A Besta Imperial Romana

Aqui o sentido, que tem sabedoria. As sete cabeças são sete montes, sobre os quais a mulher está assentada. E são também sete reis; cinco já caíram, e um existe; outro ainda não é vindo; e, quando vier, convém que dure um pouco de tempo. E a besta que era e já não é, é ela também o oitavo, e é dos sete, e vai à perdição.  (Ap 17:11)

O Apocalipse é um livro incrível, cheio de detalhes entre os diversos códigos e simbolismos que foram dados ao Apóstolo João. Um exemplo de código contido no Livro é o nome do Anticristo expresso em número, 666. Este número representa símbolos em hebraico que, traduzidos, significam o nome “Neron Kesar.” O código foi expresso de forma tão inteligente que a letra “n” foi adicionada pelo Apóstolo só para tornar a sua decifração mais difícil. Em tempos de perseguição, essa engenhosidade é muito bem-vinda. Por isso, alguns copistas, em tempos de paz para a Igreja, tornaram esse código mais fácil, expressando-o pelo número 616, que significa exatamente “Nero Kesar” escrito em hebraico, segundo a ortografia correta. E um exemplo de simbolismo no Livro é a cidade que se assenta sobre sete colinas, Roma.

O Livro fala de coisas que, no geral, aconteceriam em pouquíssimo tempo após a publicação dessas revelações (Ap 1:1). Por isso, além da referência numérica a Nero César, que nos força a acreditar que o Livro foi escrito em algum momento entre os anos de 65-67 d.C., o Apóstolo também fala dos cinco reis romanos que o precederam. Devemos reparar que o Império Romano, de fato, foi governado por cinco “chifres” (simbolismo bíblico para chefes de Estado, tais como imperadores ou reis), antes do sexto “chifre,” Nero César, os quais são: Júlio César, Augusto César, Tibério César, Calígula e Cláudio César. O primeiro era ditador (no sentido que os antigos davam à palavra) e os demais, imperadores. Todavia, todos foram “chifres,” reis, conforme o simbolismo bíblico.

A partir desses dados que o simbolismo joanino começa a se desvelar. Nero, um homem horrível, casou-se com Popéia, que era esposa de César Otho. Popéia, segundo os historiadores Flávio Josefo e Ernest Renan, era uma prosélita judia de rito zelote, que, com toda certeza, alienou o imperador Nero contra os cristãos, por instigação dos judeus da época que queriam o extermínio do Cristianismo nascente. Por isso que a Grande Prostituta do Livro, que se embriaga do sangue dos mártires cristãos, só pode ser o povo judeu apóstata da época. “Prostituta” é um termo pejorativo insistentemente lançado por Deus contra o Israel Antigo, sempre que este último caía em apostasia. No caso, o Apóstolo está dizendo que a Prostituta (o Israel incrédulo) aliou-se à Besta (Roma, no governo de Nero) para perseguir os cristãos. E sabemos que Popéia foi a ligação, um objeto inescrupulosamente usado, entre Israel e Roma para a destruição dos cristãos, quando Nero lançou-se contra o Cordeiro a partir de meados dos anos 60 do século I.

Naturalmente sendo o sexto rei, Nero, o sétimo rei é o imperador Galba. É difícil não conceder a Cristo a devida adoração e admiração nesse instante, pois, em um pequeno versículo, Cristo falou do passado (os cinco césares que caíram), do presente (o imperador Nero) e do futuro em relação ao Apóstolo João (o imperador Galba). O Livro fala com assustadora precisão sobre Galba, ao revelar o decreto de Deus para aquele imperador: Galba deveria assumir o Império e governar por pouco tempo, tal como de fato ocorreu. O Senhor Deus castigou o Anticristo com uma terrível guerra civil iniciada por Vindex, leal a Galba. Após a morte de Vindex, Galba cresceu e tomou o poder romano, expulsando Nero e fazendo com que ele, covarde como era, viesse a cometer suicídio em meados de 68 d.C. E, em apenas seis meses, Galba caiu sob César Otho.

