O Falso Profeta

Atualizado dia 01/09/2009

Se Nero é a Besta que faz guerra aos santos, quem é o Falso Profeta que exorta os povos a adorá-lo fazendo uso, para esse fim, de sinais miraculosos? Se a Besta é uma pessoa histórica e real, como ficou estabelecido, quem seria o Falso Profeta que lhe conferiu o prestígio para os apóstatas o adorarem, presumindo que ele também seja uma pessoa histórica e real? Se a Besta é Nero, qual é a personagem histórica do século I que encarnou perante Cristo e a Igreja o Falso Profeta?

Para responder as questões acima, devemos abandonar a visão romântica de que a Igreja era absolutamente pura até que o imperador cristão Constantino publicou o édito de liberdade religiosa, como afirmam alguns incautos. Tal como hoje a Igreja sofre nas mãos quer da apostasia liberal, da apostasia arminiana, ou da apostasia quiliasta, a Igreja Antiga também sofreu nas mãos de um persistente inimigo: o Gnosticismo. Não há nada novo debaixo do céu.

O Gnosticismo teve um fundador famoso em seu tempo: Simão, o Mago. As Escrituras registram sucintamente a história desse homem (At 8:5-24). Quando a Igreja ainda era infante, radicada em Israel e lentamente expandindo-se pelo país a partir de Jerusalém, Samaria recebeu o Evangelho através de Filipe que era um dos discípulos de Cristo. Filipe foi abençoado com vários dons miraculosos, o que impressionou os samaritanos, incluíndo Simão, e deu maior eficácia à pregação do Evangelho na cidade. Tal foi a impressão causada aos samaritanos, que o próprio Simão, antes idolatrado pelos samaritanos por causa das suas artes mágicas, aproximou-se de Filipe, provavelmente para ver se a amizade poderia lhe render vantagens.

Após algum tempo, e cientes do sucesso de Filipe em proclamar o Evangelho, foram os Apóstolos Pedro e João conferir o Espírito Santo aos novos convertidos de Samaria pela imposição de mãos, conforme a exclusiva prerrogativa apostólica que possuíam para tal. Vendo a manifestação extraordinária do dom do Espírito Santo, Simão quis comprá-lo porque imaginava que tal dom deveria ser resultado de uma iniciação mágica que ele não conhecia, pelo que os Apóstolos o repreenderam imediatamente. Não se sabe se Simão abandonou a Igreja a partir desse ato vexatório, ou se, falsamente pedindo perdão, foi-lhe permitido ficar. Provavelmente ficou por mais algum tempo na Igreja inteirando-se da Doutrina, embora, decerto, Filipe e os Apóstolos se afastaram dele em função das circunstâncias impostas pelas obras missionárias.

Entretanto, Simão não se arrependeu de seus pecados e prosperou na sua impiedade. Seguiu o costume dos samaritanos de sua época que eram sincretistas (eles misturaram o judaísmo com ritos babilônicos, à moda dos seus antecessores que caíram sob os Assírios). E assim, ele introduziu, a partir dos conceitos e da linguagem cristã, uma religião nova. Conforme o Bispo Irineu de Lion, ele tomou por esposa uma prostituta fenícia, Helena, de quem dizia que era a mãe de todas as coisas; o ato que criou os anjos e o mundo, por vontade do “Pai,” o próprio Simão, numa clara referência blasfema à Divina Trindade que, com certeza, Simão aprendera alguma coisa através dos cristãos.

Os anjos, com ciúmes de Helena, a mantiveram prisioneira e, por fim, encerraram-na em corpos humanos por vários séculos. Ela, segundo Simão, encarnou-se na rainha de Tróia, também chamada Helena, sendo a causa da guerra contra a Grécia. Assim foi por vários séculos, reencarnando em várias mulheres até, por fim, encarnar em uma mulher que viria a ser uma prostituta. Simão, chamando-se a si mesmo de “Pai,” havia se encarnado com o intuito de resgatá-la e por termo ao domínio dos anjos, que seriam os verdadeiros criadores daqueles preceitos que chamamos de “Lei Mosaica.” Simão, portanto, além de feiticeiro, considerava-se a primeira pessoa da Trindade, e militava contra a Lei de Deus. Essa era a doutrina do homem.

Mas o aspecto mais curioso de sua história é que ele angariou pessoas para si de vários lugares do Império Romano numa espécie de esforço missionário para se tornar célebre, já que invejava os Apóstolos. O próprio Bispo Irineu de Lion conta que o Simonismo era uma religião com clero e ritos próprios, onde o casal fundador era adorado à semelhança de Júpiter e Minerva. E seus discípulos espalharam versões de sua doutrina à medida em que iam se elevando nas artes mágicas. No século II os discípulos dele foram os principais alvos dos escritores eclesiásticos. Menandro, um outro samaritano e sucessor de Simão, dizia que aqueles que o abraçassem como Salvador (referência clara a Cristo, sobre quem Simão ouviu), não morreriam. Ele até batizava seus discípulos em seu próprio nome, tal como os cristãos em nome da Trindade. Foi bem sucedido em Antioquia. Saturnino e Basilíades, dois discípulos de Menandro, espalharam sua própria versão da heresia de Simão, na Síria e na Alexandria, respectivamente. Afirmavam que havia um só Pai, que não era conhecido por ninguém, que havia criado os anjos (entre eles o Deus de Israel, retratado no Antigo Testamento) e esses últimos se rebelaram contra o Pai. Então os anjos criaram o homem com o intuito que fosse ele a imagem do Pai, mas não lograram nisso pois eram fracos. O homem nasceu como um verme, pelo que precisou da misericórdia do Pai para ganhar músculos e articulações e viver. Vendo que os anjos eram rebeldes, o Pai quis destruí-los através do Salvador, Cristo, que possuía um corpo apenas aparente. Cristo seria, portanto, o inimigo do Deus de Israel.

