinação de diagnósticos, isso é um ponto pacífico. A contribuição da Psiquiatria para a Eugenia, as ideologias destrutivas e subversivas da Escola de Frankfurt, e a influência do lobby gay na definição clínica das parafilias são exemplos desses fatos tristes e bem conhecidos. Mas, o problema do documentário, é que ele tenta julgar a Psiquiatria de um ponto de vista fortemente positivista, como se a ciência positivista fosse, ela própria, uma coisa sem mácula e indubitável.

A Psiquiatria causou danos em alguns de seus pacientes? Sim, e a Medicina também. Por exemplo, a idéia de que uma sala de cirurgia deve ser esterilizada é algo relativamente recente. Até então, era mais provável que alguém sobrevivesse a uma doença infecciosa sem tratá-la do que confiar a sua vida a um cirurgião.

A Psiquiatria se contaminou com idéias malucas de pessoas como Freud as quais seriam diagnosticadas hoje como portadoras de sérios desvios comportamentais? Sim, e a Medicina também praticou certos procedimentos no passado que são, hoje, reconhecidamente letais.

A Psiquiatria foi um instrumento político de engenharia social? Sim e a Medicina também. Foi um médico judeu, Bernard Nathanson, quem trouxe o aborto em larga escala à América. A prática, no caso americano, foi originalmente pensada por Margaret Sanger como um meio político e social para reduzir a população negra dos EUA.

Esse é o problema fundamental do documentário. Ele procura julgar a Psiquiatria por um padrão que não só é mutável e recente, como é sustentado por uma ciência que é, ela própria, corrupta. E, ademais, ele a denigre como se as más qualidades dessa ciência não fossem compartilhadas em gravidade até maior pelas outras escolas médicas.

Para dar um exemplo desse padrão, o documentário confronta a metodologia psiquiátrica com as das demais escolas médicas, sempre em detrimento da primeira. Porém, certas metodologias modernas da Medicina não podem ser aplicadas à Psiquiatria por uma diferença óbvia e irreconciliável: a Psiquiatria não pode quantificar a intensidade de uma depressão ou de uma psicose que aflige o paciente, tal como se quantifica a um montante de glicose no sangue. O melhor que ela pode fazer é qualificar o paciente, de modo a dizer se ele sofre de tal ou qual coisa, e a discernir se o surto que ele apresenta é notório demais a ponto de requerer uma mitigação imediata ou não. Essa incapacidade própria da Psiquiatria em atribuir medidas às patologias que ela estuda, de fato contrasta com as outras áreas da Medicina. Mas isso a desabona perante as outras escolas médicas? De maneira alguma! Se o mesmo critério estatístico fosse aplicado para validar a Medicina, então chegaríamos a conclusão lógica de que pessoas como a Lady Mary Wortley Montagu e Louis Pasteur não estavam praticando a ciência médica, o que é um evidente absurdo. Pois eles não podiam quantificar nem as patologias que combateram, nem as mitigações adequadas, nem os processos de imunização e nem as sequelas. Eles sequer podiam descrever os mecanismos de infecção ou precisar minuciosamente a causa delas. E, no entanto, ninguém minimamente honesto nega que eles praticaram medicina ou que, como médicos, eles salvaram vidas, estabeleceram marcos e procedimentos, e também testemunharam o fracasso de seus remédios pela morte de alguns pacientes.

Pelo bom debate, assumamos o argumento dos autores do documentário. Porque eles, cheios de um positivismo arrogante, afirmam com incrível segurança que a estatística tão usada na Medicina é um padrão válido para alguma coisa? Nenhum médico pode afirmar, como se dispusesse de um referencial absoluto, que um jovem ao manter o nível de colesterol abaixo de 200 mg/dL está em boa forma. Os médicos estabeleceram essa medida não porque possuem um conhecimento sobre-humano acerca da constituição orgânica dos homens. Mas pura e simplesmente porque convencionou-se dessa forma a partir de certas pressuposições, estatísticas e de técnicas de otimização escolhidas a dedo. É a isso que se chama – sem nenhum demérito porque é útil às ciências que se estabeleçam marcos – de referência arbitrária. Contudo, se tal arbitrariedade não necessariamente garante a saúde, com base em que o documentário exige da Psiquiatria a quantificação de patologias? Exigi-lo como um padrão de julgamento revela a má-fé, porque ignora a natureza, os objetivos e a história de cada ciência médica.

