O Pecado Original: o Entendimento Latino e o Oriental

Estando patente o entendimento profundamente jurídico do Cristianismo Latino e Ocidental (o que inclui os protestantes) acerca das coisas sagradas, naturalmente a doutrina do pecado original não escapa desse prisma. Ela também é vista de forma legalista pelos latinos.

O entendimento latino

Reza o protestantismo que o pecado original é a imputação judicial de culpa à toda humanidade devido à desobediência de nossos primeiros pais, Adão e Eva. Por solidariedade de raça, todos nós somos judicialmente culpados, com eles, desse pecado. E junto com essa culpa, nós carregamos todas as conseqüências dessa primeira desobediência: sofrimentos, doenças, labor amargo, concupiscência, envelhecimento e morte. O Senhor Deus é o Juiz dos vivos e dos mortos. Contra as Suas ordens expressas os nossos primeiros pais O desobedeceram e Ele os julgou imputando a eles e à toda a descendência, por solidariedade racial, a culpa original. Como cada indivíduo da raça humana é humano a partir de sua concepção, cada humano é concebido culpado do pecado original.

Séculos após o advento do Cristianismo, o Protestantismo viria a proclamar a justificação pela fé, e pela fé somente. Essa justificação que se dá por meio dos méritos de nosso augusto Senhor Jesus é uma contra-sentença judicial. Essa nova sentença é ab-rogatória da sentença original que o Senhor Deus impôs à toda humanidade, em benefício de uma determinada porção escolhida dela. Ambos, a Igreja Romana e o protestantismo, concordam que no momento em que Deus profere a justificação judicial [1], o réu de pecado original, sendo participante da porção escolhida da humanidade, é imediatamente absolvido.

O entendimento do papismo não difere muito do entendimento protestante. A diferença fundamental entre ambos é essa: no protestantismo a imputação de justiça ao pecador é eficaz para os pecados passados e futuros em relação à data de sua primeira profissão de fé. No romanismo, a imputação é eficaz apenas para os pecados passados em relação à data em que ele foi batizado. Os católicos (ortodoxos e romanos) acrescentam que o sacramento do batismo infunde graça para que o pecador viva num crescendo de justiça. Se o pecador não perseverar na justiça infundida, ele perderá a salvação. Essa perda de salvação, o protestantismo considera impossível, porque ele crê que a justiça não foi apenas infundida, mas irretratavelmente imputada, de forma independente dos méritos ou deméritos do pecador. Portanto, incondicional.

O entendimento oriental

Porém, todo o entendimento latino é fundamentado na hamartiologia de São Agostinho que, embora venerado pela Igreja Ortodoxa como um santo, é reputado por ela como um teólogo equivocado. Agostinho expôs a sua hamartiologia em resposta ao heresiarca Pelágio, o qual negava qualquer tipo de culpa ou corrupção herdada pela descendência humana a partir de Adão e Eva. Segundo Pelágio, cada indivíduo da raça humana só peca por aprendizado e não por força de uma tendência natural herdada – tal como sempre ensinaram as Igrejas Latina e Oriental. Em outras palavras, na visão pelagiana, é possível, ao menos em tese, o nascimento natural de homens e mulheres que cresçam e vivam perfeitamente sem qualquer auxílio divino. Se, porém, esses perfeitos venham a malograr na sua conduta em qualquer momento de suas vidas, sofrerão todas as nefastas consequências da queda.

Houveram de fato dois indivíduos que efetivamente viveram com perfeição: Jesus e Maria. Todavia, o nascimento deles não foi completamente natural. A Igreja Ortodoxa ensina que ambos eram justos porque contaram com o auxílio divinal. Maria, por divino auxílio, nunca pecou a despeito de ter nascido de pai e mãe como qualquer humano. E Cristo nunca pecou porque nasceu como Adão, ou seja, por intervenção direta de Deus. Porém, em contraste a Adão, Cristo foi divinamente impedido de pecar por toda a Sua vida, tal como Maria, a despeito de ambos terem herdado as fraquezas da natureza humana. Maria, de seus pais, e Cristo, de Sua Mãe.

Quanto a todos os demais seres humanos, a Igreja Ortodoxa ensina que eles não só herdaram as deficiências naturais de Adão, como pecaram por força delas. É nesse ensinamento que a Ortodoxia refuta a heresia pelagiana.

