Olhando Para Além da Sacristia

Uma das grandes decepções que eu tive à medida que eu me aprofundava nos meus estudos sobre a fé romana, foi o fato de eu perceber que, nessa Igreja, nem tudo é o que parece. É dificil explicar o porquê de um modo geral, então o farei por exemplos:

Os santos incorruptos

Os corpos incorruptos dos santos expostos no Vaticano testemunham um milagre incrível e belo, conforme se vê pelo próprio estado de conservação de cada um deles. Pelo menos é o que parece. E esse é o problema… É só o que parece. Porque a beleza desses santos é reforçada por belas máscaras de cera, no rosto, nos dedos e nas mãos. Embaixo dessa camada não existe nada muito diferente de um corpo mumificado, isso quando sequer existe um corpo, apenas uma estátua.

Um santo mumificado, sepultado em condições que, aparentemente, impeçam a sua conservação, é um evento extraordinário por si só e merece a atenção e o estudo honesto de qualquer perito. Contudo, a Igreja tem o direito de interpretar mumificação como queira e até cobrir o corpo com máscaras para exposição. Mas, sinceramente, fazer isso sem apresentar nenhum aviso e alardear a quem quer que o veja a presença de um sinal sobrenatural é, para dizer o mínimo, induzir as pessoas ao erro. O que custa ao menos afixar uma placa no caixão transparente avisando que o corpo do santo está coberto por uma camada protetora? Na verdade, tenho as minhas suspeitas do porquê a omissão. Simplesmente porque as pessoas não se interessam muito em peregrinar para ver múmias; e isso não ajudaria na devoção delas, seja lá para qual fim a Igreja queira com isso.

O ascetismo romano

Ao mencionar os santos incorruptos, podemos falar de um deles: o Padre Pio de Pietrelcina. Não é fácil definir a vida desse santo em poucas palavras, considerando os inúmeros sinais que ele operou em vida e os dons incríveis e extraordinários que ele possuía tais como: bilocação, clarividência, visões, etc. Isso parece impressionante, até que você é confrontado com os demais fatos sobrenaturais do homem.

E porque fatos “sobrenaturais” e não “naturais”? Porque o Padre Pio era perseguido pelo demônio recorrentemente, chegando ao ponto de sofrer terríveis agressões físicas [i] da parte dele, no dormitório do monastério onde morava, às vezes, até quase cair morto. Ele não só tinha visões pavorosas do diabo, como este o aparecia, segundo ele mesmo relata, como mulheres nuas, como um clérigo, como o Papa, como Jesus, como a Virgem, etc. Quer dizer… sinceramente, o que isso parece? Pelo conjunto dos sinais que o definem como um vidente, inclusive a clarividência, decerto um probabilíssimo caso grave e persistente de possessão demoníaca.

Na Bíblia, há um caso onde pessoas apanharam do demônio (Atos 19:13-17). Se deu com exorcistas judeus que não tinham a menor porção de graça celestial para expulsá-lo do possesso. O que então dizer do Padre Pio que era torturado pelo diabo sem nenhum intermediário? Curioso que há relatos de que, em seus tempos como monge, Lutero padecia de suplícios similares. E a Igreja Romana brande isso como uma prova evidente da inspiração infernal da Reforma Protestante. Porém, quando se trata do monge de Pietrelcina, isso se torna um convite para nos maravilharmos da mortificação diária desse abençoadíssimo santo.

Os relatos da vida do Padre Pio são tão incríveis que incluem até a de um padre que o viu se transfigurar em Jesus enquanto tomava a confissão de um fiel. Ou seja, para um bom entendedor, parece que Padre Pio era até mesmo mais poderoso que Moisés e Elias juntos, que durante a histórica transfiguração de Cristo, mantiveram-se com a mesma aparência. Se isso parece uma ironia maldosa e mal fundamentada da minha parte, imagine que os demônios já disseram que ele era mais temido que São Miguel Arcanjo.

E as estigmas em seu corpo? Por acaso o leitor já pesquisou a história real do filme “O Exorcista”? Nela, o possesso, um menino luterano, chegou a ser marcado carnalmente com frases em seu corpo durante as crises de possessão. Essas frases também apareciam do nada. Agora, mude a forma dessas marcas e adicione uma dor excruciante. Qual é um dos resultados possíveis? Um estigma.

Sinceramente, o que é mais provável? Que um monge – cuja busca e realização de experiências místicas opunham a prudência e os aprendizados acumulados na milenar Philokalia monástica – era mais favorecido do que muitos profetas bíblicos, a despeito de ser dolorosamente assaltado pelo diabo por toda a sua vida, sem alívio? Ou que ele era flagelado horrivelmente porque subjugado e visionário porque enganado pelo Inimigo do gênero humano? Eu não sou tolo o bastante para deixar de reconhecer que os monges os quais deixaram esses ensinamentos contra os incidentes vividos pelo Padre Pio, merecem consideravelmente mais crédito que eu, o leitor, ou mesmo o próprio monge de Pietrelcina. Eles provavelmente não deixaram escrita a Philokalia, cuja tradição monástica remonta ao século IV, por mero acaso. Obviamente, eles possuem um certo know-how sobre essas coisas fantásticas.