O documentário também reprova a corrupção política e econômica da Psiquiatria e faz bem por isso. Não faz sentindo realmente que as Sociedades Psiquiátricas publiquem um excessivo número de diagnósticos – a tal ponto que qualquer infeliz pode ser qualificado por um deles – se muitas dessas patologias são, e quando elas são patologias de fato, diagnósticos sobrepostos. Sociofobia, síndrome do pânico, agorafobia, etc., são exemplos de diagnósticos sobrepostos de uma única ansiedade incapacitante. Os múltiplos diagnósticos, alguns deles ilegítimos, servem como um meio para transmitir preocupações excessivas ao público. Não é fortuito que o aumento do uso de psicotrópicos em uma população seja proporcional aos aumento dos diagnósticos psiquiátricos levados ao conhecimento público através de uma calculada pressão midiática. É óbvio que essas coisas são motivadas por interesses escusos.

Entretanto, não podemos nos furtar, tal como o documentário faz, de colocar as coisas em perspectiva. Honestamente, o que é pior? Que uma escola médica como a Psiquiatria publique uma série de diagnósticos duvidosos ou desnecessariamente sobrepostos, os quais, só eventualmente causarão danos a adultos livres e responsáveis por suas escolhas? Ou que uma escola médica como a Ginecologia congele um nascituro inocente e indefeso, que é pleno de direitos perante o nosso Senhor, para meros fins reprodutivos de terceiros? Francamente, o que é pior? Que a Psiquiatria sofra certas corrupções de natureza política e econômica? Ou que uma escola médica como a Virologia multiplique artificialmente a letalidade de um vírus relativamente fraco por mera curiosidade científica? A corrupção das ciências médicas não é um privilégio da Psiquiatria como o documentário deixa a entender. E tampouco deixam de ser ciências médicas a Ginecologia, a Virologia e a Psiquiatria por causa das corrupções que sofrem.

Esperando um milagre de causas naturais

Que maravilhoso seria se a Medicina curasse os nossos males! As doenças seriam eliminadas tão logo aparecessem; os nossos membros feridos ou amputados seriam restaurados; a dor não seria um problema a nos atormentar; seríamos fisicamente fortes e dispostos; não sofreríamos os desgastes do envelhecimento; e, principalmente, os homens não teriam que sofrer os efeitos físicos e mentais do pecado. Por isso que o documentário aparenta ter uma noção muito peculiar de cura, a qual ele imputa à Medicina, mas não à Psiquiatria. Essa noção idealista de cura, além de curiosa, é bastante similar àquela que o nosso Senhor realiza desde o princípio dos tempos, pois é auto-evidente que a Medicina não faz nada nem remotamente parecido. Em favor dos autores da crítica à Psiquiatria, pode-se dizer que essa atribuição incrível à Medicina é um equívoco muito costumeiro.

A Medicina não cura, não tem o objetivo de curar e não poderia jamais fazer tal coisa como superar algo que é intrínseco à realidade humana. A Medicina tão somente atua como um facilitador de certos processos biológicos e mecânicos que se espera, segundo alguns parâmetros arbitrariamente definidos, que o corpo humano possua ou efetue. A palavra curar na boca de um médico que trata um paciente, significa realmente mitigar. E quem mitiga, falando estritamente, não é o tratamento que o médico propõe, mas o próprio corpo. O tratamento atua inibindo ou multiplicando certos processos biológicos no corpo do paciente para que o próprio organismo mitigue do mal que o aflige. O médico nunca faz desaparecer o mal, pois o paciente sempre deve fazer o que pode para manter a saúde, o qual é uma batalha que ele está fadado a perder, pois todos nós envelhecemos e morremos um dia. Curioso que antes do Dilúvio universal, os homens viviam séculos. Mas os antigos não atribuíam esse fato aos estudiosos em anatomia, ou às drogas sintéticas. E, sim, aos fatores ambientais, como os nutrientes que estavam disponíveis aos antediluvianos (o que faz muito sentido, pois a vida humana, animal e bacteriológica são basicamente proteicas e elas dependem de proteínas de alta qualidade). Esses fatores, indisponíveis a nós e, ao menos em princípio, passíveis de serem artificialmente reproduzíveis, por mais impressionantes que fossem, também não impediam o desgaste do envelhecimento físico. Mas apenas o inibiam com uma eficácia múltiplas vezes maior em relação aos fatores ambientais disponíveis a nós hoje.