A Igreja Ortodoxa contra São Agostinho

Existe, entre a refutação a Pelágio exposta por Agostinho e a exposta pela Ortodoxia, uma diferença hamartiológica muito sutil, mas com implicações profundas. Devido a um erro de tradução, já que Agostinho utilizava a Bíblia em latim e não no original grego como seria apropriado para um estudioso das Escrituras, o teólogo concluiu o seguinte: Adão pecou contra Deus e Deus de imediato julgou-o e castigou-o com a morte espiritual. O julgamento divino vinculou-se à humanidade por solidariedade racial. Julgada ela, foi castigada da mesma maneira. Porque ela foi castigada com a morte espiritual, ela segue pecando. Um pecador está preso no vício do pecado até a sua morte física.

Para a Ortodoxia, em conformidade à leitura correta da Bíblia em grego, o incidente ocorreu assim: Adão pecou e de imediato sofreu uma deformação em sua natureza (o que a Igreja Ortodoxa chama de mortalidade). Depois disso, Deus julgou somente os atos dele e os de sua esposa. Por coabitação, a deformação de Adão é transmitida a nós. E porque nascemos naturalmente deformados, pecamos quando capazes; e porque pecamos como indivíduos, somos individualmente condenados por Deus. Em outras palavras, para os latinos, o pecado original é essencialmente um problema jurídico vinculativo à toda a raça humana. Para a Ortodoxia, ele é uma doença herdada com eventuais efeitos jurídicos para cada enfermo da raça.

Eis o ponto: se diz eventuais porque nem todos os enfermos da deformação herdada são pecadores. A Virgem compartilhou da nossa natureza humana imperfeita e não pecou; os bebês também compartilham e, igualmente, estão isentos de pecado[2].

O pecado original na concepção oriental e a doutrina da justificação pela fé

Para a Ortodoxia, sendo o pecado original uma doença, e os pecados individuais dos homens os seus sintomas, a justificação pelo batismo canônico não é tratada como uma promulgação judicial entre Deus e o pecador. Mas como o início de uma relação terapêutica entre ambos, cujo objetivo é a teose do pecador enfermo, ou seja, a sua glorificação corporal pela ressurreição futura, à semelhança do que foi feito a Cristo.

Os latinos enfatizam ou pontuam quase que exclusivamente que Cristo em Seu sublime sacrifício deu satisfação de nossos pecados ao Supremo Juiz e por isso podemos conviver com Ele. Mas os orientais consideram estranho à Tradição esse conceito vicário. Eles não vêem Deus tal como os latinos o vêem, que é uma visão similar a como pagãos viam os seus próprios deuses: como uma entidade cujo furor só se satisfaz com sangue. Deus é Amor e isso é uma verdade literal para os orientais. O perdão dos pecados é verdadeiramente um ato de graça da parte de Deus e não uma consequência legalista do sacrifício de Cristo. Para os orientais, Deus perdoa os pecados com ou sem sacrifício (2Sm 12, Mt 9:1-6). Deus não está divido ao meio entre o amor e a Sua justiça. Para a Ortodoxia, Deus não é “amor, porém é justiça”, como dizem os latinos. Mas, sim, Deus é amor e justiça, sem contraste.

De fato, isso explica muito da generosidade do Senhor. Ele Se considera um Pai adotivo para aqueles a quem Ele quer salvar. Todo pai, ao perdoar o seu filho, não dá a ele um certificado de anistia para que seja apresentado a um tribunal. E também não derrama o sangue alheio para perdoá-lo. No entanto, um pai é capaz de dar a própria vida por um filho que ama, mesmo pelo desnaturado. Os latinos concordam que Deus é um Pai, mas ensinam que esse Pai age de forma muito diferente dos demais pais. Isso de fato contradiz o amor paternal superior e generoso a todos os pais, do qual Cristo testificou acerca de Seu Pai (Lc 11:9-13).

