A Angústia de Fukushima

Atualizado 16/03/11

As imagens televisionadas das explosões dos edifícios onde se encontram os reatores da Usina Nuclear da Tokyo Electric Power Company (TEPCO) em Fukushima no Japão são impressionantes e assustadoras.  Isso se soma ao indescritível sofrimento daquele grande e precioso povo japonês que está enlutado pela perda de milhares de seus concidadãos no mais recente tsunami causado pelo maior maremoto que aquele país já viu em séculos. Há um medo, especialmente sob as lembranças da tragédia de Chernobyl, de uma repetição daquele desastre soviético em pleno Japão.

É por isso que é importante que todos se tranquilizem e entendam que essas explosões fazem parte do projeto concebido para Fukushima. Os reatores daquela usina estão instalados no meio de três barreiras de contenção: o vaso de aço que envolve o reator; o sarcófago de concreto que envolve o vaso; e, por último, o próprio edifício onde o reator está instalado. O sarcófago e o vaso do reator são as contenções primárias; e o edifício é a contenção secundária.

Em um reator de fissão, como os que a Fukushima possui, a reação em cadeia do urânio é controlada por meio da exposição desse combustível às barras de grafite, chamadas de barras moderadoras. Em uma situação de emergência, as barras de grafite são todas levantadas e a reação em cadeia pára, restando apenas o calor residual do combustível físsil que esfria muito lentamente, podendo demorar semanas para que se atinja o fim desse processo. Os reatores da usina danificada encontram-se protegidos pelas barras de grafite, mas o problema que os engenheiros da TEPCO estão enfrentando encontra-se nesse calor residual.

O trágico maremoto que atingiu o Japão destruiu os resfriadores a diesel da usina e impediu o fornecimento de energia aos refriadores elétricos, os quais poderiam remover esse calor residual e impedir o derretimento do combustível físsil. Até o momento, a TEPCO não conseguiu substitui-los, infelizmente. Por isso só lhe restou a opção de bombear a água do mar para dentro dos reatores em superaquecimento. Ocorre que quando a água do mar é bombeada ali, a água sublima e, reagindo com os subprodutos superaquecidos do combustível físsil, ela se decompõe em oxigênio e hidrogênio. Sendo que o vaso funciona como uma panela de pressão, se não houver o resfriamento do reator, a usina precisa liberar a pressão desses gases dentro dele para não danificar toda a estrutura da contenção primária. Por isso, a TEPCO optou por libera-los no interior da contenção secundária, no edifício, ao redor da contenção primária.

O problema é que esses gases são inflamáveis, e possuem uma contaminação mínima oriunda dos subprodutos do combustível físsil misturados com o vapor, e por isso as explosões radioativas que temos visto contra os edifícios da usina, a contenção secundária. A radiação exalada é importante, mas não é maior que aquela ao qual nos submetemos em um exame de raios-X e se dissipam muito rapidamente. Contudo, as explosões não danificaram a poderosa contenção primária, que é o que realmente importa, ao contrário da tragédia de Chernobyl, que não a tinha, que irresponsavelmente removeu as barras de grafite, que desligou o sistema de refrigeração, e que, além de tudo, permitiu que esses gases inflamáveis se espalhassem pelo reator e se incinerassem, por isso o desastre ucraniano. Chernobyl é emblemática da incompetência e da corrupção do sistema soviético e é sensacionalismo baixo e grosseiro compara-la a Fukushima.

Mas já há algo que os engenheiros da TEPCO podem aprender. O projeto da Fukushima, desenhado há 40 anos e já superado pela terceira geração de reatores, deveria ter sido concebido de uma forma que esses gases pudessem ser expelidos por meio de exaustores em uma estrutura de chaminés especialmente protegida e incinerados nos bucais. Não faz sentido expeli-los no interior da contenção secundária e deixar que se incinerem acidentalmente para depois destrui-la, assumindo o risco, embora pequeno, de causar danos à contenção primária. Poder-se-ia, senão, purificar os gases, coletar o hidrogênio e, se for suficiente, usa-lo como um combustível para a recarga de baterias de emergência da usina. Essas mesmas que ficaram em operação por um curto tempo imediatamente após a pane nos resfriadores a diesel. No mais, não há motivo para o pânico, pois ainda que haja o derretimento parcial dos reatores e a perfuração do vaso, há o sarcófago concretado, que além do mais é revestido de grafite. O acidente nuclear de Three Mile Island, que chegou ao ponto de derretimento do reator, mostrou que a magma físsil não é quente o bastante para atravessar a contenção primária. Por isso Fukushima não é, ainda, nem mesmo tão grave quanto esse acidente americano.

A energia nuclear dentro dos modernos padrões de segurança, é segura e merece nossa confiança. Fukushima provou-o, pois suas estruturas essenciais resistiram incólumes a duas catástrofes várias vezes mais poderosas que o seu projeto de 40 anos atrás havia previsto, um terremoto seguido por um tsunami. No mais, as falhas que ocorreram naquela usina, todas elas são solucionadas pela engenharia prevista para a atual terceira geração de reatores. Não só é apenas sensacionalismo malicioso a cobertura da imprensa contra a TEPCO, que mal disfarça um ativismo anti-nuclear, como também é um vil desrespeito às milhares de vítimas da tragédia, pois são elas quem deveriam ser lembradas e são as suas famílias que deveriam ser citadas para que recebam ajuda. A imprensa mais uma vez revela a sua vil e réproba inversão de valores. Contudo, que Deus abençoe o grandioso Japão. Que o Senhor o queira restaurar, Se revelar a ele e dar consolo às famílias enlutadas nessa tão dolorosa e indescritível tragédia.

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