O objetivo da Psiquiatria

Ditas essas coisas, podemos compreender melhor o papel da Psiquiatria como uma ciência médica: a Psiquiatria conhece certos comportamentos que trazem grandes aflições aos seus pacientes, bem como para as famílias deles, e procura mitigá-los por meio de neuro-ativadores. Embora comportamentais, essas aflições não são motivadas por uma volição perfeitamente ajuizada. Em outras palavras, a Psiquiatria percebe que as faculdades racionais do paciente são insuficientes para determinar o seu próprio comportamento, e ela procura estudar as causas dessa insuficiência e os meios para mitigá-la.

Porquanto o comportamento do paciente é pouco influenciado por sua volição, o objeto de estudo da Psiquiatria não é exclusivamente moral. Por isso, ela está separada das escolas filosóficas e antropológicas enquanto escolas morais que presumem a plenitude da volição para as escolhas morais.

Teologicamente, não há diferenças entre as escolas da Medicina, quer a Psiquiatria ou as demais. As necessidades que a Medicina procura suprir, nasceram em função de um problema moral e persistem devido a uma realidade moral. Os sintomas, tantos físicos quanto comportamentais, são conseqüências duais dessa mesma e única realidade moral. Por isso, teologicamente, só se pode falar em uma diferença de enfoque entre as ciências médicas. O foco da Psiquiatria são os processos biológicos no corpo do paciente que conduzem a um comportamento incapacitante, sem excluir os eventuais sintomas físicos que resultam desses mesmos processos. E vice-versa. O foco das demais escolas da Medicina são os processos biológicos que incapacitam certas funções corporais, sem excluir os eventuais sintomas comportamentais que resultam do quadro. A Psiquiatria usa a biologia humana para inibir ou ativar os processos biológicos que ajudarão o paciente a atingir um comportamento adequado. E as demais escolas médicas usam a mesma biologia para influenciar outros processos em prol das funções corporais que ela deseja aperfeiçoar. Em outras palavras, a “cura” médica é um parâmetro biológico ou mecânico esperado para uma função corporal, cuja definição foi arbitrariamente convencionada como razoável para o quadro. Ou quando indefinida, a mera ausência de dor ou desconforto. E a “cura” psiquiátrica é um comportamento resultante que o paciente ajuizado e o terapeuta entendem ser razoável. Nem a Medicina e nem a Psiquiatria estão calcadas em referências absolutas, em última análise. Não há como se falar estritamente em objetividade quando se avalia uma escola médica contra a outra. Por isso o documentário apresenta críticas que são vãs.

Nenhuma escola médica tem o direito de pretender o estudo do homem, a sua constituição biológica e a sua adequada postura comportamental, ignorando a existência de Deus. O Senhor Deus Todo-Poderoso e Onisciente criou o homem. E, naturalmente, um Ser tão puro e inteligente quanto o Senhor, criou um homem com um corpo otimizado, complexo, sistemicamente intrincado e cheio de informações. Ao se submeter a essa realidade divina o médico ganha a noção de que nada dentro do corpo é sem função, ao contrário do que já disseram alguns auto-intitulados cientistas. Essa percepção é um pressuposto crítico para os seus estudos. E também dá ao médico a humildade de reconhecer a complexidade da biologia humana, desde o nível molecular, bem como a existência de informação codificada no corpo humano, ambas as realidades próprias de uma Inteligência altamente criativa e poderosa que, eventualmente, pode ter provido os meios de sua decodificação. O médico cristão, em sua pesquisa científica, tem o privilégio de recorrer ao próprio Criador em oração por meio de Jesus, para que Ele providencialmente o ensine a respeito dos aspectos de seu estudo. Por sua vez, o psiquiatra cristão conhece, por doutrina, os comportamentos que devem ser incentivados, a existência das dificuldades naturais de se atingi-los e, com isso, possui as referências comparativas para identificar e estudar as dificuldades anormais que apareçam.