Por isso os orientais refutam o conceito de que o sacrifício de Cristo foi uma substituição expiatória. O sacrifício de Cristo não foi uma transferência de culpa ou uma satisfação judicial. Mas um meio pelo qual Ele, o último Adão, venceu a morte física, a qual é concebida pelo pecado, para conceder aos justos a teose e fazê-los participantes de Sua natureza humana e glorificada[3]. Estávamos presos à mortalidade e, por amor, a Trindade Se moveu para mudar essa realidade. A visão oriental do sacrifício e da ressurreição de Cristo é, sem dúvida, mais ampla, elevada e mais familiar ao amor humano de pai. É uma visão de triunfo, que trouxe a ressurreição final tanto para os justos, quanto para os injustos. Aos justos, a ressurreição para a vida eterna. Aos injustos, a ressurreição para o Lago de Fogo.

Em outras palavras, ninguém mais morrerá fisicamente, porque Cristo capturou a morte em Sua ressurreição e a destruiu. Se Ele não Se sacrificasse, após a morte, nós viveríamos para sempre como espíritos desencarnados.

A Ortodoxia está numa irreconciliável contradição com o entendimento latino, porque ela ensina, corretamente, que o inocente não pode ser punido pelo pecado de um ímpio. Cristo Jesus não poderia ser punido pelo pecado alheio e de fato não foi, porque Ele não está no inferno eterno. Nenhum tribunal humano em sã consciência puniria um inocente no lugar de um culpado confesso, mas os latinos dizem que Deus faz isso com o Seu próprio Filho. Logo, a imputação de justiça ensinada pelos protestantes, é blasfema para a Ortodoxia. Uma vez que os protestantes desenvolveram logicamente a sua hamartiologia do romanismo, o papismo também é culpado por ela. Sendo a idéia de transferência de culpa o cerne do Cristianismo latino, os latinos precisarão reconstruir toda a sua soteriologia a partir dos rudimentos da fé.

No entanto, ambas as visões, latina e oriental, são complementares no que diz respeito ao simples perdão dos pecados, sem os seus nuances judiciais. O perdão dos pecados de fato está implícito no batismo, não por uma necessidade judicatória, mas por amor divino. Quem é capaz de se sacrificar ao custo da própria vida por um injusto, é plenamente capaz de perdoar com o seu sacrifício. É justo dizer que o sacramento do batismo traz o perdão dos pecados e a Ortodoxia concorda sem titubear com a simplicidade desse fato. Com efeito, o nosso Senhor e Redentor Jesus diz:

Porque isto é Meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados. (Mt 26:28)

Pode-se ortodoxamente interpretar que o batismo é o início de uma terapia inaugurada pelo perdão amoroso dos pecados.

Aqui uma contradição do romanismo é exposta: se o pecado é perdoado por meio de um sacrifício vicário, qual é o fundamento sacrificial do sacramento da penitência para o perdão dos pecados capitais? O protestantismo diria que o perdão pela penitência (que é tratada apenas como um arrependimento pessoal e privado) é o próprio sacrifício de Cristo, que perdoa os pecados capitais passados e futuros. Mas o romanismo diz que o sacrifício só perdoa os pecados passados ao batismo, ele não é eficaz para perdoar os pecados capitais futuros no âmbito deste sacramento. Não há uma resposta lógica para esse dilema no romanismo. Na Ortodoxia, porém, a resposta é simples: o perdão através do sacramento da penitência vem livremente de Deus, sem sacrifício, após a comoção divina pelo coração contrito e arrependido. É por isso que Deus diz: “misericórdia quero, e não sacrifícios”.

Antecipando uma objeção contra a visão oriental do pecado original

Os defensores da hamartiologia agostiniana poderiam se contrapor argumentando que, na História da Redenção, houveram várias pessoas e grupos raciais cuja culpa, oriunda não deles, mas da má conduta de seus ancestrais, foi-lhes imputada. A família do Rei Acabe, a família do Rei Saul, a nação de Canaã, a nação de Esaú, etc., são exemplos notórios dessa objeção. Contudo, o maior e o mais famoso exemplo de culpa imputada por solidariedade racial é a acusação de deicídio que pesa sobre todos os judeus. A questão do deicídio, embora seja evitada em nossos dias, foi inquestionavelmente um ensinamento constante da Igreja por séculos.

