DEBATE: Olavo de Carvalho X Aleksandr Dugin

Veja também: a última atualização do debate

O Prof. Olavo de Carvalho é um filósofo e jornalista católico que reside nos EUA em função das perseguições que sofreu aqui no Brasil por suas visões políticas de direita. Ele tem uma extensa obra bibliográfica, é fundador de dois think tanks, um no Brasil e outro nos EUA. Sua vida e obra renderam-lhe uma multidão de fãs e seguidores aqui no Brasil, onde o pensamento conservador é marginalizado e ignorado em todo mainstream político e midiático.

Aleksandr Dugin é um ex-militar da KGB e um poderoso ativista russo. Ele é o ideólogo do gabinete de Vladimir Putin e fundador do Neo-Eurasianismo, em suma, um movimento que propugna por um etno-nacionalismo [1], preferencialmente nas nações na Europa, Ásia e Oriente Médio, com a exceção de Israel, porque historicamente mais próximas da Rússia. Essa ideologia é declaradamente oposta aos EUA, liberal, capitalista, globalista e individualista.

Este debate, organizado pelos admiradores de Olavo, está até este momento em sua terceira intervenção. Dugin fez duas e Olavo uma. Em sua introdução, Dugin fez um apanhado do eurasianismo, e as históricas aspirações dos povos em manterem as suas identidades regionais por meio dos Estados nacionais. Essa aspiração passa por russos chineses e islâmicos nacionalistas [2], por isso são aliados naturais no eurasianismo. Em contraste, estão a civilização ocidental e os EUA. Por meio de seu poder militar, seu governo, suas organizações políticas, o americanismo quer destruir as identidades nacionais e espalhar seu modo de vida liberal e individualista a todas as nações. Se ele almeja o governo mundial como resultado, ou tão somente a sua proeminência sobre todas as nações americanizadas, ainda não está claro. Mas neste período de transição para este fim nebuloso, a elite política dos EUA usam de todos os meios à sua disposição, bem como os seus aliados da União Européia, o Japão e Israel, para esse processo.

Em sua réplica introdutória um tanto estranha e impertinente, Olavo concorda com Dugin quando admite que há um processo coordenado de dissolução das identidades nacionais por parte das elites políticas do Ocidente. Mas que os EUA não o representam e não são culpados por ele; e que ao contrário do que Dugin afirma, eles são as suas principais vítimas. Olavo salienta que essas elites globalistas ocidentais são apenas uma das três linhas supranacionais de imposição de um governo mundial. As outras duas são a conspiração das agências estatais russo-chinesas e o califado islâmico. Essas linhas são adversárias entre si, mas eventualmente se aliam em prol de interesses imediatos. Ademais, Olavo afirma que a linha russo-chinesa que encontra a sua expressão no eurasianismo, não pode oferecer nada de melhor à alternativa apresentada pelas elites globalistas do ocidente; pois, verifica-se pela terrível e sangrenta história da Rússia e da China comunista, que ela não é capaz nem mesmo de curar a si mesma. Para reforçar o seu ponto, Olavo, como um católico, lembra das malfadadas profecias de Fátima a respeito dos erros da Rússia, proferidas em 1917. Dugin, em sua primeira réplica a Olavo percebe que seu oponente é contra todo e qualquer projeto político supranacional, mas lembra que não há alternativa às três citadas pelo último. Portanto, Dugin espera que Olavo tome uma posição mais realista, até mesmo em homenagem aos seus compatriotas latino-americanos que se aproximaram do eurasianismo. Até aqui o resumo do debate.

O aspecto que para nós é mais saliente neste debate, é a impertinência dos argumentos de Olavo. Antes do debate, ele denunciou a assimetria entre ele e Dugin, fato que ele reiterou em sua nota introdutória. Olavo é um cidadão privado, sem qualquer apoio estatal, quer por parte do Brasil, quer dos EUA. Em contraste, Dugin é um soldado ex-KGB, filhos de agentes da ex-KGB, e mentor do poderosíssimo líder russo, Putin. As idéias de Olavo ressoam em apenas alguns poucos círculos privados no Brasil e nos EUA; enquanto que as de Dugin, ressoam em várias nações, da Rússia à Portugal; e são a base ideológica das operações geopolíticas da China, da Rússia e de alguns países islâmicos. Dessa feita, Olavo lembra do risco pessoal que corre ao debater contra um homem como Dugin, que teria poderes ilimitados em suas mãos. Olavo, por esses motivos, improperou os organizadores do debate, chamando-os de “moleques irresponsáveis”.