A Teologia também ensina que a alma vivente, ou seja, inteligência e a consciência humana, é uma. E o corpo humano é outro. Ambos perfazem um único ser humano, uma única personalidade e uma única pessoa. Mas são duas entidades distintas que foram projetadas para viverem unidas sem mistura ou confusão, embora a morte física pelo pecado as separe provisoriamente. Elas também são intercomunicáveis. Esse princípio, que o psiquiatra não tem o direito de ignorar, tem implicações profundas para a Psiquiatria em particular e à Medicina em geral. Porque se ambos são intercomunicáveis, o corpo pode afetar a alma e vice-versa. Para dar um exemplo, uma percepção incorreta de si mesmo, que é um ato de inteligência da alma, pode afetar o corpo, deprimindo-o neurologicamente. E, por sua vez, uma depressão neurológica pode afetar outras funções biológicas, já que o corpo é um sistema intrincado. Por outro lado, um corpo doente pode afetar a alma levando-a à conclusões viciosas que resultem em manias, obsessões, ódio, etc. Tal é a influência do corpo sobre a alma, que ele limita até mesmo as capacidades de aprendizado, de inteligência e percepção que a alma é potencialmente capaz de absorver. Portanto, sendo o relacionamento entre o corpo e a alma uma via recíproca, o melhor tratamento médico é aquele interdisciplinar, o qual procura ver o paciente de uma forma holística, biológica e comportamentalmente.

É por isso que é legítimo o psiquiatra, pressupondo a inteligência do paciente, tentar influir o comportamento dele usando-se de meios não medicamentosos como um complemento ao tratamento psiquiátrico. Infelizmente, porém, a influência adequada depende do sistema moral do terapeuta e dado que a Psiquiatria tem sofrido pressões de grupos políticos para a aceitação médica de certos comportamentos contrários à natureza, limitando o que o psiquiatra pode ou não dizer, o paciente eventualmente absorverá idéias inadequadas à sua evolução pessoal.

Novamente a Psiquiatria não pode ser julgada anti-ética, de uma forma exclusiva, por incentivar certos comportamentos que não convém. A corrupção moral não é da Psiquiatria, mas da Medicina em geral, de modo que hoje, contrariamente à natureza das ciências médicas, cujo objetivo é identificar, compreender e mitigar os problemas de saúde dos homens, os médicos, diante de diagnósticos como a anencefalia na gestação, recomendam a morte do paciente pelo aborto covarde. Um verdadeiro médico que se preze como tal, lamentaria o estado da mãe e do paciente, mas procuraria recomendá-la à coragem e à paciência e a todos os cuidados psicológicos, físicos e emocionais que ela careça. E, com a permissão da família, ele poderia fazer uso dessa oportunidade a fim de aprender melhor a quais os estímulos neurais o anencéfalo efetivamente responde e quais funções biológicas de seu pequeno corpo continuam funcionais e o porquê. Decerto, quaisquer estímulos aos quais o bebê responda, pelas técnicas investigadas e aprendidas, aliviaria a dor da mãe e aumentaria a própria compreensão da Medicina em relação ao papel do sistema nervoso no corpo e sobre a autonomia de seus demais sistemas biológicos.

