A Megalomania Religiosa

(Origem)

No artigo sobre a Igreja Império Geração Jesus Cristo, citei que a falsa profecia pode ser, entre outras coisas, um indício de pura megalomania (e daí ser o sintoma de algo pior como a esquizofrenia). Um indicativo bíblico forte dessa característica psicológica é este trecho do livro do profeta Jeremias:

“Até quando sucederá isso no coração dos profetas que profetizam mentiras, e que só profetizam do engano do seu coração?” (Jr 23:26)

Porém, geralmente, associamos a característica de megalomania com sonhos meramente seculares. É mais comum associarmos a mania de grandeza com desejos em relação ao poder temporal (como no caso do esquizofrênico John Nash), ou à carreira artística, ou à carreira profissional, ou ainda em relação a como o enfermo se vê socialmente. E esse costume acaba por escurecer as manifestações de manias de grandeza de cunho religioso.

Para que tal manifestação possa ser identificada, é imperativo entendermos que (primeiramente o óbvio) a megalomania é um sentimento que o apóstata infere a partir de um ponto de vista que lhe é peculiar, seu, não sendo, necessariamente, compartilhado por um terceiro. Esclareçamos: pode não ser de nenhuma valia para nós que uma pessoa humilde claramente inculta pregue em um púlpito para dezenas ou centenas de pessoas, embora a Bíblia proíba que ignorantes ensinem à Igreja. Porém, para esse pregador, o gesto pode lhe parecer um sinal de prestígio devido ao seu desejo pessoal de consagração perante Deus concomitante com um desejo de reverência pública pela comunidade a si mesmo.

E ademais, para identificarmos a megalomania, é necessário compreendermos a cosmovisão religiosa do apóstata. Só assim visualizaremos o fundamento de sua mania de grandeza.

Na cosmovisão pentecostal existem duas classes de crédulos: a massa dos batizados no Espírito Santo e a massa dos não-batizados. Na massa dos batizados, existe uma hierarquia de profetas, líderes eclesiásticos e obreiros cada um diferenciado entre si pelo nível de “unção” que possuem, isto é, a intensidade pela qual Deus supostamente age através de cada um. Isso explica porque há uma fantástica migração de crédulos entre as igrejas pentecostais, pois, ainda que não o admitam formalmente, agradam-se em deixar seus líderes de costume a procura de um onde Deus supostamente age com mais vigor e notabilidade.

Como a unção que procuram é advinda de um exercício constante de orações pelo “mover” do Espírito Santo e de uma constante auto-negação por uma santificação (peculiarmente entendida por eles), deduz-se que a unção em um crédulo batizado é a expressão de sua intimidade com Deus.

Daí já temos os primeiros fundamentos da megalomania religiosa desses pretensos profetas: uma vez ungidos, vêem a si mesmos como canais de ação do Onipotente. Canais cujo poder pessoal é atestado por provas de sua santificação em seus próprios procederes públicos. Curioso que a questão de um determinado símbolo ser um canal de ação do Senhor é justamente a definição de Sacramento. Assim, metaforicamente, é como se o profeta, uma vez ungido, viesse a se tornar um sacramento vivo. E como é evidente que um profeta não o é para si mesmo, mas para os seus ouvintes; e sendo supostamente um canal de poder sobrenatural, é lógico admitir que deverá receber como tal a reverência.

Se um pretenso profeta que consegue para si a atenção de milhares de pessoas e dá “provas” de sua unção à vista de todos e ainda recebe de seus seguidores uma sobeja reverência, torna-se compreensível o porquê de tantos pentecostais manifestarem dons de profecia. Um profeta para um pentecostal é o mesmo que um astronauta ou um atleta famoso para um infante. Na era do profeta Jeremias, um falso profeta costumava receber altas honrarias estatais (e isso é valiossíssimo quando a fome grassa no país e o medo da ameaça de guerra contra potências estrangeiras estrangula o espírito humano, como no caso do Israel Antigo).

Não é de se admirar que a adulação de milhares e as supostas provas de ação divina por meio do pretenso profeta o encoraje, como alguns já o tem feito, a intitular-se apóstolo, paipóstolo, etc. E como há profetisas que também possuem essa unção, é lógico que haverão pastoras, apostolisas e bispas, embora a Palavra de Deus declare que são cúmplices de Jezabel aquelas que ousem ensinar em autoridade à Igreja (1Co 14:34, Ap 2:20).

