O Autor da Epístola aos Hebreus

Citando Clemente de Alexandria, Eusébio de Cesaréia informa que a Epístola anônima aos Hebreus foi “escrita por Paulo aos hebreus na língua hebraica; mas que fora cuidadosamente traduzida por Lucas e publicada entre os gregos. Por isso, também, encontra-se o mesmo caráter de estilo de fraseologia na epístola e em Atos. ‘Mas é provável que o título, o apóstolo Paulo não tenha sido prefixado a ela. Pois quando escreveu aos hebreus, que haviam assimilado preconceitos contra ele e dele suspeitavam, teve a sabedoria de evitar que se distraíssem no estudo, fazendo constar o seu nome’.” [i]

Esses preconceitos citados por Clemente decorriam das calúnias que São Paulo sofria da parte dos israelitas, que o acusavam falsamente de ensinar doutrinas contra a lei mosaica (At 21:22-28). Isso explica o porquê de São Paulo não apor o seu nome na Epístola: os israelitas o reputavam como um traidor de Israel e o ensinamento dele acerca do fim do sacerdócio levítico em prol do sacerdócio de Melquisedeque (Hb 7:11-19), do qual o nosso Senhor Jesus pertence, seria mais um fator a reforçar essa impressão. São Paulo, identificando-se, poderia dar ocasião para que os seus opositores simplesmente descartassem a sua Epístola.

Um dado importante é que São Paulo escreveu a sua Epístola durante o governo de Nero [ii]. E um outro dado é fato de que dentro dos limites de Israel, a Igreja sofria tribulações das mãos de hebreus incrédulos (Hb 10:32-34) [iii], sendo o próprio Apóstolo São Paulo um ex-perseguidor da fé cristã nascente. Por meio desses dados, podemos inferir que a Epístola paulina foi escrita por São Paulo em Roma, onde ele foi martirizado pelo Anticristo Nero algum tempo depois, para a Comunidade israelita-cristã de Israel e na Diáspora (Hb 13:24).

As objeções à autoria paulina da Epístola aos Hebreus e as suas refutações

A primeira objeção, a mais sólida de todas, diz respeito à evidente diferença de estilo entre as Epístolas em grego de São Paulo e o grego constante na Epístola aos Hebreus. Como apresentado, isso é facilmente explicado pelo fato da Epístola não ser o manuscrito original escrito por São Paulo, mas, sim, a sua tradução autorizada – i.e., divinamente inspirada tal como a Septuaginta [iv] – por parte de um terceiro, um tradutor confiável e com livre transito entre os apóstolos: São Lucas, o autor do livro inspirado de Atos.

A segunda objeção é fundamentada no trecho de Hebreus 2:3, onde o autor da Epístola se coloca entre os cristãos que viram confirmadas as doutrinas apostólicas pelos seus mensageiros. Ou seja, esse cristão, o autor da Epístola, supostamente não estaria entre esses mensageiros apostólicos; mas, seria apenas um cristão ordinário, porém muito erudito e testemunha ocular das obras miraculosas de terceiros. Não estando entre os Apóstolos, ele não pode ser São Paulo.

A objeção acima é uma típica falácia da falsa dicotomia. Se o autor da Epístola colocou-se dessa forma, não quer dizer que ele mesmo não era um Apóstolos. Isso pode ser explicado pela conhecida modéstia do autor paulino ou, então, porque ele quis homenagear os seus homólogos de ministério. De fato, o Apóstolo São Paulo não era o único capaz de proceder sinais e maravilhas. Dezenas de cristãos tinham essa prerrogativa na época, de modo que se o Apóstolo salienta esse fato, de maneira alguma ele falta com a verdade.

Notas

[i] Eusébio de Cesaréia, “História Eclesiástica”, Livro VI, Cap. XIV.

[ii] Pouco depois de sua carta aos Romanos, cf. o Concílio Hippo Regius, século IV.

[iii] Eusébio de Cesaréia, “História Eclesiástica”, Livro II, Cap. II.

[iv] Só a Epístola aos Hebreus cita a LXX 36 vezes, indicando: (a) a sua confiabilidade; e (b) o seu amplo trânsito na comunidade israelita dentro e fora do Israel Antigo, o que contraria a idéia de que o Texto Massorético foi o Antigo Testamento preservado na Palestina.

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