Para responder a essa objeção, existem algumas coisas a considerar. O infortúnio causado aos descendentes de alguns dos citados, tais como os cananeus e os edomitas, deve ser atribuído principalmente (mas não só) a problemas de transmissão de herança e a todos os fatores a ela relacionados, os quais perfazem um outro e fascinante assunto. Alguns infortúnios dos outros citados, como os filhos do Rei Acabe, não se devem à imputação de culpa, mas à recusa do Senhor Deus em tratá-los com benevolência. Deus pode, possui o direito e efetivamente faz isso com os réprobos sem considerar outra coisa senão a culpa individual de cada um deles. Em outras palavras, esses infortúnios podem ser explicados por outras causas além da suposta imputação de culpa hereditária. Sem mencionar que, embora a culpa pessoal não seja transmissível, as consequências dela geralmente são.

Contudo, a acusação de deicídio contra os judeus é um caso interessante de onde o correto entendimento de culpa individual é desvelado como um princípio geral. As Escrituras Sagradas afirmam que todos darão conta de seus próprios atos a Deus. E salientam que os filhos não serão culpados pelos pecados de seus pais se não compactuarem com as transgressões deles. Mas também citam que Deus não ignora a iniquidade dos pais nas gerações dos filhos. E é aqui o ponto focal da relação entre a culpa pessoal e os atos ancestrais.

Os judeus e os israelitas contemporâneos ao ministério de Cristo, O rejeitaram em grande parte, seguindo o mal exemplo de seus pais em relação aos profetas. Sabendo dessa rejeição porque ela foi predestinada, Cristo disse-lhes que por tal atitude obstinada, eles eram culpados por todas as violências lançadas contra os justos desde Abel. Isso é muito significativo e compreensível, porquanto toda a História da Redenção foi preparada para aquele único momento onde o Senhor Deus, na Pessoa do Filho, estava lá, diante de Suas criaturas, pregando-lhes o Evangelho. E não só a História da Humanidade havia sido preparada para esse fim, mas a própria Criação.

A criação do homem, o dilúvio universal, os patriarcas, os cataclismos de Moisés, a História de Israel e dos Impérios vizinhos, etc., tudo culminava em Cristo. E os judeus e os seus concidadãos israelitas O estavam rejeitando com blasfêmias terríveis. Em outras palavras, eles não rejeitaram o Messias somente, mas tudo o que foi feito por Ele desde o primeiro dia da Criação. Portanto, de fato, por rejeitarem tudo, se tornaram culpados por tudo.

Daqui se extrai o princípio geral da relação entre culpa individual e pecados ancestrais: somos culpados pelos pecados de nossos pais não porque ela nos foi imputada judicialmente. Mas porque, mesmo conscientes dos pecados de nossos pais, os celebramos e os aplaudimos. E quando celebramos os pecados pessoais de nossos ancestrais, fazemos deles os nossos próprios pecados pessoais. Dessa forma, os judeus são deicidas enquanto, de forma arrogante e dolosa, se alegrarem por seus ancestrais terem assassinado o Deus encarnado [4].

Essa é uma questão interessante, pois os judeus estão diante de um dilema: se honrarem os seus ancestrais, desonrarão a Deus. E, se honrarem a Deus, desonrarão os seus ancestrais. Por isso que Cristo disse aos Seus irmãos de raça e aos judeus de Seu tempo que Ele trouxe a espada e a divisão dos filhos contra os seus pais. Não é porque a espada é um estado desejável para as famílias. Mas porque os israelitas e os judeus estão num dilema do qual não há escapatória. De fato, eles não podem escolher ambas as opções simultaneamente. Mas sempre que eles honrarem os seus ancestrais em um sentido indigno contra Cristo, serão deicidas tanto quanto os seus pais.

Esse princípio é positivo, porque se houvesse culpa imputada por solidariedade racial, os judeus não teriam nenhuma esperança de salvação. A raça inteira estaria condenada. E os israelitas raciais como Cristo, idem. Assim, não haveriam os Santos Apóstolos israelitas; a Igreja jamais teria sido fundada em Jerusalém; e a primavera semítica do Cristianismo no Império Romano teria sido impossível.

