DEBATE: Olavo X Dugin – 3a. Réplica do Dugin

Leia o post anterior.

Dugin acaba de publicar a sua terceira réplica a Olavo. Segue um rápido resumo:

Resumo da réplica

a. Dugin lamenta os ataques histriônicos e generalizados de Olavo. Ele esperava um debate civilizado e de enriquecimento intelectual mútuo; ele surpreendentemente não o encontrou e, por isso, considera vã a refrega com o seu oponente.

b. Dugin  nega que Olavo seja um observador neutro. Não existe neutralidade no reino do pensamento, afinal, todos possuem pressupostos e preconceitos pessoais. E Olavo, como um ser humano, não foge a essa regra.

c. Dugin considera absurda a ligação feita por Olavo entre o Eurasianismo e o Comunismo e a condenação peremptória desse último a ambos os movimentos políticos. Esse seria um exemplo da falsa neutralidade de seu oponente. Dugin, mesmo não sendo pessoalmente neutro, ao contrário de Olavo, ao menos não rejeita interpretações políticas alternativas com base em meros pontos de vista concretos.

d. Dugin ironiza Olavo. Tal como Olavo insinuou que Dugin é desonesto, não em sua pessoa, mas porque seu ativismo político o obriga a sê-lo; Dugin insinua que Olavo é estúpido, não em sua pessoa, mas porque o seu dualismo moral e global o obriga a sê-lo.

e. Em sua segunda réplica, Olavo havia dito que o Consórcio quer o socialismo, muito embora, claramente, o conceito de socialismo esteja em contradição lógica com os desejos deste último. Olavo havia justificado a sua afirmação contradizente, dizendo que os conceitos, como o socialismo, são apenas abstrações imprecisas da realidade. Dugin o ataca justamente neste ponto: a própria noção de realidade como coisa à parte do conceito, é algo exclusivamente latino e pós-medieval. Nem Aristóteles, do qual Olavo se diz seguidor, e nem as demais culturas não-latinas a reconhecem. Assim, elas veem as justificativas de Olavo como contradições de fato e, por isso, meras firulas.

f. Dugin afirma que as relações entre o conceito e a realidade propostas por Olavo são essencialmente positivistas e são refutadas pelo estruturalismo.

g.  Dugin afirma que Olavo odeia tudo o que ele ama. O ódio é perfeitamente legítimo; mas Dugin, ao contrário de Olavo, quando ama o seu objeto, o Leste, o ama incondicionalmente. Olavo, por outro lado, ama hipocritamente o Ocidente; pois dele, Olavo rejeita uma parte. E isso não é amor de verdade.

h. Para justificar a sua hipocrisia, Olavo procura diferenciar o Ocidente que ele ama do Ocidente que ele odeia. Por isso, segundo Dugin, Olavo direciona o seu ódio ao Consórcio. Mas, o que Olavo omite, é que o Consórcio foi concebido nos valores ocidentais, os seus fundadores foram ocidentais, ele faz uso de estruturas ocidentais, e a sua base militar e estratégica é, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a Aliança Atlântica do Norte.

i. Dugin afirma que a acusação de Olavo no qual o Eurasianismo seria uma vertente do Consórcio, é uma ridícula teoria da conspiração puramente pessoal e não merece considerações.

j. O melhor do povo americano ao qual Olavo ama, os paleoconservatives, perderam o próprio país. Quem o afirma não é Dugin, mas Pat Buchanan, o maior entre eles. E essa queda não se deu por conspirações; mas, sim, pela própria natureza escapista e individualista do Cristianismo ocidental. Por isso, o Cristianismo ocidental, não é uma opção viável ao Eurasianismo, porque é ele quem conduz ao secularismo em primeiro lugar.

k. Dugin nota como é curioso que Olavo apoie Israel e o sionismo, sendo que os banqueiros judeus constituem a principal parte da conspiração do Consórcio. Porque Olavo omitiu esse fato é um mistério.

Comentários

Olavo definitivamente estorvou o debate. Desde a sua primeira intervenção, notamos que o temperamento de Olavo é assaz incivilizado e nos surpreendemos que Dugin não tenha, já em sua segunda réplica, elevado o tom na mesma proporção ou mesmo comunicado a sua desistência. E mais: pela surpresa que Dugin manifestou agora, podemos concluir que os temores de Olavo nas supostas perseguições do governo russo à sua pessoa não eram apenas infundadas. Mas delirantes, uma vez que Dugin, decerto, desconhecia previamente o caráter de seu oponente. Isso definitivamente indica que a costumeira indisposição de Olavo com os seus próprios colaboradores se deve à sua peculiar idiossincrasia e não às circunstâncias impostas pelos demais. Se os delírios originaram-se de seus trabalhos jornalísticos, se foram marcados por eles ou ambos, não nos compete julgar. Porém, definitivamente, pessoas delirantes são particularmente atraídas por idéias de controle universal por entidades ocultas, fatos que alimentam as fantasias, legítimas ou não, de suas mentes e agravam o seu estado.