A situação assimétrica do Olavo perante Dugin justifica, em princípio, o risco que ele corre. Por isso, seria justa e compreensível a repreensão dada aos organizadores do debate, se Olavo desistisse dele pela segurança sua e de sua família. Porém, estranhamente, Olavo não desistiu do debate e, ainda assim, improperou publicamente os organizadores por um aceite que ele próprio deu, em primeiro lugar. E não é só: em sua réplica introdutória, ele citou essa mesma assimetria a Dugin, atacando-o inclusive por ser o píncaro de um poder que conta com o apoio de organizações terroristas. Ocorre que um homem prudente, temeroso por sua segurança, naturalmente se absteria de determinadas colocações diante de um inimigo em potencial supostamente tão poderoso. Mas como Olavo não se absteve, é difícil não interpretar a sua imprecação como um desonesto jogo de cena, ou pior, como uma característica duvidosa de sua idiossincrasia. Pois Olavo tem-se indisposto com vários de seus colaboradores, não tendo o cuidado de repreendê-los em privado, tais como o jornal Zero Hora, a Editora É Realizações, a Livraria Cultura, os seus alunos no Seminário de Filosofia, os editores do Mídia Sem Máscara, etc. O saudoso Orlando Fedeli amargou profundamente esse peculiar temperamento de Olavo em um incidente passado, quando ele o repreendeu por ser simpático ao gnóstico e mulçumano René Guénon. A própria idéia que Olavo defende, que os EUA são vítimas e não os protagonistas do movimento globalista, contradiz a sua obra “O Jardim das Aflições”, onde lá é dito que este país é o primeiro do mundo que nasceu juridicamente divorciado das tradições religiosas de seu povo. Diante de todas essas coisas, é difícil não considerar que a confiabilidade das demais idéias suas seja, no mínimo, questionável no final das contas.

Olavo também foi impertinente porque citou a profecia de Fátima a Dugin, que é um cristão ortodoxo. A menos que Olavo queira transformar o debate em uma apologética de doutrinas católicas e ortodoxas, já que nós protestantes e esses últimos reputamos como falsos os videntes de Fátima [3]; ou queira fazer uma competição de qual grupo foi mais o honrado com a coroa do martírio no século XX; causa-nos muita estranheza essa citação. Como interpretá-la, senão uma tentativa sutil de fazer o debate mudar de assunto? Considerando toda a conduta de Olavo, foi muito gentil da parte de Dugin continuar com o debate.

Mas há um ponto crucial que Dugin levantou contra Olavo que de fato merece ser acatado. Fundamentalmente, Olavo diz que há uma América distinta de seu governo e dos ideólogos deste último. E o erro de Dugin estaria em sua negligência em perceber este fato, por isso o seu antiamericanismo seria injusto. Porém, ocorre que os EUA ou seja a instituição jurídica da República dos Estados Unidos da América é o governo americano. E o governo americano é de jure o representante de seu povo. E mais: este povo é cúmplice de seu governo, porque vota ou aquiesce à eleição se abstendo de votar; e, tendo cidadania, não retira o seu governo, nem mesmo pelos meios pacíficos de impeachment previstos em suas leis. Outrossim, o povo americano possui um direito sem paralelo em outras nações: o direito, previsto pela segunda emenda de sua Constituição, de remover um governo tirânico à força. Como ele não o faz, nem pacificamente, nem violentamente, declara-se cúmplice e beneficiário deste governo para todos os efeitos. Dessa feita, sendo notável que é este o governo quem lidera o globalismo e deixa-se guiar por essas ideologias de governo mundial em conjunto com os seus aliados europeus, ou seja, o Ocidente, é óbvio que não se pode falar em duas Américas ou em duas Europas. Há uma só América e uma só Europa que fazem essas coisas condenáveis. Por isso, Dugin tem toda a razão quando diz que as sugestões de Olavo de uma outra América [4] são meramente virtuais, sem nenhum efeito na realidade. Olavo não pode dizer stricto sensu que o governo americano age contra os seus próprios interesses porque a elite globalista é o governo americano em quase sua totalidade; e este governo é o representante, de direito e de fato, do povo americano e dos interesses desse último.

