O Problema do Capitalismo: O Individualismo

Atualizado 25/02/2011

Veja também: O Problema do Capitalismo: A Usura

Em uma série de artigos, demonstramos que o Senhor Deus criou as nações para viverem separadas umas das outras, implicando que cada um de seus membros deve manter a sua linhagem pura por meio de matrimônios heterossexuais tomados tão somente com outros da mesma tribo. Isso é resultado do fato de que o homem não foi criado para viver sozinho ou entre estranhos; mas, sim, com a sua família.

Essa realidade justifica a oposição histórica da Igreja ao Liberalismo Econômico, ou seja, ao Capitalismo enquanto tal, e confirma a solidez de sua objeção. E diante do etnocentrismo no meio do qual foi posto o homem, podemos nos juntar à Igreja em uma só voz nessas preocupações.

Definimos o Liberalismo Econômico lançando mão da teoria austríaca do economista Von Mises que, em suma, afirma que qualquer agrupamento de homens e mulheres é formada por indivíduos; e que a propriedade privada é uma relação jurídica entre o indivíduo e sua posse, que tem o direito de fazer uso dela pacificamente conforme os seus desejos subjetivos, sem coerção externa. Isso implica que a divisão de trabalho, a cooperação onde os homens somam esforços para atingir um determinado fim conforme as aptidões de cada um, é logicamente um conjunto de indivíduos sem nenhuma relação necessária entre si, com exceção de seus desejos ou interesses compartilhados. De forma análoga, sendo as relações sociais resultados de ações de indivíduos motivados, a responsabilidade por cada uma delas é igualmente individual.

Diante de tudo o que expusemos, podemos afirmar que o problema do Liberalismo Econômico ou Capitalismo, é que o seu axioma fundamental é uma meia-verdade. Sim, é evidente que qualquer agrupamento de homens e mulheres é formada por indivíduos. Porém o que escapou aos economistas liberais, é que as relações entre os indivíduos não são apenas resultado de harmonização de desejos ou interesses subjetivos. Existe também o fator da necessidade. E por necessidade queremos dizer não as carências materiais que os indivíduos eventualmente identificam para si ou para os outros e buscam mitiga-la; mas, sim, uma realidade necessária que os transcendem, sendo-lhes imposta por Deus. Para dar um exemplo simples, o Capitalismo considera que uma esposa que sai de seu lar em prol de uma carreira corporativa está apenas atendendo a um desejo subjetivo seu, quando ela oferece um serviço profissional a outro indivíduo que a contrata porque os interesses egoístas de ambos se harmonizaram. Contudo, existe sobre a esposa uma realidade necessária que a transcende; isto é, seu papel primordial e divino é servir à família que formou com o seu marido. Portanto, ainda que os seus desejos subjetivos a encaminhem para um lado, sua necessidade é outra. Para o Capitalismo, dizer que há uma necessidade que pode eventualmente contradizer os desejos individuais ou deslegitimar o uso da posse, mesmo pacífico, é inescapavelmente defender a coerção. Isso faz do Capitalismo uma antítese da economia bíblica.

O erro dos economistas liberais é que eles não compreendem que a propriedade privada não é uma relação entre o indivíduo e a sua posse. Mas, sim, em função da necessidade, uma relação entre a família do indivíduo e a posse dela. A verdadeira questão é que é irrelevante se uma família é formada por indivíduos; é óbvio que ela é. O problema é que o indivíduo não é um átomo, ele não vive sozinho, não nasceu sozinho e não foi criado para viver sozinho. Ele está confinado a uma realidade necessária divinamente pré-determinada para ele sob uma família: seja como um filho em submissão aos pais; seja como um marido na posição de líder abnegado de sua família; seja como irmão zeloso de seu parente de sangue, etc. Enquanto que, no Capitalismo, a entidade econômica fundamental é o indivíduo; na economia bíblica, a entidade fundamental é a família. O indivíduo, na verdade, não tem posse; quem o tem é a família dele. E isso possui implicações profundas para o que entendemos ser os direitos de propriedade.

O indivíduo está ligado com a sua família à terra de seus antepassados. Ele não tem, biblicamente, o direito de dispor plenamente de seu bem imóvel. Ele não pode vender a sua terra, permuta-la ou dar-lhe em garantia de crédito, pois foi divinamente ordenado que sua família viva lá pela posteridade. Se, porventura, o indivíduo quiser vender, alienar, permutar ou alugar algo de sua terra, será apenas o seu usufruto em prazo determinado; pois deverá ele ou o seu herdeiro retornar a ela. Isso porque a terra pertence à sua família, isto é, ao indivíduo e aos seus herdeiros legítimos em ordem de proximidade, existentes ou potenciais, muito embora apenas um deles deve herda-la em decorrência da indivisibilidade do bem. Se alguém não sendo o herdeiro da terra, constrói algo sobre ela no decurso do usufruto, as coisas que construiu e que são indissociavelmente ligados a ela não são dele; mas da família quem verdadeiramente a possui. Tal coisa, para o Capitalismo, é um absurdo inconcebível.