Se todos esses fatos fossem exclusivos do Padre Pio… Mas ele desvela um certo padrão ascético da Igreja Romana, pois ele não é o único. São Francisco de Assis viveu as mesmas coisas, imprudentemente buscou as mesmas experiências místicas, bem como outros, não apenas os estigmatizados, o fizeram. Esse é um outro aspecto suspeito da Igreja Romana, pois embora muitos de seus santos pareçam imponentes, somos obrigados a ir devagar com o andor, porque eles são de barro.

A fidelidade romana à Tradição Apostólica

Um dos motivos pelos quais o Cardeal John Henry Newman trocou o Anglicanismo pelo Romanismo é a íntima ligação que a Igreja Romana possui para com a Tradição da Igreja. Ele ficou impressionado como muitos Pais da Igreja elogiavam ou convalidavam Roma, de modo que ele cunhou a expressão “aprofundar-se na História, é deixar de ser protestante”. Conforme Roma, a Reforma foi uma grande traição à Patrística e deveríamos com bastante humildade abraçar de boa fé a todas as suas doutrinas. Pelo menos é o que parece, até que você estuda a Patrística.

Embora a conversão de Newman tenha sido uma grande alegria para o mundo romano, ele mesmo percebeu que a ligação entre a Tradição e Roma não era assim tão íntima quanto parecia, afinal, a Igreja Romana adotou certas idéias e práticas que, digamos assim, se afastavam um pouco da Patrística. Como o pobre Newman escapou dessa? Ele criou uma tese chamada de “desenvolvimento da doutrina” cujo significado, descrevendo em bom português, é: “bem, a minha Igreja realmente muda com o tempo. Mas, veja, teologicamente, quanto mais ela muda, mais igual ela fica ao seu estado original. Logo ela não trai os ensinamentos dos primeiros cristãos.”.

É importante que o leitor tenha isso em mente quando se deparar com uma discussão tripartite entre um católico romano, um católico ortodoxo e um protestante. O protestante dirá: “mas isso não está na Bíblia!”; pelo que os católicos responderão: “a Bíblia é um dos componentes da Tradição, você o encontrará lá.” Então, o ortodoxo diz para o romano: “mas a Tradição não ensina isso!”; pelo que o romano responderá: “sim, mas ensinava implicitamente, em silêncio, de modo que o Magistério da minha Igreja, depois de pensar por vários séculos, finalmente entendeu o seu significado.”

Em outras palavras, tecnicamente, não há Bíblia, não há Tradição, nada que possa servir como um terreno teológico comum para a defesa das doutrinas romanas – a autoridade delas é auto-suficiente. Nesse espírito, observe, como exemplo, uma grande inovação da Igreja Romana, a idéia de supremacia papal. Sim, é verdade que o Papa sempre foi patristicamente considerado o bispo primaz, a referência, e o juiz ordinário de apelo de toda a Cristandade, em relação aos seus homólogos no bispado, num sentido similar a um senador presidente do Senado em relação aos seus homólogos no Parlamento. Porém, a idéia de supremacia papal, diferentemente do primado episcopal, implica não em uma liderança entre iguais, mas numa sujeição imperial. Porque, tal como um imperador, cujo poder é ilimitado para nomear, condenar e decretar, o Papa pode excomungar bispos, intervir em todas as igrejas, proclamar dogmas, e o seu poder de validar o bispado é exclusivo. É esse tipo de poder imperial que jamais foi conhecido pela Tradição, não até o advento do IV Concílio Ecumênico. Tal coisa só se pode justificar por uma idéia mirabolante de desenvolvimento doutrinal.

Curioso é que o Patricarca João IV, de Constantinopla, conforme a equivocada interpretação de seu conterrâneo, o Papa São Gregório Magno, almejou um poder ilimitado e universal sobre todas as Igrejas. Esse Papa reagiu e o condenou de pronto, dizendo que só um anticristo (sic) quereria chamar a si mesmo de Sacerdote dos Sacerdote (no caso, Patriarca Ecumênico)Claro que essa reação inusitada de Gregório, ainda que de um mal-entendido, coloca os romanos em uma situação desconfortável, pois essa mesma interpretação claramente define a moderna jurisdição universal do Papa, de modo que os católicos a defendem dessa forma: “Gregório disse que todos que o quiserem serão anticristos, menos ele mesmo.” – óbvio!