Antecipando uma objeção contra a visão oriental do sacrifício de Cristo

Os latinos poderiam objetar à visão oriental, mostrando a abundância de textos bíblicos que atestam a substituição dos pecadores em Cristo. Cristo levou sobre Si as nossas iniquidades e cancelou as nossas dívidas, enfatizariam os latinos. Mas a Ortodoxia não nega esse fato. A contradição que ela aponta é o seguinte: os latinos dizem que “levar sobre si as iniquidades” é inexoravelmente levar sobre si a culpa e não a consequência, ou seja, a mortalidade. Cristo morreu, então, forçosamente, Ele levou sobre si as consequências letais de nossos pecados. Não porque Ele tivesse alguma culpa que O matasse, mas porque Ele deixou a tranquilidade de Sua natureza divina, encarnou-Se solidariamente à nossa constituição física mortal, para sofrer à nossa semelhança. Portanto, Ele estava propenso a morrer. Ele tomou as nossas dores e de fato cancelou as nossas dívidas. Porque o salário do pecado é a mortalidade física e a morte foi tragada pela Vida.

Da mesma forma é a expressão “sem derramamento de sangue não há redenção”, na Epístola aos Hebreus. O termo redenção, no grego original, é sinônimo de resgate. Resgate de onde? De uma prisão: o Sheol, o cativeiro da morte. Por isso Cristo, que derramou o Seu sangue, desceu ao Sheol quando esteve morto. Para saquear do inferno, os Seus eleitos falecidos,dentre os que vieram antes dEle.

O inferno eterno, porém, é consequência da culpa individual por atos e escolhas individuais. E não da morte física que o pecado acarreta. Porque os pecadores impenitentes serão jogados vivos no Inferno, após a ressurreição. Há uma diferença, então, entre a mortalidade e a culpa como consequência do pecado. A mortalidade não faz de ninguém um pecador, mas a culpa faz, embora ambas as realidades existam devido ao pecado. É a culpa que leva ao inferno e não a simples morte física.

Notas

  1. A posição protestante implica que os bebês cristãos não são beneficiários desse meio de justificação judicial já que eles não podem professar a fé. No caso, a justificação deles é assumida simplesmente como um fato forense sem qualquer outro meio envolvido. Eles, os bebês, são judicialmente declarados justos apesar de pecadores por solidariedade racial, ainda que inocentes de atos pecaminosos pessoais e incapazes de juízo racional. Mas isso gera um problema colateral: se pecadores impenitentes, ainda que bebês, podem ser justificados sem qualquer fé ou vida devocional, para quê, afinal, elas servem? E o pior: não seria vã a teose como um lento processo? Dizer, como os protestantes, que a vida devocional é meramente um sinal da justificação do pecador, não responde o porquê de ele existir em primeiro lugar ou para quem ele é dirigido.

    Por sua vez, o Romanismo, querendo tratar do problema do pecado original dos bebês e repudiando a idéia protestante de justificação forense, criou a fábula do Limbo. Não se pode dizer que tal invenção é incoerente com a má teologia de onde advém o conto. Mas, em termos de lógica, ao menos, o suposto Limbo provê, considerando o entendimento latino do pecado original, uma solução soteriológica sem grandes lacunas em relação à contraparte protestante.

    No mais, o Protestantismo e o Romanismo discordam quanto ao alcance dessa justificação judicial. Para os protestantes, ela é ampla, geral e irrestrita. Para o romanismo, as penas temporais de cada pecado estão excluídas do perdão. Elas haverão de ser pagas após a morte física do réu, no Purgatório. Tendo quitados todas as penas temporais, todos os réus residentes sairão, cada um a seu tempo, do Purgatório e adentrarão na vida eterna.

  2. Por isso que a idéia romana de Limbo é uma fábula inventada para salvar uma hamartiologia ruim. O conto se dá assim: se os bebês são pecadores por solidariedade racial em Adão e se são privados do batismo canônico, logo, morrendo nessas condições, merecem a condenação eterna. Mas essa conclusão é insuportável para qualquer pessoa normal. Dessa forma, o Romanismo inventou um Limbo onde os bebês poderiam viver eternamente como pecadores, mas sem o sofrimento doloroso daqueles que pecaram por volição.

    Daí que se percebe porque a militância romana contra o aborto é tão aferrada. Porque não se trata apenas de salvar uma vida de um assassinato covarde, mas, sobretudo, de salvá-la do Limbo. Essa hamartiologia é tão néscia que implica na infelicidade de pais devotos perderem os seus filhos nascituros para o Limbo, se a gestação malograr por qualquer motivo. Isso assumindo que o Limbo é real, já que a fábula sequer é unanimidade entre os romanistas. Aqueles, entre eles, que negam a sua existência, ensinam que os bebês mortos sem batismo vão para o Inferno com todas as dores e sofrimentos.