Todavia, não podemos nos esquecer que o Livro possui códigos, além dos simbolismos. No contexto imediato do trecho citado no início deste artigo (especialmente Ap 17:16), vemos que a Besta, o Império Romano, odiará a Prostituta, o Israel apóstata, numa clara referência à destruição imposta por Vespasiano a Israel apenas dois anos depois da morte de Nero. O problema, nesse ponto, é que entre Nero e Vespasiano, sabemos que governaram três reis: César Galba, o sétimo; César Otho, o oitavo; e Vitélio Germânico, o nono. Mas Cristo cita apenas dois reis entre Nero e Vespasiano: o sétimo, que sabemos ser Galba;  e um oitavo, que também é a Besta, tal como Nero. Portanto o que esse código quer dizer?

Creio que para decifrar esse enigma é necessário atentarmos cuidadosamente para a frase “… o oitavo… é dos sete [anteriores]…” No meu entender, isso quer dizer que o oitavo “chifre” é, ao menos legalmente, da gens dos sete Césares anteriores. Isto é, ele porta por direito, segundo o costume antigo, o sobrenome de César. E, dessa feita, o enigma está solucionado: quem não está sendo contado é o imperador Vitélio porque este não adotou o sobrenome César, denominando-se antes de “Germânico.” Assim, Cristo está se referindo aos nove Césares: cinco já caíram, Nero vive (à época do Apóstolo), e se seguirão a eles, Galba e Otho. Depois a Besta, por intermédio de Vespasiano, que recebeu a concórdia dos dez reis das dez províncias romanas após o término da guerra civil, destruirá a Prostituta, o Israel apóstata.

E assim o Livro se desvela. Pois Otho realmente merecia ser chamado de Anticristo, à maneira como Nero foi chamado. Otho era companheiro de orgias de Nero e quando este último matou sua própria mãe Agripina, Otho foi cúmplice, como nos revela o historiador pagão Suetônio. Embora Nero forçasse Otho ao exílio porque ambos brigaram por Popéia em um vil triângulo amoroso, quando Nero morreu, de maneira alguma Otho se arrependeu do mal que fizera contra Deus. Pelo contrário, uma vez instalado no poder do Império pela força das legiões que foram outrora fiéis a Nero, procurou restaurar e honrar em profunda idolatria a memória do Anticristo. Ele reintegrou os funcionários de Nero aos seus postos e terminou a Casa de Ouro, residência de Nero. Diante de todas essas coisas, não é incompreensível que o Cordeiro o tenha destruído rapidamente, em apenas dois meses após sua ascensão. E quando Otho caiu, oitenta mil cidadãos romanos morreram com ele, no embate contra Vitélio. E após a queda de Vitélio pelas mãos de Vespasiano, Israel que havia crucificado o Senhor, caiu. Dessa maneira o Cordeiro vingou o sangue de Seus mártires.

Em suma, Cristo decretou que antes do Anticristo o Império Romano seria governado por cinco césares atrozes. Então, após os cinco, viria o Anticristo, Nero, insuflado pelos judeus a perseguir os cristãos por intermédio de Popéia. Em seguida, Cristo julgaria os crimes de Nero, endurecendo seu coração para que, pelo medo, se suicidasse. Enfim, Deus derribou o Império Romano em uma sangrenta guerra civil, vingando assim os mártires que morreram sob Nero, incluíndo os célebres Apóstolos Paulo e Pedro. Terminada a guerra civil e restabelecida a concórdia nas dez províncias, Vespasiano desferiu o golpe final na Grande Prostituta, Israel, servindo assim como o martelo de Deus contra aqueles que se apostataram ao rejeitar a Cristo.

Essa é a mensagem do Livro: o Senhor governa absolutamente tudo, até mesmo as tiranias e o mal que os tiranos fazem, pois Ele diz, pela boca do Apóstolo: “porque Deus tem posto em seus corações, que cumpram o seu intento…” O Senhor fez justiça aos Seus. Bendito seja o Senhor e Seu Filho.

Veja: O Falso Profeta

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