Além de ser concedido o supremo bem da aprovação de Deus, um profeta, para um pentecostal, recebe uma outra honra: ele torna-se incontestável. Pois se ele é profeta, questionar a origem supostamente divina de suas revelações e poderes é blasfemar publicamente contra o Espírito Santo que o pretenso clama habitar em si. É por isso que tem sido conveniente a alguns líderes religiosos o ensino de que um profeta não pode ser contestado, pois isso é “tocar no ungido do Senhor.” Alguns usam a história de Abraão para rogar pragas e maldições contra aqueles que se lhes opõe sob a fórmula: “maldito sejam os que se levantam contra ti.”

Receber essa suposta aprovação do Todo-Poderoso, e vê-la resultar na adulação e reverência pública de milhares; ver o crescimento de seu ministério em termos de números de adeptos e poder financeiro; e ter a consciência de que seus discursos merecem inconteste adesão é um perfeito fundamento para a mania de grandeza. Essa é uma característica comumente encontrada em grandes tiranos, com a diferença de que a autoridade deles não é religiosa, mas militar. Entretanto, o poder que tanto os tiranos quanto os líderes carismáticos possuem em influenciar e dirigir a vida privada de seus seguidores (civis ou religiosos) é igualmente abrangente.

É sob esse aspecto que a megalomania religiosa deve ser encarada. E deve-se considerar que o ambiente pentecostal não só favorece o florescimento desse tipo de sentimento, como o incentiva de tal modo que o megalômano não tem parâmetros alternativos para visualizar sua verdadeira condição. Porque esse ambiente é inerente à falsa doutrina pentecostal de contemporaneidade dos dons.

(A falsa profecia na Lei)

Nos nossos dias temos visto falsos profetas arrastarem para si milhões de pessoas. E falsas idéias nas mãos de pessoas carismáticas podem levar gerações de incontáveis famílias ao erro. E qualquer que seja o erro, ele impacta de tal forma na qualidade de vida do aprendiz que não são poucos os que são literalmente tiranizados por seus líderes gananciosos fora os danos menores que os equívocos sempre causam.

Diante de tais frutos, não é supreendente que a Bíblia prescreva a morte para quem profetiza falsamente (Dt 18:20-22). A falsa profecia é um crime de blasfêmia gravíssimo, de tal modo que é penalizado da mesma forma que os crimes de seqüestro, estupro, assassinato, etc. Um falso profeta, do ponto de vista da Lei, não é melhor que um assassino, um seqüestrador, um estuprador, etc.

É importante esclarecer um aspecto: ao nos referirmos à justiça da morte de um falso profeta, não queremos aqui advogar a justiça com as próprias mãos. Muito pelo contrário, a prescrição da morte não é um direito do cidadão privado, que se tal tomâ-lo para si estará, basicamente, declarando guerra a um governo legítimo por meio de ímpia usurpação. Porém o que dizemos é uma referência ao direito que um Estado possui de interferir na (assim entendida pelo Humanismo) liberdade religiosa de uma religião que tolera ou incentiva esse tipo de crime. O Estado possui sim o direito divino de capturar, processar e condenar tais pessoas, bem como possui o direito igualmente legítimo de combater a heresia. Porque a correta liberdade de consciência, assim entendida pelos Reformadores, é o direito do homem de cultuar a Verdade e praticar a justiça sem qualquer constrangimento. O direito de errar (propositadamente) tal defendido pelo liberalismo é um absurdo autocontraditório.

Hoje é tal o laxismo em relação à determinadas práticas religiosas e às idéias subversivas que, por fim, a verdade é praticada no Ocidente com constrangimento, enquanto que a mentira tem sido exaltada como padrão. E no Oriente a mentira tem sido doutrina religiosa oficial por milênios, enquanto a Verdade é proibida de ser proclamada. O laxismo estatal trazida pelo laicismo é a verdadeira causa de inúmeras divisões religiosas na Cristandade, bem como do sucesso das idéias subversivas em causarem uma queda moral generalizada em todo o Ocidente. De Deus não se zomba.

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