A Igreja Império Geração Jesus Cristo

(Sobre a igreja)

Recentemente, um adepto e o pastor da Igreja Império Geração Jesus Cristo foram presos sob acusação de racismo (motivada por preconceito religioso) contra praticantes de religiões pagãs de origem africana. O crime que teriam cometido é o de postarem ofensas contra praticantes de ubanda e camdomblé na Internet. A confissão do próprio membro dessa igreja serviu como uma das provas do crime que supostamente cometeram.

O aspecto mais curioso desse caso não é o fato de esse ser a primeira prisão de pessoas por intolerância religiosa no Brasil (foram presos por um crime de opinião, para ser mais claro, tais como os crimes de blasfêmia). Mas sim o próprio caráter peculiar da Igreja Império Geração Jesus Cristo.

Na confissão desse membro da Geração temos o relato de que ele e mais três companheiros teriam deliberadamente quebrado os ídolos e instrumentos de culto dos adeptos de uma seita pagã em um acesso de zelo religioso, fato que ocorreu em meados de 2008. Prática que não é nova, decerto (lembremo-nos de São Bonifácio, missionário da Germânia). Ademais, junto com o relato, o rapaz dirige insultos aos magistrados civis, intitulando-os de “servos do Diabo.” E é aqui que temos o detalhe realmente interessante.

O pastor da Geração, que foi preso junto com o rapaz, é de estirpe pentecostal. Mas ele não é um evangélico pentecostal comum. Ele, ao contrário dos pentecostais, possui um pensamento político muito peculiar.

Em suas pregações, o pastor defende que é pecado o Estado promulgar leis que se sobreponham à Lei (o Antigo Testamento interpretado cristocentricamente), ainda que em concorde. E mais: ele defende que as autoridades civis estão usurpando a soberania da igreja, a verdadeira detentora do direito de governo, já que o Legislador, Cristo, concedeu Sua Lei à ela. Ele até adotou uma espécie de lema: “Bíblia sim, Constituição não!”

É um argumento muito interessante e confesso que fiquei inicialmente extasiado com a idéia. E, com afinco, procurei saber um pouco mais dessa igreja.

A Geração é uma igreja de teologia dispensacionalista e arminiana, embora sua ênfase na palavra “restauração” pudesse sugerir um pós-milenismo reconstrucionista. E, embora considere que as autoridades civis são servas do Diabo, não faz disso uma chamada às armas. Em suas pregações, procura fazer com que seus seguidores cultivem para si uma disposição mental de mártires pacíficos, marginalizados e completamente separados do mundo que jaz no maligno. A cosmovisão do pastor é radicalmente dualista, assemelhando-se à incontável maioria dos evangélicos, só que ainda mais extremista porque diz que aqueles que se envolvem com o processo político secular em detrimento dos ministérios sacros, estão se preparando para abraçar o Anticristo e sua “Constituição.”

O pastor, como um verdadeiro pentecostal, é um pretenso profeta. A sua peculiar teologia teria sido, supostamente, recebida pelo próprio Cristo em revelação. O próprio Cristo teria dito que ele não poderia recebê-la de todo, pois a revelação traria um idéia tão nova, como já é notável pelo sumário acima, que o pastor não a suportaria. Por isso a revelação foi dada aos poucos, segundo o pastor.

O ministério da Geração consistiria, portanto, em levar aos evangélicos essa visão antinomianista a fim de que os ouvintes do pastor aprendessem a desejar e a considerar a Teocracia sacerdotal no Milênio como seu verdadeiro ideal. Na teologia da Geração somente um governo sacerdotal diretamente constituído pela boca de Deus teria legitimidade em si. E o pastor tem como seu campo missionário uma das mais famosas Igrejas Assembléias de Deus no Brasil: a Assembléia de Deus da Penha, onde o Pr. Silas Malafaia figura como membro. O pastor costuma distribuir CDs aos membros daquela igreja e, segundo o próprio, já provocou a preocupação de seus líderes. A Geração também costuma a evangelizar os membros da IURD no Rio de Janeiro.

Para nós protestantes, o conjunto de idéias que a Geração traz leva-nos a um desagradável sentimento de deja vú. A idéia desse pastor não é original. É uma repetição fiel e monótona das heresias anabatistas que levaram a Alemanha a uma guerra civil no século XVI. Os anabatistas iniciaram-se pacíficos e radicalmente separados das autoridades, mas tão logo os supostos profetas clamaram, se tornaram violentos revolucionários e levaram seus princípios comunais e polígamos a Münster, naquele país. Eles impuseram o terror e a pilhagem às populações alemãs e o martírio às mulheres piedosas que se recusaram  a se dobrar à poligamia. Conseguiram instituir uma Teocracia, mas os próprios anabatistas não suportaram os resultados de seus crimes e da miséria que provocaram e entregaram os seus próprios lideres às autoridades alemãs que dignamente os enforcaram.

Entretanto, o pastor traz algo mais.