    Para a Ortodoxia e para os protestantes os quais dispensam tais contos, os bebês assassinados são equivalentes aos mártires cristãos quanto ao injusto suplício e aos anjos conservados em graça sem a existência de uma justificação forense quanto à eleição deles.

    A Ortodoxia pode ainda dispensar a doutrina romanista da Imaculada Conceição de Maria. Essa doutrina estabelece que Maria, sendo o Templo no qual Cristo foi gerado, não podia jamais ter sido maculada pelo pecado. Com isso, de um modo mais abstrato, a Ortodoxia concorda. Mas, se para Roma, o pecado original é uma imundície, é forçoso concluir que de alguma forma Maria foi concebida imaculada, misteriosamente distinta a todos os seres humanos. A Ortodoxia enfaticamente discorda: embora a Virgem Mãe tenha, segundo o que é ortodoxo, herdado uma natureza deformada, a deformação não é uma imundície. Não é pecado padecer de doença, e é apenas disso que a mencionada deformação se trata. Portanto, a Santíssima Virgem não é maculada por impurezas e nem foi concebida de forma distinta da Humanidade, embora tenha sido impedida de pecar por toda a Sua vida. Sem pecado e não obstante deformada, Ela estava apta a gerar o Cristo, o nosso Divino Senhor Jesus.

    Além disso, Cristo sentiu todas as fraquezas de Sua natureza humana e as sofreu. Decerto, isso veio de algum lugar e só pode ter sido de Sua Mãe, através da herança de consanguinidade. Se Ele a herdou, se segue que Maria padecia das mesmas coisas. Logo Ela não podia ser imaculada desse sofrimento, embora não tenha nenhuma culpa que a torne impura.

  3. A doutrina clássica sobre a Eucaristia é esclarecida pela teose. Porque, ao contrário da idéia romana da celebração eucarística ser a reapresentação do sacrifício vicário de Cristo — onde, nessa concepção legalista, ela também serve para anistiar os pecados veniais — a teose revela que a Eucaristia é, na verdade, um sacrifício de louvação por meio do qual, pela Real Presença de Cristo, a nossa futura participação na natureza Dele é antecipada por um curto momento durante a Liturgia.
  4. Os judeus, ao se defenderem contra a acusação do pecado de deicídio, costumam argumentar que os verdadeiros responsáveis do assassinato de Jesus foram os romanos os quais eram os únicos que possuíam autoridade legal para executá-Lo. Ademais, Cristo havia dito a todos os presentes em Sua crucificação: “Pai, perdoa-Lhes, eles não sabem o que fazem”, etc.

    Dado que os Santos Apóstolos reiteraram por diversas vezes a realidade do pecado de deicídio contra os seus compatriotas; que o Segundo Templo israelita foi destruído por vingança da parte do Senhor; que Ele sobrenaturalmente impediu que o mesmo fosse reconstruído nos tempos do Imperador Juliano, o Apóstata, e após; e que o Império Romano se cristianizou e perdurou por longos e gloriosos 1.500 anos; só podemos concluir que o perdão de Cristo foi direcionado aos soldados romanos que estavam pilhando as Suas vestes e zombando Dele sem nenhum conhecimento dos fatos e de Quem Ele era.

    De qualquer forma, o ministério terreno de Cristo foi dirigido a Israel e cabia a ele, e não aos romanos, reconhecê-Lo durante aquele período crucial. Mas, ao invés disso, os cabeças do povo, na posição de representantes de todo o país, entregaram o Senhor aos romanos após um julgamento ilegal e por meio de uma falsa acusação de subversão política. Por isso os líderes de Israel se condenaram perante a Trindade e, com eles, o país inteiro. Todas essas coisas ocorreram a despeito dos milagres públicos praticados por Cristo, cuja incredulidade de Seu próprio povo atraiu até mesmo a ira e a consternação do rei pagão de Edessa que quase guerreou contra Israel por esse motivo. E também a despeito das inúmeras profecias claríssimas registradas na LXX sobre o Messias, a qual estava em uso geral e global na época. E, por fim, a despeito do fato de Pilatos não querer executá-Lo, sendo obrigado a fazê-lo pelo populacho para evitar um motim sangrento.

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