Dugin foi brilhante em mostrar o quanto Olavo está imbuído pelo individualismo, a tal ponto que este último não se apercebe disso. Ele o mostrou, em primeiro lugar quando citou que Olavo era um indivíduo solitário perante o seu poderoso antagonista representante de uma sociedade holística. E, em segundo lugar, quando citou que Olavo separa a América dos americanos, como se fosse relevante para os fatos que indivíduos americanos discordem ou não de seu governo, sem que os rumos deste último mudem.

Por fim, cabe lembrar que o individualismo no qual vivemos é fundamentalmente uma percepção judaica para o mundo não-judeu, por isso pode-se dizer que a nossa civilização ocidental é judaica-cristã, embora muito mais judaica que cristã. Mesmo o comunismo, por meio do qual Olavo acusa a Rússia e, por conseguinte, Dugin, foi parido, compilado e liderado em seu início por judeus étnicos. O individualismo contradiz as Escrituras Sagradas porque, entre outras implicações teológicas problemáticas, um dos motivos das quedas frequentes de Israel, era porque os líderes, como chefes do povo e irmãos consanguíneos dele, não seguiam as leis do nosso Senhor e por isso traziam guerra e devastação aos israelitas. Se Deus visse-nos como meros indíviduos e não como membros de tribos, essas retaliações seriam injustificadas.

Notas

[1] O etno-nacionalismo eurasiano é muito distinto daquele proposto pela doutrina bíblica conhecida por kinismo, que este Blog defende. É também mais próxima de um socialismo econômico, porém, em nível nacional.

[2] Osama Bin Laden é um representante do internacionalismo islâmico, defende o califado mundial, ainda que por meio do terror. O internacionalismo islâmico, semelhantemente aos demais, como o comunismo, não conhece a fidelidade aos Estados nacionais. Deduz-se, portanto, que é um inimigo do eurasianismo.

[3] Não são só os protestantes ou os ortodoxos que julgam as visões de Fátima como falsas. Mas os próprios católicos também assim o consideraram. Os papas demoraram muito mais que o período pedido por Lúcia, uma das videntes, para revelar os seus segredos, porque com justiça eles não queriam consignar a reputação da Igreja Católica Romana a essas profecias, apesar da devoção popular que o incidente provocou. Ainda hoje, há rumores de que a Igreja Católica não publicou na íntegra o terceiro segredo de Fátima e está procurando a ocasião certa para fazê-lo.

[4] Para ser justo com Olavo, houve, de fato uma outra América, religiosa, isto é, com religiões cristãs oficiais; etnicamente pura e caucasiana; não-imperialista, porque não tinha interesse em colônias, exceto para a deportação da população negra de seu território, como no caso da Libéria; não-individualista, porque rural e fundamentada em empreendimentos familiares, etc. Mas essa América começou a morrer depois da Guerra Civil; e foi irremediavelmente perdida depois dos movimentos imigratórios que se seguiram aos anos 60 do século passado.

Sendo que a maioria dos Estados americanos possuíam religiões oficiais até a primeira metade do século XIX, a primeira emenda da Constituição americana deve ser entendida não como Olavo a entendeu, ou seja, que os EUA eram o primeiro país do mundo formalmente divorciado da tradição cristã. Mas, sim, como uma proteção jurídica que os Estados da União promulgaram uns contra os outros e contra a própria União. Pois não queriam que a União tirasse-lhes o direito de definir localmente a religião cristã que adotariam e nem queriam que a religião de um Estado fosse adotada como a religião nacional. Evidentemente que o texto da primeira emenda leva a um entendimento malicioso de agnosticismo oficial, tal como a interpretação jurídica do tratado de Trípoli deixava a entender. Mas historicamente não é esse o fato, até porque o tratado foi rapidamente revogado. Contudo, essa a interpretação agnóstica tem vencido depois que a América perdeu a sua identidade étnica.

A ironia dessa história, é que como Olavo e sua família são imigrantes latino-americanos nos EUA, eles são mais um grupo a contribuir para que aquele país jamais recupere a sua homogeneidade étnica, coisa requerida pelo nosso Senhor Deus a todas as nações. É terrível que os neoconservadores de nossos dias não entendam, como os seus antepassados claramente entendiam, que as nações não são proposicionais, isto é, formada por idéias em comum; mas, sim, tribais, consanguíneas.

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