Isso é o que um verdadeiro médico, imbuído de moralidade e de espírito científico, faria. No entanto, tal como um psiquiatra que diz “tudo bem, permaneça assim!” quando o paciente deveria mudar, certos médicos tem o desplante de dizer “mate, mate!” às mães; “se suicide, se suicide!” a alguns inválidos; e “desligue, desligue!” às famílias. O que dizer dessas coisas, senão que elas se originam do Diabo e de seus sequazes? Os quais, odiando intensamente o gênero humano, seduzem a alma com suas as idéias misteriosamente transmitidas a nós, poluindo e obscurescendo a nossa inteligência para que pequemos, de modo que os homens vendo e ouvindo sejam como cegos, surdos e brutos de coração?

Ainda somos medievais

Uma das críticas do documentário é o fato de que os psicotrópicos desabilitam certas funções neurológicas importantes e por isso fariam (necessariamente) mal à saúde do paciente. Ademais, supostamente, essas medicações não seriam mais eficazes que um placebo.

A crítica proposta acima parece razoável, mas é profundamente néscia. Como já afirmamos anteriormente, o fato de existir um número injustificável de diagnósticos psiquiátricos e, por conseguinte, a inconveniência de se ministrar medicamentos aos pacientes qualificados por essas patologias, não muda o fato de que tais substâncias são necessárias ao tratamento de patologias legítimas. Dizer que um psicotrópico é tão eficaz quanto um placebo e, ao mesmo tempo, afirmar que ele desabilita (ou seja, eficazmente influencia) certas funções neurológicas é um discurso contraditório próprio de quem não diz coisa com coisa.

Há a ser dito sobre a crítica. Ela, de forma oblíqua e talvez inconsciente, superestima a capacidade técnica da Medicina atual. A Medicina moderna avançou muito em termos de compreensão teórica da biologia humana. E o ressurgimento do princípio de Intelligent Design é capaz de potencializá-la ainda mais, dada que mesmo diante da complexidade do organismo humano, todos os seus aspectos possuem funções otimizadas a se estudar e, eventualmente, imitar. Mas, tecnologicamente, ela ainda é relativamente púbere.

Para explicarmos o porquê desse fato intrigante, precisamos recorrer a uma alegoria. Para tal, imagine que o seu carro necessite de alinhamento das rodas. Dois mecânicos se oferecem para fazê-lo. O primeiro, por um preço altíssimo, quer alinhá-las dispondo de ferramentas adequadas e de técnicas recomendadas pelo fabricante. No caso, ele possui os meios tecnológicos para ajustar adequadamente as junções dos sistemas de suspensão e de direção do seu veículo, de tal forma que a necessidade será sanada como se ela nunca houvesse existido. Contudo, você não pode pagá-lo, então só lhe resta o segundo mecânico. Este, embora cobre barato, não dispõe dos meios para abordar o problema adequadamente. Ele não pode manipular diretamente as junções dos sistemas afetados de modo a posicioná-los com a precisão de fábrica. Mas, com as suas ferramentas rudimentares, ele pode amassar e entortar as peças do veículo de maneira a posicionar as rodas de uma forma razoável.

A abordagem do segundo mecânico é funcional e dá resultados, ainda que longe das especificações de fábrica. Porém, é altamente destrutiva. Ao entortar as peças do veículo, na realidade, ele criou novos e mais complexos problemas para o proprietário. Pois, se antes do alinhamento, o veículo só necessitava de ajustes, agora, eventualmente, ele necessitará de substituições inteiras. Se antes do alinhamento o veículo apresentava um desempenho ótimo que se deteriorou com o tempo, agora ele jamais logrará igual performance e durabilidade no futuro. Diante desses prejuízos, o segundo mecânico alegará que o alinhamento é um problema maior e mais urgente, cuja segurança resultante compensa as deformidades adquiridas pela abordagem. Porque é mais provável sofrer um acidente devido ao desalinhamento do que pela deformação adquirida.

A Medicina moderna atua exatamente como o segundo mecânico em relação ao seu veículo de trabalho: o corpo humano. Ela geralmente é incapaz de fazer o corpo retornar ao ponto ótimo que Deus determinou para o sistema biológico tratado.

