A Virgindade Perpétua de Maria

A Virgem Maria, a mais bendita entre as mulheres, manteve-se virgem, antes, durante e após o nascimento de seu Filho, o nosso Senhor Jesus. A Virgindade de Maria é um dos aspectos mais salientes e conhecidos pela Tradição da Igreja, de tal forma que mesmo os reformadores protestantes, como Calvino, Lutero e Zwingli jamais negaram esse fato. Antes, eles o abraçaram de boa fé, e a veneraram como a Theotokos.

A Virgem foi dada muito jovem, aos doze anos, a São José por sorteio. São José, o pai adotivo de nosso Senhor, era, até então, um homem viúvo, com filhos [1] e muito idoso. Embora sobrenaturalmente sorteado para desposar a Virgem Maria, ele a quis recusar, pois ela era menina e ele, de idade muito avançada. Contudo, ele foi convencido a fazê-lo por Zacarias, o sumo sacerdote da época, pois era evidente que Deus a guardava e a abençoava. São José temeu a Deus e a desposou [2], sem jamais, nem antes e nem depois, tê-la tocado [3].

A realidade da Virgindade Perpétua de Maria

Alguns obstam o fato de Maria ter se mantido virgem após o seu matrimônio com base em Mateus 1:25, o qual diz:

E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome JESUS.

Sem dúvida nenhuma o termo ἕως οὗ (éos oú, “até que”), é frequentemente utilizado nas Escrituras para indicar mudança de um estado para outro, como exemplo: Mt 17:9, Lc 12:50, At 21:26, etc. Mas isso nem sempre ocorre. Algumas vezes, nas Escrituras, o mesmo termo éos oú, é utilizado para enfatizar uma continuidade, como exemplo: 2Pe 2:19 e Ap 6:11. Em ambas as referências mencionadas, onde o termo em disputa está constado, a perpetuidade de um estado é enfatizado e encorajado.

Dado que a Virgindade Perpétua de Maria é uma crença indisputavelmente majoritária em todos os tempos por toda parte, éos oú, em Mateus 1:25, deve ser interpretado como um convite para admirarmos o milagre da concepção do nosso Senhor Jesus, apesar do fato de que, tanto no momento de Sua conceição quanto de Seu nascimento, São José não a conheceu, ou seja, ele não a tocou.

Portanto, o trecho evangélico está tão somente enfatizando o milagre virginal de Cristo, sem qualquer participação humana. E sem mais. 

Cristo, o Primogênito e o Único Filho da Virgem Maria

Outros obstam à virgindade da Theotokos, porque, supostamente, o nosso Senhor teria irmãos consanguíneos da parte materna, conforme Mateus 13:55-56, que diz:

Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas? E não estão entre nós todas as suas irmãs? De onde lhe veio, pois, tudo isto?

O nosso Senhor viveu com os filhos de São José [1], e eles foram de Seu convívio pessoal. Não há dúvidas quanto a isso. Contudo, os parentes em Israel chamavam-se uns aos outros de “irmãos”, como se pode ver através do exemplo de Ló que, apesar de sobrinho de Abraão, foi chamado pelo seu tio de “irmão” [4]. Na verdade, o termo ἀδελφός (adelfos, “irmão”), constante no trecho em epígrafe, é tão elástico que é usado para designar a comunhão católica entre os membros da Igreja de Cristo, como exemplo: Hb 10:19 e Tg 1:16. Em outras palavras, a generalidade do termo não implica de forma alguma em consanguinidade.

O mencionado acima explica o porquê de Cristo recomendar a Virgem Maria aos cuidados do Apóstolo São João. Porque ela não tinha parentes masculinos para ampará-la (Jo 19:26-27, Rt 1:1-18, Lc 7:11-15). E em homenagem e respeito à Sua Mãe, Cristo remeteu essa incumbência ao Seu discípulo o qual zelou pela Santíssima Virgem até a sua morte dela nas cercanias de Éfeso, onde São João costumava ficar [5]. 

A Castidade de São José

Por fim, outros obstam à Virgem porque sua castidade perpétua violaria os deveres matrimoniais de uma esposa para com seu marido, conforme 1 Co 7:3, onde se lê:

O marido pague à mulher a devida benevolência, e da mesma sorte a mulher ao marido. 

De fato, sem sombra de dúvida, os cônjuges possuem deveres sexuais para com os seus respectivos consortes. Porém, um cônjuge e o seu consorte possuem o direito de se manterem castos, se de comum acordo (1 Co 7:5). Ademais, São José era muito idoso e, naturalmente, o vigor e o desejo são esmorecidos pela idade (1 Rs 1:1-4, Rm 4:19). Logo, a castidade voluntária do Sagrado Casal não violou nenhum dever. 

Mas há algo a se dizer além dessa abnegação. O matrimônio vence a morte. E sendo São José um viúvo, o seu corpo está ligado para sempre ao de sua primeira esposa, e não ao de Virgem Maria. E havendo a ressurreição dos mortos e a restauração dos corpos carnais dos eleitos, haverá a restauração dos relacionamentos conjugais. Por isso, diante desse fato, grande foi a misericórdia de Deus sobre o Sagrado Casal, que não o deixou consumar esse matrimônio pelo sexo, de modo a causar algum prejuízo à consorte falecida de São José no tempo futuro da ressurreição geral dos santos.

A Santíssima Virgem Maria e a veneração devida

Inquestionavelmente, a Virgem merece nossa veneração por ser a Theotokos. A nenhuma das criaturas viventes foi dado conceber o Deus Vivo em carne, com exceção de Maria. A nenhuma entre elas foi dado o privilégio de compartilhar filialmente com Cristo pela carne e pelo sangue, com exceção da Virgem. Todos somos adelfos de Cristo por adoção. Porém, a Santíssima Virgem, o é por direito consanguíneo, já que Cristo deve honrar a Sua Mãe por toda a eternidade, conforme o Decálogo.

Assim, a Santíssima Virgem Maria recebeu uma honra singular tal que a torna maior do que os santos, os anjos e os querubins criados. Indubitavelmente é legítimo e lógico venerar a Santa Virgem como a maior e a mais honrada entre as criaturas viventes chamadas à existência pela Santíssima Trindade.

Notas

[1] Os filhos de São José eram Judas (não o traidor Iscariotes), Justus, Tiago e Simão, todos de seu primeiro casamento (Mt 13:55). E as suas filhas eram Assia e Lídia.

[2] O miraculoso nascimento da Virgem Maria de pais até então estéreis, a sua consagração ao Templo de Jerusalém, o seu crescimento, o seu noivado com São José, o nascimento de Cristo, a tribulação sofrida pela Sagrada Família que fora perseguida por Herodes, o Grande – resultando, inclusive no martírio do justo e sumo sacerdote Zacarias – são temas tratados pelo protoevangelho de Tiago.

[3] Cf. o apócrifo “a História de José, o Carpinteiro”.

[4] Gênesis 13:8 cf. a LXX em grego.

[5] Cf. constante na resolução do Concílio de Éfeso, século V.

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