A Condenação de Cristo a César

Lamentavelmente, ao nos defrontarmos com determinado versículo bíblico, tendemos a propor precipitadamente uma interpretação literal, ou melhor, uma interpretação com base no significado aparente do versículo, considerando aprioristicamente que a nossa cultura é exatamente igual à cultura dos tempos bíblicos. Isso é um erro crasso, ainda mais, se não lermos a Bíblia em suas línguas originais.

Um desses erros graves, é a compreensão em voga daquilo que o Senhor Jesus disse sobre a autoridade de César. “Dai pois a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Há uma tendência tipicamente ocidental a considerar que o Senhor determinou uma dicotomia entre o reino de Deus e o reino de César e que o reino de César possui uma autoridade autônoma, como se política e religião não se misturassem. É um ledo engano.

Um engano com consequências desastrosas, já que são os pagãos e os impenitentes que se aproveitam desse entendimento equivocado dos ensinamentos políticos do Senhor para expulsarem a Igreja da vida pública. O atual debate sobre o aborto que tem ocorrido no período eleitoral – que, a propósito, deve ser dito que ambos os candidatos presidenciais, esquerdistas, e ex-membros de grupos subversivos e criminosos, entendem que mães que abortam os seus próprios filhos não são assassinas e que os médicos que as ajudam não são seus os cúmplices, o que faz, portanto, esses proponentes a magistrados civis, coniventes quanto a esse crime civil – é um exemplo desse fato. Pois tais políticos pagãos, ao dizerem que o crime de aborto é um caso de saúde pública e que é defeso ao corrupto e semi-tirânico Estado brasileiro ouvir o bom senso cristão, são os mesmos beneficiários da voluntária recusa da Igreja em ser sal da terra e luz do mundo quando essa aceita a dicotomia secular que lhe é ensinada por estranhos e loucos.

Os ensinamentos do nosso Senhor devem ser desvelados sob o contexto em que ele proferiu as Suas inerrantes palavras. Ao lermos todo o texto bíblico de Mateus 21 e 22, devemos ter primeiramente em mente que César não era um governante civil à nossa moda; que ele era um homem idólatra que pensava ser deus, filho de deuses, e, por isso, exigia adoração; que a reivindicação de sua divindade era cunhada nas moedas que tinha o poder de emitir sob um Império pagão e politeísta que comandava.

Esse Império pagão e idólatra dominava Israel, Jerusalém e o seu Templo, o local onde o Senhor falou essas coisas. E pouco antes de proferir tais palavras, o Senhor havia provocado um incidente no Templo, onde ele expulsou os cambistas e os comerciantes que estavam profanando o culto oferecido a Deus Pai naquele local.

O que tem escapado à média dos leitores bíblicos é o porque o Senhor fez isso. Os sacerdotes proibiam que os ofertantes trouxessem ao Templo dinheiro em moeda cunhada pelos romanos, pelo motivo de que essa fazia referência a divindade de César. Em outras palavras, os sacerdotes estavam tentando impedir que um ídolo romano entrasse no Templo e fosse uma parte integrante do culto a Deus. Então os cambistas ofereciam o serviço de troca de moedas romanas por uma outra local e o faziam com usura. Oras, a questão imoral é que os cambistas não só cobravam a usura de seus próprios compatriotas irmãos, mas também, principalmente, pelo fato de que recolhendo os cambistas as moedas romanas, eles não as derretiam; espertamente ficavam com elas. Ou seja, sob uma falsa moral, tiravam os ídolos romanos das mãos das pessoas, as moedas cunhadas, e ficavam com esses mesmos ídolos em mãos para enriquecerem, sem mencionar que corrompiam os sacerdotes com esse dinheiro, como se verá a seguir.

Vendo o incidente, impressionaram-se os oponentes do Senhor. Pelo que imaginaram o seguinte: “Jesus exibiu o Seu ódio por esse comércio corrupto que estabelecemos no Templo, então, decerto, deve considerar o poder de Roma simbolizado pelas moedas cunhadas com as referências a César, ilegítimo. Assim o pegaremos.” E é por isso que eles questionaram o Senhor, curiosamente começando com uma lisonja: “Mestre, bem sabemos que és verdadeiro… que ensinas o caminho de Deus,” etc.

Acontece que a lisonja não foi sem propósito. Ela tinha um motivo: os judeus acreditavam que o Messias não poderia concordar com o jugo idólatra que Israel sofria de Roma. E um dos aspectos presentes do jugo romano era o comércio de moedas romanas em Israel. A cunhagem de moeda para o antigo representava poder, tanto que Bar Kocheba, o falso messias judeu na era do reinado do Imperador Adriano, cunhou as suas próprias moedas como um símbolo de seu poder revolucionário. Os oponentes do Senhor, ao adula-Lo, queriam por em relevo as Suas reinvindicações messiânicas, para posteriormente tentar desmoraliza-Lo perante o povo.

