Eu, (Quase) Um Católico Romano…

Minha quase ida à fé católica
Alguns leitores do meu Blog já perceberam o quanto o tom dos meus artigos têm cada vez mais se aproximado de um discurso de um quase converso à fé católica. Sinceramente, essa impressão era compartilhada primeiramente e principalmente por mim. Eu percorri um longo caminho por várias linhas religiosas dentro do nosso atual Cristianismo dividido e confuso e, talvez, provavelmente por eu habitar no Ocidente e não ao Leste da Europa, sempre, nos meus estudos, me deparava com Roma. Ainda é possível, nesses tempos de profunda crise religiosa, aprender muito sobre a doutrina romana clássica, i.e., a doutrina pré-conciliar (ref. ao Concilio Vaticano II). E não importava aonde eu fosse, todos os caminhos me levavam a Roma pré-conciliar.

Depois que eu finalmente recebi o privilégio de aprender não só uma pequena porção das verdades concernentes ao nosso divino Senhor Jesus, mas também das de Sua Santa Mãe, sair das doutrinas formais da Igreja Romana para adotar também a sua espiritualidade e devoções diárias como a minha religião, era um passo lógico que estava adiante de mim a um palmo da minha fronte. Contudo, infelizmente, percebi que uma coisa são as doutrinas formais que a Roma pré-conciliar ensina. Outra, muito diferente, é a espiritualidade que ela inspira.

A espiritualidade romana

A Igreja Ortodoxa, sem dúvida Apostólica e Santa, sempre acusou Roma de inovar na fé. E essas preocupações expressadas por ela – iniciadas quando o Papa Vitor I ameaçou criar um cisma contra o bispado oriental no século II, aumentaram com o passar dos séculos. O fato é que ela tem razão nessas preocupações. A Igreja Romana inova muito e uma grande parte dessas inovações podem ser rastreadas no tipo de espiritualidade que ela inspira.

O depósito da fé é, inquestionavelmente, a Tradição Apostólica da Igreja, onde encontram-se inclusas as Escrituras Sagradas. Ocorre que, no seio da Igreja Ortodoxa, a Tradição é um fato histórico. Porém, na Igreja Romana, a Tradição é um órgão em vívida atividade. Sendo a Tradição um fato histórico, nada se pode acrescentar ou diminuir dos fundamentos apostólicos. Contudo, se a Tradição é algo vivo, ela pode sofrer alterações substanciais, desde que ela não chegue a negar a si mesma, considerando que em ambas as visões, romana e ortodoxa, ela é divina e Deus não pode contradizer-Se.

O Papa Pio XII deixa essa visão romana de tradição muito clara quando condena uma heresia a qual ele denomina “arqueologismo”. O termo é uma crítica à resistência expressada pelo Sínodo de Pistóia à liturgia latina de seu tempo a qual recebeu de Roma acréscimos oriundos da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que, por sua vez, foi estabelecida por meio de uma revelação privada. O Sínodo, entre diversas outras teses condenadas, instava o fim dessa inovação pela restauração da antiga liturgia gaulesa, uma legítima tradição religiosa e histórica praticada pelo cristianismo latino. E Pio XII, recordando esse fato, reiterou que a Igreja deve obediência aos seus pastores, ainda que mudem certas tradições, pois contam com a autoridade e iluminação do Espírito Santo. 
 
Eis aqui um ponto de discórdia entre a Igreja Romana e a Ortodoxa cujas implicações afetam uma grande parte dos ensinamentos de Roma: ela, Roma, arvora o direito de mudar, revogar e inovar as tradições e os costumes, segundo a sua própria visão de Tradição viva, considerando-se tacitamente autorizada a isso por Deus. A Igreja Ortodoxa, por outro lado, ensina que se há uma lícita autorização, ela deve ser explícita e constar na Tradição. E Roma age dessa forma muitas vezes encorajada apenas por revelações privadas. Esse é o problema da espiritualidade romana, pois caracteriza uma atitude relativamente temerária, para dizer o mínimo, uma vez que se encontram em jogo os fundamentos apostólicos da Tradição, os quais são presumidos a serem estáveis e eternos.

Para dar exemplos dessa espiritualidade intrigante, considere que a Igreja Romana proíbe a ordenação de mulheres ao sacerdócio. E, decerto, ela faz muito bem em obstar. O curioso, porém, é que, historicamente, muitas dessas revelações privadas foram dadas por mulheres, adolescentes e até crianças, contradizendo o bom senso teológico de que certas verdades divinais devem ser proclamadas por pessoas experientes na fé, homens, preferencialmente – mas não exclusivamente – do clero. De modo que, embora as mulheres e as crianças, em tese, não possam ministrar os sacramentos, na Igreja Romana, elas fazem muito, mas muito mais do que isso. Por meio de suas revelações privadas, elas mandam construir capelas e consagrar nações; dizem ao Papa aonde e quando ele deve exercer a sua autoridade; comandam exércitos inteiros; estabelecem novos meios não sacramentais de salvaçãoproclamam uma intrincada doutrina escatológica; instam publicamente o mundo à penitência com ameaçando-o com cataclismos iminentes, etc. Ainda que existam, nas Escrituras Sacras, a juíza israelita Débora e o infante sacerdote Samuel, não se altera o fato de que tais ocorrências bíblicas foram exceções notáveis, sob um contexto profundamente adverso, raríssimas em diversos séculos de história, e de curto e efêmero alcance. Na Igreja Romana, em óbvio contraste, tais ocorrências são estranhamente numerosas, recorrentes, implicam em mudanças geopolíticas dramáticas e efetivamente afetam muitos campos de estudo da Teologia. 