Para contemporizar, Gregório Magno denominou-se Servum Sevorum Dei. A ironia é que essa doutrina se desenvolveu, foi tornando-se cada vez mais “clara”, até que o papa Bonifácio VIII promulgou que, para a salvação, “toda a criatura humana deve sujeitar-se ao Romano Pontífice”. E o leitor ainda acha que a idéia de Zeus trovejando do Monte Olimpo foi superada pela cristianização da Europa? 

As aparições marianas

Uma outra forma de Roma se mostrar ao mundo de forma triunfante é por meio das aparições marianas. Os relatos dessas aparições da Virgem Maria são fantásticas, atraem multidões de peregrinos aos locais dos eventos e reavivam a fé de todo o povo. Também constrangem as gentes de outras religiões, pois com uma certa inveja, restam a elas contemplar esses dons extraordinários que parecem ser exclusivos dos católicos romanos. Pelo menos é o que parece, até que você toma conhecimento dos detalhes de cada história.

A Aparição da Virgem Maria de Fátima talvez seja a mais emblemática. Desde as exortações sobre participar dos sacramentos e adorar a Eucaristia; das profecias sobre o fim da I Guerra Mundial, a ascensão do Comunismo russo, a II Guerra Mundial e a aurora bureal que a precedeu, até o grande milagre do Sol e a aparição da Sagrada Família; tudo é maravilhoso e incrível. Até que você descobre que grande parte desses relatos são uma nova versão não autorizada de um dos videntes, Lúcia; que foi redigida vários anos após os eventos profetizados e com a assistência de um certo número de clérigos eruditos; e com um teor totalmente diferente dos depoimentos que os investigadores tomaram dos videntes à época dos fatos. São apresentados lindos ícones e estátuas da Virgem de Fátima, quando, na verdade, os depoentes afirmaram que, nas primeiras aparições, Maria era uma adolescente de 15 anos, com uma saia que descia indecentemente até os joelhos e possuía uma altura calculada em aproximadamente 1,10m. Não haviam referências à Rússia, nem à penitência, e nada mais que pudesse indicar uma aparição catolicizada, com a exceção do Rosário. E havia apenas um segredo e não três. Como se não bastasse, os videntes profetizaram falsamente, pois clamaram que a guerra terminaria no último dia da aparição de Fátima, e os soldados portugueses voltariam para casa. Ela terminou muitos meses depois, não sem que Portugal sofresse uma catrástrofe militar na Batalha de Lys – e essa informação inconveniente foi uma das que foram mudadas na nova versão. Enfim, nada tão belo quanto parece. Na verdade, considerando os depoimentos originais, o que se percebe é a semelhança entre a aparição relatada pelos videntes com as relatadas pela seita dos fatimidas, um antigo ramo gnóstico do islamismo que se espalhou pela Península Ibérica, incluindo Fátima, séculos antes.

Outro caso é a Virgem de La Salette. Enquanto a profecia de La Salette em seus dois primeiros segredos proclamava a punição dos pecadores que, com os seus poderes seculares haviam se levantado contra a Igreja Romana e sacudido o jugo do Papa, tudo bem. Mas bastou um dos videntes, Melánie, publicar um terceiro segredo, atacando ferozmente a Igreja Romana e acusando os seus clérigos de serem “cloacas de impureza” e ameaçá-los de cataclismos, que o Papa o colocou no Index Prohibitorum.

Agora, considere que esse terceiro segredo seja uma falsa profecia. Isso mostra um certo padrão da Igreja Romana em ser notoriamente tolerante aos seus falsos profetas, pois nenhum desses videntes foi excomungado ou declarado anátema por ela, apesar da lei civil veterotestamentária prever a pena capital para quem proclamar uma só falsa profecia. Roma sequer colocou as outras profecias em suspeição, apesar do estranhíssimo fato de que muitos desses profetas são mulheres e crianças, analfabetas, e que não possuem autoridade teológica para pregar à toda Igreja universal (1 Timóteo 2:11-12).

A impressão que fica de todas essas coisas duvidosas, é que, ao menos desde a Reforma Protestante, qualquer iluminado, até mesmo um falso profeta de fato, pode falar qualquer absurdo na Igreja Romana que ela aprovará e manterá o que lhe convém, desde que o episcopado, especialmente o Papa, não sejam postos em causa.

Conclusão

É por isso que existe um hiato entre o que a Igreja Romana ensina e a espiritualidade que ela inspira. Ela não estima a Tradição no grau que outras Igrejas o fazem. Ela não é prudente o bastante para coibir os seus visionários, embora o risco altíssimo de influência demoníaca – isso quando ela não aumenta os clamores deles. Ela atribui outros significados aos ensinamentos dos antigos padres. Alguns de seus ensinos possuem significados implícitos profundamente controversos, etc. Enfim, ela possui muita coisa que só aparece depois de um estudo longo e minucioso.

Nota

i. Os mesmos incidentes de agressões físicas oriundas de manifestações demoníacas ocorriam ao Santo Cura d’Ars.

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