Considere como exemplo o tratamento médico da obesidade mórbida pela cirurgia gástrica bypass. Embora complexa, o objetivo dela é simples: reduzir dramaticamente a capacidade metabólica do paciente obeso para obrigar o corpo dele a consumir a sua própria energia química de reserva. E, eventualmente, pela capacidade minorada, dificultar o acúmulo de novas reservas. Contudo, ela o faz por via indireta, alterando fisicamente o sistema digestivo do paciente ao invés de atacar o problema onde ele efetivamente está, ou seja, nos hormônios. Porém, os hormônios são chaves químicas de processos fisiológicos controlados por máquinas moleculares. Abordar esse problema metabólico requereria, idealmente, a construção de dispositivos artificiais que interferissem estrategicamente na fisiologia do paciente por meio de outras chaves químicas nos processos de interesse. Essas chaves teriam a função de neutralizar certos hormônios e ativar outros. Tão logo esses dispositivos cumprissem o seu papel, eles seriam fagocitados pelo corpo, expelidos ou extraídos dele; e o sistema digestivo do paciente prosseguiria incólume. Mas essa abordagem tecnológica ideal ainda está além das possibilidades atuais da Medicina. De modo que ao cirurgião gástrico só resta a opção de intervir no metabolismo do paciente pela alteração traumática de todo o seu sistema digestivo. Isso dá resultados positivos para o combate da obesidade mórbida, mas deixa o sistema digestivo incapacitado para as suas funções normais, causando certos prejuízos colaterais importantes e irreversíveis com os quais o paciente viverá. É preferível, porém, os males menores da cirurgia bariátrica aos males e riscos muito maiores da obesidade mórbida.

Um outro exemplo interessante é o tratamento cirúrgico da espasticidade motora. A espasticidade muscular ocorre quando o cérebro é incapaz de controlar e sincronizar um músculo adequadamente. Essa incapacidade advêm de lesões cerebrais e é fundamentalmente um problema de comunicação eletroquímica. Idealmente, o problema seria tratado por meio de dispositivos computacionais quânticos de entrada e saída química, cada qual de tamanho micrométrico, os quais seriam afixados nas terminações nervosas do músculo espástico. Esses dispositivos artificiais constituiriam uma interface entre o cérebro e o músculo-alvo, cujo objetivo seria aplicar os algoritmos de reconhecimento e correção de erros na comunicação eletroquímica dos órgãos. Eles interceptariam a mensagem química deteriorada do cérebro, a processariam eletronicamente em sincronismo com os seus pares, e a reconstituiriam quimicamente de forma íntegra para o músculo. Desnecessário dizer que essa tecnologia não existe. Então, o cirurgião ortopedista simplesmente restringe o músculo espástico a uma determinada posição ótima e confortável para o paciente, de tal forma que, ainda que o cérebro continue mandando mensagens deterioradas, ele será incapaz de movê-lo significativamente. O mal de se ter um músculo parcialmente imobilizado por intervenção cirúrgica é muito menor do que o mal incapacitante causado por um músculo livre, mas incontrolável e espástico.

A farmacologia psiquiátrica não está livre desse contexto limitado. Todo fármaco, com exceção das metástases cancerígenas e das infecções generalizadas, quer influenciar um processo fisiológico muito específico a nível molecular que está num tecido-alvo. Não podendo o médico atuar de uma maneira tão objetiva e precisa, a estratégia usada é a mesma dos antigos bombardeios de guerra aérea. O piloto, não podendo garantir se atingirá o edifício inimigo, deve bombardear um quarteirão e até um bairro inteiro, na esperança de destruir o pequeno e verdadeiro alvo. Da mesma forma, o médico aplica o fármaco ao corpo inteiro, quer por via oral ou intravenosa, na esperança de que um pequeno restante da dose chegue ao tecido-alvo, levado pela circulação sanguínea. Contudo, à medida que o fármaco atinge os tecidos não almejados, ele provoca certos efeitos igualmente indesejados. Infelizmente, isso é próprio das limitações técnicas da Medicina, os quais a tornam similar a um jogo de azar, onde ganha aquele que escolhe sofrer menos. A Medicina, como um todo, ainda tem muito a evoluir de seu quasi-medievalismo prático. Criticar a Psiquiatria só por que os psicotrópicos causam males colaterais é o mesmo que nesciamente condenar toda a profissão médica de nossos dias.