Simão ambicionou e buscou conquistar a capital do Império; e através de sua arte, segundo o Apologista Justino, impressionou o senado romano no tempo de Cláudio César e foi para ele erigido uma estátua no Rio Tibre, que cotinha os dizeres: “a Simão, o deus santo.” Essa estátua foi localizada no fim do século XVI.

Foi o Apóstolo Pedro quem, anos depois de encontrar Simão em Samaria pela primeira vez, poria termo à sua obra de engano. Simão esteve em Roma desde Cláudio César, e veio a trabalhar como um propagandista da coorte de Nero. E Pedro seguiu-o a Roma, como já o seguira por toda a parte. Ele queria, entre várias outras coisas, desmascará-lo. E conseguiu, pois Simão morreu fracassando em demonstrar um de seus prodígios (Hipólito de Roma diz que ele se enterrou vivo para imitar a ressurreição de Cristo e desmoralizar os Apóstolos; e os Apócrifos dizem que ele pulou do Fórum romano para demonstrar seus poderes a Nero, em um embate contra Pedro e Paulo). Mas, segundo alguns documentos da Tradição, Simão era protegido de Nero, pelo que foi a humilhação dele diante de Pedro e Paulo que fez com que Nero ordenasse o assassinato desses Apóstolos para vingar a honra do Falso Profeta.

Com todos esses dados, várias coisas registradas no Novo Testamento ficam claras como a água pura. Vejamos por exemplo a exortação do bendito Apóstolo Paulo a Timóteo a respeito dos hereges Himeneu e Fileto: “Os quais se desviaram da verdade , dizendo que a ressurreição era já feita , e perverteram a fé de alguns.”  Vemos que Himineu e Fileto de alguma maneira conheceram e abraçaram uma variação da heresia simoniana que, no século II, Menandro usaria em benefício próprio (com isso indicando que as variações do simonismo fizeram várias escolas). Esses dois homens foram os divulgadores dessa heresia, que perturbou os cristãos em Tessalônica. Um outro exemplo muito interessante é a Epístola do Apóstolo João com esse aviso solene: “Porque já muitos enganadores entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Este tal é o enganador e o anticristo. (…) Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já agora está no mundo.” Uma referência clara a uma das heresias dos simonianos que tiveram como uma de suas bases a Frígia, na Ásia Menor, que também era o campo de trabalho do Apóstolo (São João faleceu em Éfeso).

Se tornam também claríssimas as palavras do Apóstolo Paulo quando ele diz, no tempo de Cláudio César, que embora o Iníquo ainda não tinha sido revelado, o ministério da injustiça já operava (2 Ts 2:1-12). O Apóstolo se referia aos simonianos, especialmente a Simão que fazendo uso de falsos prodígios enganava a muitos em sua época.

Essa injustiça em especial era religiosa e por isso o Apóstolo a considera uma espécie de anti-ministério em contraste ao ministério concedido por Deus aos Seus. O simonismo possui essa característica peculiar de anti-Cristianismo. Pois ele não só é uma representação absolutamente blasfema da Trindade, como também deve se considerar com assombro a coincidência acerca das regiões geográficas que ele atingiu – justamente as mesmas regiões de onde a Igreja floresceu por todo o Império, como se a heresia fosse deliberadamente uma anti-Igreja de natureza subversiva contra a Igreja de Cristo.

Assim o Apocalipse de João de desvela mais e mais. Pois o simbolismo do Falso Profeta (Simão Mago) que, com prodígios demoníacos, faz a estátua da Besta (Nero) falar, é uma referência a um dos sinais que Simão alegava poder realizar, como é relatado nas homílias clementinas e no testemunho de Anastácio, o sinaíta: o poder de animar estátuas. Como os simonianos gozavam de prestígio junto à coorte romana, eles, como pseudo-cristãos, foram um instrumento satânico para constranger e seduzir os verdadeiros cristãos a se renderem ao culto imperial que Nero impôs a todos quando este finalmente investiu contra a Igreja. O Falso Profeta, Simão, precedeu a Besta, Nero, tal como, em notável contraste em termos de dignidade, João Batista precedeu Cristo. E, como bem disse o Apóstolo João, o Falso Profeta saiu do seio da Igreja, embora ele e seus asseclas jamais tenham verdadeiramente pertencido a ela.

O legado do Falso Profeta foi muito mais amplo e duradouro que o trauma acarretado pela Primeira Perseguição Geral sob a Besta. Porque o erro do simonismo demorou séculos para ser lancetado; e deixou, até os nossos dias uma vasta mitologia gnóstica que eventualmente tem incentivado grupos neo-gnósticos a se levantarem contra a Verdade. Na História, séculos após Simão, temos o exemplo dos cátaros, dos templários, etc. E hoje o liberalismo tenta restaurar a todo custo uma imagem falsa e mundana de Cristo, através da estória gnóstica de Cristo e Maria Madalena.

As falsas acusações de licensiosidade e orgias lançadas contra os cristãos pelos pagãos romanos tiveram origem na conduta licensiosa dos simonianos, consequência do ódio que eles nutriam contra a Lei. Os simonianos brandiam a todos que eram cristãos, apesar de serem libertinos. E, com isso, confundiram algumas das autoridades romanas e alguns do povo, fazendo-os com que se lançassem contra os cristãos, quando esses queriam, na verdade, barrar o simonismo.

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