As fraquezas de Olavo

Filosoficamente, Dugin refutou a dialética de Olavo, mostrando como a relações entre conceito e realidade são noções regionais e não universais. Outrossim, Dugin demonstrou como a definição que Olavo dá a um conceito é intrinsicamente empirista, algo estranho, já que o mesmo é naturalmente genérico. E por isso ela não é adequada para explicar logicamente as intenções e os objetivos do Consórcio de forma geral. Ademais, Dugin concorda com o pressuposicionalismo cristão: não há neutralidade e Olavo, definitivamente, não é uma pessoa neutra.

Como vimos, Olavo também é refutado pelos fatos. Toda a sua teoria de movimentos revolucionários é fundamentada na idéia de que eles são aplicações do milenarismo cristão. Quando, na verdade, os principais revolucionários que legaram todos esses movimentos desde o século XIX, eram em sua maior parte judeus, conscientes do milenarismo judaico. Esses dois milenarismos abrigam doutrinas, objetivos, cosmovisões e tendências raciais totalmente diferentes um do outro. Por isso, a falha de Olavo em assumir o axioma de milenarismo cristão em sua tese, compromete tudo o mais que ele deduz. Olavo não é um bom filósofo e sua mea culpa relativo à percepção incorreta do laicismo americano registrada em sua obra “O Jardim das Aflições”, acrescentada a esses erros de dedução, mostram que ele também não é um bom observador.

Como Olavo não é nem um bom filósofo e nem um bom observador, naturalmente ele não terá boa vontade para se deter em uma análise honesta do Eurasianismo. Mas o fato, é que, fundamentalmente, o Eurasianismo é um movimento nacionalista e etnocêntrico, por si só, muito diferente do Comunismo internacionalista. Tendo em vista que o Comunismo soviético foi claramente um ato de vingança das minorias étnicas contra o povo russo, no que diz respeito à Rússia, o Eurasianismo não tem o mesmo potencial soviético de lançar o governo contra a sua própria população, embora não se possa dizer o mesmo de outras raças, como a chinesa e a árabe. Ademais, os russos e o seu governo estão globalmente reconciliados com um Cristianismo Ortodoxo vibrante em seu país; e a religião tem um claro efeito pacificador nas relações institucionais de qualquer povo. Como Dugin é um cristão ortodoxo, está claro que o Eurasianismo que ele defende especificamente para a Rússia é uma expressão holística de sua fé. Nós cristãos somos naturalmente simpáticos à elevação de Cristo sobre a Rússia, e nos solidarizamos com Dugin e o seu etnocentrismo.

O problema do Eurasianismo

Evidentemente, o Eurasianismo de Dugin possui um problema fatal e notável. Ele é abrangente demais, porque se alia a vários povos distintos; é difuso demais porque esses aliados possuem, indubitavelmente, interesses conflitantes; e não é especificamente lícita, porque algumas dessas nações são tirânicas e inimigas de tudo o que é justo e bom, e não merecem apoio.

Esse é o problema do Eurasianismo. Como ele poderá conciliar os interesses imperialistas da China, dos maometanos e dos russos? É bastante notável que o Eurasianismo é um arranjo geopolítico explosivo, pois vencido o inimigo comum, o Ocidente, como harmonizarão os três os seus interesses? Ao contrário, a história mostra que tal arranjo é inviável. O ex-presidente Nixon disse a Frost que sua abertura à China, que foi desastrosa a longo prazo para os EUA, foi implorada e incentivada pelo próprio Brezhnev da URSS. As relações sino-russas estavam tão tensas que, não fosse a abertura americana para distrair os chineses, era provável que uma guerra entre a URSS e a China estourasse. Porque com um Eurasianismo triunfante isso seria diferente? E o que dizer da guerra entre a URSS e o Afeganistão islâmico? Ou entre a Rússia e a Chechênia mulçumana? Se, com um inimigo comum, a história das relações entre esses aliados é profundamente conturbada, quanto mais conturbado seria, se eles tivessem que lidar apenas uns com os outros. O Eurasianismo só faz sentido se os russos se aliassem com pessoas de sua própria raça. Contudo, é compreensível que Dugin não veja outro poder geopolítico suficientemente forte para rivalizar o colossal poderio militar do Ocidente; e por isso a sua opção. Mas, certamente, isso não prosperará a longo prazo.

Se Olavo não embargasse o debate com os seus delírios impertinentes, uma questão interessante a ser posta a Dugin é como ele justifica o apoio militar eurasiano à Coréia do Norte, tendo em vista que é ela inimiga mortal e jurada de qualquer tipo de Cristianismo, inclusive o dele? É lícito a um cristão ortodoxo apoiar aqueles que odeiam violentamente o nosso Senhor? Certamente que não.

Ademais, apesar dos pesares, não se pode negar que o Ocidente que Dugin odeia é composto por uma população européia, da mesma raça que os russos. É notável também que os discursos de Dugin  nas emissoras russas são recheados de beligerância e palavras marciais contra o Ocidente. Em caso de conflito militar, ele sabe que a maior vítima da conflagração seria a sua própria raça, ou seja, os indo-europeus do Leste e do Oeste? Por tantos motivos, um Eurasianismo amplo e beligerante não é claramente temerário?

São muitas perguntas que um debatedor qualificado e calmo poderia fazer a Dugin. Infelizmente, não é o caso neste debate.

Anúncios

Os comentários estão desativados.