DEBATE: Olavo X Dugin – 4a. Réplica do Olavo

Leia a postagem anterior.

Olavo publicou uma extensa quarta réplica a Dugin, motivo pelo qual ela não será sumarizada como de costume nas postagens anteriores.

A réplica, como já mencionado, é bastante prolífica e carregada de ironias, próprias de um estilo de retórica deliberado e consciente por parte de seu autor. Contudo, para nos utilizarmos de uma alegoria, essa réplica é como a aparência da estátua bíblica que representava o Império Romano no Livro de Daniel: imponente e feroz, mas com os pés de barro.

Quando, num debate, um debatedor concorda com o seu oponente nos termos fundamentais propostos pelo último, isso implica que o primeiro não tem, de fato, um ponto legítimo para mostrar (a estátua). Nessas condições, ele, o primeiro debatedor citado, tem a opção de concordar explicitamente com o seu oponente. Ou, para não concordar e manter a refrega, ele pode encenar um estilo de retórica que oculte esse fato (os pés de barro). A segunda opção, infelizmente, é o caso da réplica de Olavo a qual não poderia ser diferente, uma vez que nas rodadas anteriores, ele utilizou-se desta mesma retórica beligerante.

Como visto na postagem da terceira réplica de Dugin, este último rebateu o seu oponente, Olavo, por meio de dois pontos fundamentais: (a) Olavo não é uma pessoa neutra como o próprio aclama ser; e (b) a dialética de Olavo é inadequada para descrever, filosoficamente, os temas em disputa. E Olavo, na verdade, não refutou nenhum dos dois pontos. Antes, concordou com eles, embora tenha ocultado a sua confissão de concórdia na excessiva prolificidade de sua réplica.

Olavo não é neutro e o próprio o diz na sub-seção “6” de sua réplica. Porém, as diferenças destacadas por Olavo em relação à acusação de Dugin, são: (1) Olavo está engajado em favor de seus pressupostos políticos em determinado grau, já que nem tudo o que ele faz é política; (2) a suposta neutralidade de Olavo não é a simples abstenção de optar por um dos temas em disputa; mas, sim, optar por uma terceira via. Logo, Olavo possui uma visão política própria nessa refrega, o que é muito natural, afinal ele é um dos lados no debate. Porém isso conflita com a sua identificação de mero observador político nos termos em que ele atribuiu para si mesmo. Porque, considerando que o papel do observador político é o de tentar entender os pontos em disputa, seus meios, seus fins e as implicações, conforme as palavras empregadas por Olavo, o fato é que ele não tenta entendê-los. Ele já optou por uma terceira via que, embora apolítica e religiosa, existe e está em seus pensamentos. Com isso em mente, ele, naturalmente, não só expõe a sua visão no teor da réplica, como condena Dugin pela visão dele, usando-se de adjetivos claramente parciais. Por isso, Olavo refuta a sua própria pretensão de neutralidade, embora queira escapar desse fato propondo ser ela algo segundo a própria arbitrariedade dele.

Na subseção “20” de sua réplica, Olavo abarca o problema levantado por Dugin: a de que a dialética utilizada pelo primeiro é inadequada filosoficamente, porque não descreve de forma abstrata e universal os temas tratados por ele. Olavo o admite claramente, embora apresente uma justificativa fútil  para isso.

A descrição de Olavo para a sua dialética, depende da correlação entre realidade e conceito. E o conceito, por conseguinte, depende de ferramentas empíricas para a sua precisa expressão. Dugin nega que exista algo teórico a qual se possa chamar de “realidade” em termos inequívocos, abstratos e universais, ou seja, em termos filosóficos. Olavo o admite, reconhecendo que a palavra realidade, de fato, é uma construção latina. Porém, ele o faz embrenhando-se em futilidades. Pois ele, futilmente, diz que só porque a palavra não é universal, não quer dizer que o conceito não exista expresso de outra forma nas culturas que não a utilizam para compreendê-lo. Ocorre que não foi essa a objeção levantada por Dugin, por isso a futilidade. Dugin lembra que a Filosofia requer que as proposições lógicas de um sistema de idéias sejam descritos em termos filosóficos. Não que isso invalide algumas ou todas as descrições de Olavo. Na verdade, Dugin concorda com muitas delas, embora zombe de outras, classificando-as de “teorias da conspiração”. Contudo, Dugin quer dizer que Olavo, clamando ser um filósofo e autor de uma tese original de Filosofia (o seu estudo sobre os movimentos revolucionários) não pode usar termos que dependem de amplo contexto para descrever as suas idéias filosóficas.

Para piorar a sua situação, cabe lembrar que Dugin acusa Olavo de ser positivista. Olavo não só não apresentou refutação a esse ataque, como o admitiu francamente, quando diz usar o método científico para descrever as suas idéias. Ocorre que, embora seja utilizado o método científico como uma ferramenta da Filosofia, a indução não dispensa a prova por dedução lógica. Ademais, a indução é limitada a um determinado domínio, impedindo a abrangente abstração da idéia inferida. Logo, Olavo não tem o direito de dizer que suas induções são inequívocas. Por esses motivos, Olavo refutou a sua própria pretensão de ser universalmente válida a sua dialética.

Esse debate, portanto, está claramente terminado com a concórdia de Olavo a Dugin.

Outras auto-refutações de Olavo

Olavo menciona, na subseção “40”, que o Consórcio se alojou no governo americano e nos outros países ocidentais. Como visto na postagem anterior, não se pode dizer que um governo atua contra os interesses da nação, quando de jure ele a representa. Se um governo, de direito, atua em prol do globalismo, ele o faz em favor dos interesses da nação que o elegeu. Se Olavo concorda com Dugin quando o último diz que o Consórcio utiliza-se das estruturas políticas do Ocidente para os seus fins, então o primeiro não tem nenhum ponto para atenuar a responsabilidade dos EUA como um todo. Porque (a) a nação americana tornou-se responsável pela porção que cabe àquele País nos efeitos do globalismo, em função de seus direitos eleitorais; e (b) é a nação americana, e não Olavo, quem  decide por meio do voto quais são os seus interesses nacionais.

Olavo supreendentemente admitiu, na subseção “54”, coisa que ele nunca fez antes, que o Consórcio e a Revolução Bolchevique tiveram raízes judaicas. Se ele o admitiu porque acossado por Dugin, isso é um sinal de sua má-fé, embora, talvez, a sua admissão jamais venha a ser aclarada. O fato é que reconhecendo o caráter judaico das instituições que ele estuda, isso vai de encontro  a todos os teoremas filosóficos que o próprio Olavo deduz a partir do milenarismo cristão, e não do judaico como seria o correto e compatível com o entendimento daqueles que testemunharam e viveram essas coisas.

No mais, Olavo apenas divagou. Seguem-se sem respostas, contudo, as questões propostas a Dugin na postagem anterior. Inclusive, e principalmente, se Dugin está ciente do potencial risco de destruição da raça indo-européia numa futura conflagração ocidental contra a Rússia. No ponto em que Olavo acusa Dugin de relativizar o genocídio sino-soviético, ele de fato trouxe uma questão que é preocupante e merece maiores esclarecimentos por parte deste último.

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