Uma outra abordagem de crítica à Psiquiatria

Tendo em vista que a crítica técnica à Psiquiatria é falha por se aplicar igualmente à Medicina em geral, salvo no que se refere à desonestidade deliberada, resta aos detratores apenas a crítica sociológica.

O documentário não chega ao ponto de dizer que as doenças mentais não existem, embora deixe a entender o contrário em algumas partes. Nisso ele é inconsistente, pois ao passo que ele admite que existem doenças mentais e afirma que os psicotrópicos são eficazes como os placebos, ele também afirma que esses fármacos minoram as capacidades neurológicas e comportamentais do paciente. Dessa forma, conclui-se contraditoriamente que os psicotrópicos efetivamente influenciam a mente humana. Agora, se os psicotrópicos influenciam o cérebro, a Psiquiatria está justificada enquanto busque metodologicamente um fármaco que atue beneficamente para um determinado quadro patológico. Esse é um dos principais objetivos da Psiquiatria. E é justamente esse objetivo específico e a sua metodologia científica rigorosa que ele requer, que a separa da selvageria das drogas ilícitas, as quais são consumidas por viciados sem nenhuma necessidade, sem nenhum controle, conhecimento ou filtros.

Eu sou a favor do uso de drogas como a cocaína, a maconha e o ópio? Certamente que sim. Contanto que elas sejam usadas exclusivamente por laboratórios autorizados, preparados e idôneos para fins de pesquisa bioquímica. Se essas drogas são oriundas de plantas que estão na Natureza, dado o princípio de Intelligent Design, onde nada foi criado em vão, essas plantas devem servir para alguma coisa útil.

Alguns entre os interessados na liberalização das drogas afirmam que eles as querem para fins de medicina natural. Só que isso é um sofisma, pois eles não possuem meios metodológicos para avaliar rigorosamente o que é preciso fazer para tratar a droga antes mesmo do próprio tratamento da doença a ser atacada. Ademais, a utilização sem controle das drogas, mesmo lícitas, traz um risco enorme ao paciente. É engraçado como os civis e os políticos concordam que a auto-medicação é um perigo para o paciente – e por isso existem leis e procedimentos oficiais para prevenir a prática. Mas quando se trata da liberalização das drogas, certos grupos de pressão querem hipocritamente apagar o senso comum. Por isso, é evidente que esse sofisma é só uma desculpa oblíqua para a consumo recreativo das drogas ilícitas.

Existem aqueles ativistas que são mais honestos e claros em relação aos seus objetivos na liberalização. Eles dizem que se trata de um direito individual e da proteção da liberdade de escolha. E esse é o ponto que eu queria chegar: tal como esses ativistas, alguns criticam a Psiquiatria porque ela procura inibir certos comportamentos que o paciente, supostamente, possui o direito civil de exibir. Ou seja, eles dizem que a Psiquiatria é uma ferramenta opressiva de controle social. Eles acrescentam que não importa que alguém, sofrendo de depressão profunda, venha a se suicidar e causar uma imensa dor à família, o abandono dos parentes dependentes, e uma perda irreparável para a sociedade como um todo. O suicídio, dizem esses loucos inúteis, é um direito civil. Para eles, não importa se um paciente esquizofrênico em pleno surto de alucinações persecutórias está colocando em risco as pessoas ao seu redor. Segundo essa idéia, ele está apenas exibindo um comportamento de moralidade relativa.