O exposto não se restringe às mulheres e às crianças. Muitos homens católicos, considerados santos, também o fizeram. Contudo, isso demonstra como o desapego romano à Tradição histórica pode produzir mudanças dramáticas, muito além do que qualquer noção peculiarmente sua de desenvolvimento da doutrina o pode justificar. Porque uma era a Igreja Latina no primeiro milênio. Uma outra, no segundo. Uma foi a Igreja no período pré-Trento. Uma outra, no pós-Trento. Uma foi a Igreja pré-conciliar. Uma outra, no pós-concílio. Essa instabilidade típica do Cristianismo ocidental (no Protestantismo, ela é incomparavelmente pior) é, no caso da Igreja Romana, justificada pelo fato de que somente um pequeno bojo de dogmas definidos infalivelmente de fato representa a fé católica. Tudo o mais que está além desse bojo, i.e., as revelações privadas, as mudanças litúrgicas e certas concepções teológicas, são relegadas à liberdade do cristão em aceitá-las ou não em conformidade aos dogmas oficiais. 
 
Mas sendo o episcopado o corpo autorizado para defender e espalhar o depósito da fé, e considerando que os bispos romanos ou se omitem a condenar essas inovações ou as incentivam, é muito difícil, comparando a dramaticidade dessas mudanças ocidentais com a sua contraparte oriental, não reputar essa justificativa como uma tergiversação, uma mera racionalização ex post facto. Ela também não explica porque esse desenvolvimento é tão característico do Cristianismo ocidental, já que a Ortodoxia lida muito bem com uma tradição estável, ou mesmo porque a Igreja poderia operar tais mudanças em primeiro lugar.

O chamado de Fátima
 
A ironia dessa minha curta aproximação à Igreja Romana se deu por ocasião de um melhor entendimento meu dos eventos extraordinários que ocorreram em Fátima, Portugal, em 1917. Olhando superficialmente os relatos de Fátima, sem considerar as suspeitas – muitas das quais vindos do próprio seio romano, a saber: relatos de que os três segredos foram intencionalmente fraudados ou ocultados em parte ou no todo, incluíndo uma terrível conspiração – se vê uma maravilhosa e irresistível (para mim inclusive, por curto um tempo) confirmação da fé católica romana. Porém, tal como num contrato dolosamente redigido, onde os vícios se encontram nas minúcias das letras miúdas, Fátima possui algumas sutilezas que incomodam. Entre essas sutilezas, temos os videntes, todos eles crianças iletradas que, de maneira alguma, no estado em que se encontravam, poderiam ensinar à Igreja com autoridade. Uma outra, a auto-mutilação que os videntes praticavam sob a aprovação de Fátima. Se já é um escândalo que crianças se mortifiquem dessa forma por qualquer motivo, quanto mais pretender que tais atos ignominiosos substituam a reparação oferecida pelo arrependimento e a penitência sacramental dos pecadores! E por último, o Rosário. Não há de errado com as orações do Rosário em si mesmas. O problema do Rosário não está no seu teor, mas no que ele significa dentro da profecia de Fátima: um meio efetivo de salvação pela sua repetição oral à parte dos sacramentos. Isso sem mencionar a origem da palavra Rosário, também de uma revelação privada, e o seu significado controverso. É notável como tem sido esse um monótono padrão dos visionários católicos do passado.
 
O pior desses relatos, contudo, é o que eles não relatam. A Igreja, de fato, foi fustigada com martírios, pelas mãos de comunistas russos, em conforme (aparentemente) à profecia – o que não a abona, pois os relatos oficiais foram publicados em 1941depois dos eventos supostamente profetizados. Porém, olhando mais detidamente o Terceiro Segredo, logo se vê que ele se refere aos acontecimentos que precedem imediatamente o surgimento do Grande Monarca Católico e do Papa Angélico – do contrário, as outras profecias católicas são injustificadamente ignoradas apesar de sua similitude. I.e., para um bom entendedor, o que dizer, sob o prisma de Fátima, da Igreja Ortodoxa Russa, a qual foi, de longe, a mais honrada com a coroa do martírio? Nada. Eles são apenas “cismáticos” que um dia serão convertidos à força por esse Monarca sob as bençãos de um futuro Papa – uma outra profecia privada, desta vez do vidente Bartholomew Holzhauser, o Venerável. O que dizer da Rússia, nesse mesmo contexto, cuja subjugação ao comunismo foi operada não por russos, mas por minorias étnicas do Império Russo, especialmente os judeus? Nada. A profecia não os distingue, como o nosso augusto Senhor o faz com as Suas próprias profecias, elogiando ou repreendendo de forma clara e inequívoca as sete igrejas listadas no início do livro da Revelação de São João Apóstolo, inclusive citando os fiéis delas pelo nome. Cristo, no mesmo Livro, até citou os judeus que instigavam o Império Romano a tentar os cristãos a oferecer sacrifícios idólatras a Nero César, chamando-os de “Sinagoga de Satanás”.  

Essa omissão é justa? Eu realmente não creio. Por isso, a mesma Fátima que me aproximou da fé católica romana, me afastou dela. Sinceramente, o Protestantismo possui graves defeitos; mas a sua fé simples, sem subterfúgios racionalistas, e seus cultos despojados são bastante atraentes. Contudo, agradeço a Deus que, me privando provisoriamente da fé protestante, ao menos me compensou, apresentando-me uma Santa Mãe amantíssima para me enriquecer ainda mais além do carinho dos meus pais. É curioso notar que os reformadores, especialmente Lutero, a amavam; e, ironicamente, os incautos e indignos pastores de hoje desconhecem ou ignoram esse fato. Lamentável, para eles. 
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