Sendo assim, a divisão de trabalho não é um conjunto de relações meramente individuais. Se uma esposa oferece a um terceiro o seu serviço, naturalmente se espera que ela o faça de forma semelhante aos colonos rurais americanos: em conjunto com os demais membros de sua família, como um empreendimento do lar [i]. Isso não significa que o agrarismo é imprescindível, já que existem diversos serviços que uma família pode oferecer em um ambiente urbano. Analogamente, a responsabilidade bíblica não é meramente individual: se alguém é homicida, não bastará que se requeira a sua vida em retribuição ao crime. Porém, à posteridade dele, poderá ser imputada pelo Senhor Deus os efeitos de sua injustiça (Dt 5:9; 1Sm 12:9-12; 1Re 21:1-22; Mt 23:29-35; Mt 27:22-25) [iv].

Quando se diz que o Capitalismo é nocivo porque ele aliena as pessoas, isso não é uma murmuração precipitada e imponderada. É a mais pura realidade, pois ele atomiza as pessoas e as tira de suas relações naturais. Não é coincidência que as famílias se enfraqueceram pari passu à Revolução Industrial e ao surgimento das corporações multinacionais, bem como se separaram em movimentos migratórios em busca de empregos. Foi devido fundamentalmente à filosofia individualista, e por isso herética, de seus promotores empresariais e filosóficos.

Quando se diz que o Capitalismo resulta inexoravelmente no Socialismo do tipo nazista [iii], isso não é uma calúnia hipócrita de padres católicos invejosos da riqueza dos protestantes capitalistas. Muito pelo contrário, é a mais justa constatação dos fatos. Se uma nação é uma etnia parental, e o Capitalismo corrói seus os laços naturais de solidariedade pela infusão do individualismo, quem haverá de substituir o socorro da família e da Igreja? O Estado assistencialista. Mas isso é apenas um aspecto marginal desse sistema econômico, pois nele, o indivíduo podendo fazer uso pleno de seus bens, pode oferece-los em tributo pecuniário ao Estado. Assim, se há a tributação desses bens – coisa que o Capitalismo não se opõe se foi fruto de um concerto voluntário entre os proprietários e os seus governantes – e há uma maior valorização deles com o tempo, o Estado ganhará mais receitas e condições para investir no seu crescimento. Dessa feita, os direitos de propriedade tais como definidos pelos economistas liberais favorecem o crescimento do Estado em proporção à progressão da riqueza dos ativos tangíveis dos governados. Se, porém, os direitos de propriedade obedecerem ao comando divino, então não podendo o indivíduo dispo-los plenamente porque pertencem à sua família, são minoradas as opções que o Estado possui de tributar e tomar bens como garantia de pagamento. Se ainda, se implementa o conceito bíblico de ano de Jubileu, as receitas estatais cairão tão próximos a arrecadação tributária estiver desse ano e, se houverem ativos tangíveis alienados, esses serão revertidos à família em decorrência do término do usufruto. Os tributos minguarão com término das demais atividades econômicas realizadas sob o usufruto, bem como em decorrência do fluxo migratório obrigatório que o ano de jubileu implica àqueles que deixaram as suas possessões. Portanto, o conceito do jubileu oferece uma possibilidade na qual o Estado pode visivelmente se retrair e poupar gastos como quaisquer dos governados. A outra opção, oferecida pelos economistas liberais, gera uma inevitável contradição à liberdade econômica, tal que alguns, cientes dela, percebem que a única solução é a abolição do Estado. Só que, não havendo Estado [ii], não há um poder coercitivo que garanta a propriedade privada.

Assim, o fim involuntário do Capitalismo é o Socialismo estatal, a tirania perfeita, já que nela, ainda que a propriedade privada seja preservada nominalmente, como o é na economia nazista, ela existirá totalmente sob julgo do Estado. E a família, desmembrada e alienada de seus laços naturais, não poderá requerer a autoridade sobre seus filhos, pois eles também pertencem a essa Corporação.

Notas

[i]  “Verdade Absoluta” de Nancy Pearcey.

[ii] O sentido aqui utilizado é de um governo simples com poder coercitivo.

[iii] O programa esquerdista de Welfare State não possui absolutamente nenhuma ideia original em relação ao que defendia o nazismo para os alemães. As únicas diferenças entre ambos, é que os nazistas restringiam os benefícios estatais aos que eles consideravam cidadãos e levavam a segregação racial aos últimos dos extremos. “O Facismo de Esquerda” de Jonah Goldeberg.

[iv] Isso não significa, evidentemente, que nós respondemos pelos pecados de nossos pais. Todavia, assim como o homem é tanto corpo quanto alma e herdamos de nossos pais nossas características físicas; da mesma forma, herdamos das almas deles tanto as nossas tendências comportamentais pelas concupiscências que eles nutriam, como algumas de suas qualidades emotivas. Mesmo que propensos a determinados comportamentos em função de nossa herança racial – que compreende justamente essas características físicas e mentais legadas pelos nossos genitores e, por conseguinte, pelos nossos antepassados – ainda assim, as ações são nossas; somos nós que as realizamos no tempo e no espaço, independente das nossas motivações conscientes ou inconscientes.

Anúncios

Os comentários estão desativados.