Esses críticos e os seus colegas ativistas possuem uma cegueira comum a todos os libertários fanáticos, aos quais é mais apropriado chamar de liberalóides. Os liberalóides deliberadamente ignoram o fato de que eles cresceram porque alguém investiu, protegeu e cuidou deles. Eles ignoram o fato do qual se eles agissem coerentemente com as idéias que pregam, poderiam livremente abandonar os filhos e assim comprometer o futuro das próximas gerações de liberalóides. Porém, porque a lei de Deus está parcialmente gravada no coração deles, eles sentem um afeto natural pelos seus parentes de sangue; e que devem, por algum motivo, honrá-los. Mas, como alienados que são, negam com a boca a própria natureza que grita dentro deles, em prol de idéias anti-humanas de liberdade e propriedade absolutas. Pobre daquele que é cônjuge de alguém que pensa que a sua relação está fundamentada numa mera conveniência!

Ao contrário do que quer a loucura liberalóide, você não pode consumir drogas potencialmente incapacitantes, porque você tem deveres para com os seus pais, os seus parentes e a sua raça. O seu corpo não é estritamente seu, porquanto você não o criou com as suas mãos e não o escolheu. Não foi você quem definiu as circunstâncias de seu nascimento, a sua aparência, as suas tendências e limitações emocionais e biológicas, quem seria a sua família ou sequer os recursos e a criação que você recebeu quando dependente. Como você pode ser dono de algo que você não comprou, não construiu, não projetou ou sequer opinou quanto às suas características mais simples?

Você não tem, em absoluto, nenhum poder sobre você mesmo, senão em relação às circunstâncias que dependem limitadamente de seu controle e decisão. Elas aparecem diante de você apenas e tão somente quando e se Deus quiser, e você nada pode fazer em relação àquelas, tais como as doenças terminais, que Ele joga sobre você. Tendo em vista que você é um mero agente sem poder qualquer senão aquele que lhe é estrategicamente dado por Deus, você tem um fim. E o seu fim, decerto, não é causar dano deliberado a um corpo que lhe foi dado e nem permitir que o seu corpo traga sofrimentos à sua família quando os motivos psíquicos ou biológicos dessas aflições possam ser tratados. Porquanto à sua família foi dada por Deus autoridade sobre você, ela tem o direito de recorrer às intervenções drásticas quando as suas condições psíquicas ou biológicas o requerirem.

Os liberalóides e as suas idéias são uma praga justamente porque, em última análise, negam o fundamento natural e necessário das relações humanas, das pessoas com os parentes e com a raça – a qual é uma família extendida cujos membros possuem em comum o mesmo sangue e história. A liberdade e a propriedade de um indivíduo, embora indubitavelmente existentes, são limitadas por essa solidariedade de natureza racial. E o fim de uma pessoa é justamente usar todas as habilidades dadas ao seu corpo, no contexto de seus limites, para, em primeiro lugar, honrar Àquele quem a criou. Em seguida, a família e depois a raça. Um viciado em drogas, que escolheu deliberadamente destruir o seu corpo, merece ser criminalizado (junto com o traficante) porquanto faz sofrer a sua família e deixa a sociedade sem os talentos que ele poderia prover em sobriedade. Ademais, porque incapacitado pelo vício por escolha,ele põe em risco a segurança, a saúde e a sanidade das gerações futuras que vier a procriar. Por isso não seria ilógico esterilizá-lo. Essa é a visão que falta ao atomismo e ao egoísmo dos liberalóides.

Conclusão

A Psiquiatria, sem dúvida, está justificada. Social e cientificamente, a despeito de suas falhas históricas e atuais; e apesar das corrupções pontuais que a afligem. Entretanto, tais revezes devem ser vistos como pertencentes à Medicina como um todo, pois nenhuma área médica está ou esteve isenta desses sofrimentos.

O futuro da Medicina, e por conseguinte da Psiquiatria, é multi-disciplinar. O avanço da tecnologia requererá mais proximidade entre a Medicina e as Ciências externas a ela, especialmente as muitas escolas da Engenharia. E o avanço do conhecimento médico requererá cada vez mais uma abordagem mista e holística entre as escolas que estudam os vários sistemas biológicos do corpo humano em seus aspectos comportamentais e fisiológicos. Contudo, ela tem muito a avançar, por mais impressionantes e admiráveis que sejam as suas técnicas atuais. Esse avanço só virá através de uma postura humilde perante o Senhor Deus.

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