Após lisonjeá-Lo, eles O questionaram: “Senhor, é lícito pagar tributo a César?” Mas eis aqui um detalhe importante, que a ausência da leitura da Palavra de Deus em seus idiomas originais pode prejudicar a compreensão correta do texto. No original, verifica-se o tributo mencionado era um tributo muito específico, de nome kansos, um tributo cobrado sobre todas as pessoas, inclusive mulheres e escravos; o que, na mente do antigo, representava a realidade da servidão da nação de Israel ao poder romano. Em outras palavras, um tributo específico que denunciava o estado de jure de escravidão dos judeus a Roma, coisa que o povo estava ansioso por libertação, a qual confinavam que o verdadeiro Messias lhes traria. Por isso o povo não podia aceitar que Cristo pudesse legitimar o tributo mencionado pelos oponentes do Senhor.

Então, a primeira coisa que podemos aprender dos dizeres do Senhor, é que não estava em causa a autoridade do governo civil ou uma suposta dicotomia entre o reino da política e o reino de Deus. “Dar a César o que é de César,” não é um ensinamento a respeito da legitimidade do governo civil ou da separação entre Igreja e Estado, pois o texto se refere a um incidente totalmente estranho a isso.

Diante do desafio proposto pelos Seus oponentes, podemos compreender a armadilha em que eles queriam constranger o Senhor. Se o Senhor dissesse sim ao tributo, ele estaria abonando aquilo que expressamente denunciava a escravidão dos judeus e cairia em desgraça aos olhos do povo, pois esse não queria um Messias conivente. Se, porém, o Senhor dissesse não ao tributo, seria denunciado pelos Seus oponentes às autoridades romanas.

Entretanto, cheio do Espírito Santo, de sabedoria e sagacidade, o Senhor primeiramente fez-lhes um pedido: “Mostrem-me a moeda do kansos.” E os seus oponentes O mostraram. E eis aqui onde o Senhor os desmoralizou de imediato perante o povo, pois, como, em se tratando de fariseus e herodianos, ou seja, judeus, poderiam eles estar de posse de uma moeda romana, ou seja, de um ídolo romano? Em outras palavras, eles próprios estavam envolvidos na corrupção do Templo, embora se julgassem mestres e professores da religião judaica, pois é evidente que, de posse das moedas, se beneficiaram com os cambistas que extorquiam o povo. Enquanto o povo sofria o ágio, aqueles que se arrogavam seus mestres não apenas não praticavam os próprios ensinamentos de zelo e pureza, como se beneficiavam dessas coisas que julgavam ser idolatria.

Então, sem acrescentar quaisquer palavras de acusação, que Ele podia muito bem tê-Lo feito, o Senhor disse-Lhes: “Dai a César…”  Porém o verbo “dar” não é o que melhor expressa o que está no original, e sim “devolver.” “Devolvei o que é de César.” Eis aqui a profundidade da sabedoria e da sagacidade do Senhor:

Os judeus, de um modo geral, não podiam se escusar de considerar Roma um benefício para eles próprios. Eles estavam com as moedas romanas porque desfrutavam das estradas, da segurança e dos demais serviços públicos que ela oferecia. Simples assim. Nem o povo, nem os seus líderes judeus, tinham o direito de contestar esse jugo que estavam em pleno gozo. E o mais grave desse fato, é que os judeus desfrutavam um jugo que sabiam ser fundamentado em um culto ao homem, idolatria. Assim, eles é que estavam sendo coniventes e trocando, novamente como em outros episódios da história de Israel, o senhorio do Senhor Deus pelo de um ídolo humano.

Diante disso, nessa curtíssima resposta, o Senhor estava lembrando aos judeus que, como eles trocaram o senhorio de Deus pelo do homem, o kansos era apenas um aspecto do juízo de Deus contra eles, manifestado através de um novo cativeiro, desta vez romano. Portanto, enquanto não devolvessem em arrependimento a César os ídolos de César, não tinham o direito de clamar a Deus  contra a opressão estatal que sofriam, se eram claramente coniventes com César.

Por fim, o Senhor oferece-nos o perdão desta idolatria: “e a Deus o que é de Deus.” E como podemos pagar Àquele que possui todo ouro e toda a prata, e todos os governos civis em Sua mão, senão pelo nosso culto sincero e cheio de temor ao Pai através do Filho? Assim, o Senhor não está separando o Estado da Igreja, muito pelo contrário, Ele está lembrando a todos, inclusive a César, da responsabilidade inescusável de se render o culto devido a Deus e somente a Deus; e a se devolver, pagar, com louvores, orações e adoração, a benevolência do nosso Deus e Pai (Salmos 22:25).

Que não se permita a Igreja ser conivente com César, trocando o senhorio do Senhor e Seu jugo suave, pelo jugo da política pagã que o Estado brasileiro oferece com suas esmolas roubadas ilicitamente de terceiros via impostos; mas que antes, a Igreja venha a ensinar a esse Estado com coragem, a fim faze-lo prestar culto e, por meio dele, trazer a justiça e, especialmente, a devida retribuição aos maus. Amém!

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