A Glória de Jafé

Atualizado 11/02/2011

Dado que as famílias da terra seriam abençoadas por meio da multiplicação da descendência de Jafé, isso quer dizer que o Senhor Deus deu aos povos jafetitas uma superioridade racial em relação aos demais povos semitas e camitas? Essa é uma questão interessante e importante já que, sendo os filhos de Jafé os ancestrais dos povos indo-europeus, imediatamente somos confrontados com a história do racismo ocidental.

Os supremacistas brancos respondem afirmativamente a essa questão sem titubearem. Entre eles – pois são grupos diversos, indo de pagãos da superstição nórdica a ateus – existe um grupo que é intitulado de “Identidade Cristã” que vai além e afirma que a salvação foi destinada por Cristo a tão somente membros de linhagem pura entre os indo-europeus. Evidentemente, a Identidade Cristã tem diferenças importantes em relação a tudo o que expomos. Pois eles não creem que, como anglo-saxões, descendem dos jafetistas; e sim dos semitas. Mas isso não é importante, pois a questão que se põe a nós é: os indo-europeus, tendo seus ancestrais abençoados por Noé, são superiores aos demais seres humanos? A salvação foi destinada exclusivamente aos membros de linhagem pura dos jafetitas e dos semitas? Teriam os supremacistas alguma razão teológica para a auto-glorificação?

A Teologia não oferece uma resposta curta e simples, pois são inúmeros os aspectos envolvidos nessa questão. Entretanto, o que é claro pela Religião Revelada é que a carne, per se, não pode agradar ao Senhor Deus. Então, a princípio, a remissão dos pecados não pode ser encontrada na linhagem da pessoa. Isso desvela uma verdade muito importante: embora Jafé tenha sido abençoado por Noé, como a carne é inerentemente enferma aos olhos do Senhor, a menos que Ele próprio mude as condições sob as quais ela está submetida, qualquer pessoa na carne, independente de sua linhagem, está alijada da presença de Deus.

Portanto, a Religião diz que não há supremacia inerente (1 Co 15:50). De nenhuma raça. E isso é uma constatação que pode ser percebida na própria História. A descendência bendita de Jafé foi a que mais tardiamente produziu civilizações [i]. Sem dúvida nenhuma, as civilizações indo-européias foram e são as mais poderosas da terra. Mas os camitas e os semitas reinaram por séculos antes dos gregos e dos romanos. E, de fato, isso não poderia ser diferente, pois está implícito na benção de Noé que antes que Jafé pudesse ser alargado pela terra e habitar nas tendas de Sem, os semitas primeiramente precisavam amadurecer como um povo. Por isso, a História da Redenção inicia-se com o crescimento dos semitas (os hicsos e o antigo Israel) em oposição aos camitas (o Egito, os cananeus e os caldeus).

Mas eis veio a ocasião em que os tempos atingiram a sua plenitude. E Cristo encarnou-Se sob um Império Jafetita, o Império Romano. Em seguida, os hebreus foram repudiados pelo Senhor Deus em razão da incredulidade deles, e Seu Filho voltou-Se aos jafetitas. Contudo, a História da Redenção mostra, a partir desse ponto, que o Evangelho veio a Jafé não sem conflito. Aproximadamente três séculos foram necessários para que a Besta, o Império Romano, caísse de joelhos perante Cristo. Não sem antes que o Anticristo Nero, e outros da mesma índole, causassem grandes danos e martírios à Igreja. Isso por si só mostra que os jafetitas não podem justificar-se pelas próprias obras.

Portanto, sendo os mais tardios dentre os povos e tendo tantos inimigos de Cristo em seu meio, os jafetitas não podem gloriar-se em si mesmos. Todavia, é óbvio que o Evangelho triunfou entre eles incomparavelmente mais que em outros povos. E tal fato se deve única e exclusivamente ao direito que o Senhor Deus Se dá em eleger uns para a salvação e outros para a perdição, sendo que a realização desta eleição foi parcialmente revelada em Noé. E por isso, sim, os cristãos jafetitas têm todo direito de gloriarem-se no Senhor e agradecê-Lo pela Sua bondade em dar tal proeminência a este povo em especial, ainda mais considerando que são essas graças divinas a causa de seu progresso civilizacional. Essas mesmas graças não são alheias ao fato de que os povos jafetitas, inclusive os seus membros réprobos, foram peculiarmente predestinados às grandes realizações por Deus. Antes, elas resultam justamente dessas realizações predestinadas, quer de jafetitas justos ou de injustos, devendo-se apenas considerar que a civilização ocidental tal como  a conhecemos e nos orgulhamos foi concebida por este povo após a sua plena cristianização; a qual, senão acontecesse, os jafetitas europeus estariam confinados em suas cidades-estado adorando pedaços de pau e consultando as vísceras de animais até os dias de hoje [ii]. Por isso essa gratidão não implicando na crença da supremacia inerente da raça, é um legítimo ato de louvor a Cristo entre aqueles que compartilham do sangue eleito entre os membros da família de Jafé (1 Co 1:31).

E há mais a se aperceber desses fatos. Sendo a salvação um ato de predileção divina, torna-se óbvio que esse dom não está confinado a Jafé ou a Sem. Embora a proeminência pertença a Jafé por outorga da parte do Senhor Deus, ou seja, o solo fértil para a plantação da semente do Evangelho é uma peculiaridade das nações jafetitas, Ele pode, ao Seu direito, salvar alguns de outras linhagens. Por isso a Bíblia lista Raabe, a prostituta cananéia, entre os heróis da fé, embora uma visível exceção de seu povo (Js 6:23-25; Tg 2:25; Hb 11:31). É por isso que a Igreja deve formar discípulos de todas as nações, ainda que, em algumas, o sucesso não venha a ser retumbante, como naturalmente se espera em função do que previu Noé (Mt 28:19).

Notas

[i] Esse fato é constantemente lembrado pelos Padres Apologistas e por Flávio Josefo quando confrontados com a soberba dos romanos, herdeiros da civilização grega.

[ii] Fustel de Coulanges, “Cidade Antiga”

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