Nós que somos protestantes (e não temos parte com os evangélicos, é bom reiterar) estimamos muito os magistrados civis. Consideramo-os em mesma estima que os nossos presbíteros, pois dizem as Escrituras que eles são ministros de Deus, ordenados pelo Senhor. E a origem de nosso apreço por eles é, especialmente, a Espístola aos Romanos, escrita pelo apóstolo Paulo. Lá ele nos ensina, inspirado por Cristo (o verdadeiro e não o “cristo” de certos profetas), a respeitar as nossas autoridades e a pagar-lhes tributo, porque o Soberano Senhor é quem coloca os reis em seus tronos seja para o bem daqueles que O agradam ou para o castigo dos impenitentes através das tiranias.

Como então o pastor foge de uma orientação tão clara das Escrituras Sagradas?

Simples: ele rejeita publicamente a inerrância e a canonicidade de toda a Escritura neo-testamentária, com a exceção dos Evangelhos. Isso para dizer o menos pois, segundo o pastor, as Escrituras divinas seriam somente o Antigo Testamento e os Evangelhos; e o apóstolo Paulo seria um homem mentiroso e contradizente. Diante disso, a única coisa que se pode fazer é simplesmente ignorar. Pois tal idéia é absolutamente ridícula.

Outra característica interessante da Geração é um fenômeno pisquiátrico muito freqüente entre os ministérios apostólicos neopentecostais: a megalomania. Em uma das postagem dos blogs da Geração, somos levados a conhecer uma profecia, por assim dizer, onde nos é revelado que a Geração foi instituída por Deus para servir de principal resistência cristã global (sic) à União Européia, o futuro império do Anticristo, que será derrotado para dar lugar a uma nova Teocracia global liderada pela Geração.

É impossível, tendo em vista essa constatação hilária, não nos lembrarmos de alguns pretensos apóstolos na igreja evangélica que consideram-se uma espécie de “padroeiros do Brasil.” É impossível não nos lembrarmos do matemático John Nash e seus surtos de esquizofrenia, quando, nos seus sofrimentos, considerava-se “imperador da Antártica.” Ao menos, Nash recebia tratamento psiquiátrico. Já os demais citados não só não são questionados em suas excentricidades, como possuem milhares de alegres e fiéis seguidores. A megalomania e as alucinações auditivas e visuais são sintomas de esquizofrenia. Todavia as Escrituras Sagradas ensinam que a loucura é uma das punições de Deus contra aqueles que O desagradam quando nutrem idéias vãs sobre Ele (Dt 28:28). Assim não é coisa incrível para nós protestantes que tal seja o estado dos líderes da religião evangélica.

(Sobre as denúncias contra o Estado)

A verdade bíblica é que todos os Estados derivam sua autoridade do próprio Deus que os institui. Lembremo-nos das palavras de Cristo a Pilatos: “Tu não terias autoridade sobre mim se ela não te fosse dada do alto.” Sejam os Estados tirânicos ou legítimos, eles servem aos propósitos de Deus na História protagonizada por Seu Filho. Todavia, embora seja o ideal de Cristo que todos os reis e nações venham a honrá-Lo como proclama a esperança pós-milenista reformada, um Estado é legítimo quando, apesar de suas crenças religiosas oficiais, suas leis punem os criminosos de uma forma compatível com a Lei.

Lembremos que o apóstolo Paulo, ao escrever sua Epístola aos Romanos, louvou o Império Romano, quando ainda o Império tinha o paganismo como religião oficial. Entretanto, embora o Império Romano estivesse longe do ideal dos economistas liberais, ao menos, vários crimes definidos pela Lei eram considerados crimes no Direito Romano e eram punidos conforme a recomendação bíblica. O Império Romano na época da confecção da Epístola (era que precedeu Nero, o verdadeiro anticristo citado pela Bíblia) até protegia as igrejas contra a sedição dos judeus em algumas situações. Por isso, apesar de tudo, o Evangelho pôde prosperar.

A Bíblia recomenda que um Estado seja limitado. Mas não necessariamente condiciona sua legimidade ao seu tamanho. A legitimidade de um Estado é condicionada não pela sua forma de governo ou pela sua abrangência, mas sim pelos crimes que ele persegue e como ele os pune. Muitos Estados democráticos do Ocidente são benignos em termos de participação popular, mas, pela violência que grassa em suas fronteiras geográficas, somos levados pelos fatos a concluir que, embora democráticos, não cumprem seu dever fundamental. É por isso também que vemos a derrocada moral do Ocidente: porque os Estados, se recusando a punir os crimes em conformidade com a Bíblia, acabam permitindo que os crimes cresçam (inclusive aqueles crimes que, contra a Bíblia, costumamos a considerá-los como meros “estilos de vida”). A derrocada moral do Ocidente acontece não porque é o fim dos tempos. Mas, simplesmente porque, se o homem possui uma tendência implacável para o mal e se ele não tiver meios que o obriguem a temer as conseqüências do mal, o castigo estatal, ele haverá de seguir sua natureza.

Por outro lado, ainda que um Estado seja legítimo, há um tipo ideal de governo, um governo que de fato agrada a Deus. Esse governo é o governo descrito pela Confissão de Westminster: um governo que não está separado da Religião Verdadeira e que considera a Lei de Cristo como suprema jurisprudência e cujos magistrados são membros comungantes da Igreja. É esse governo que todo protestante da era de ouro no século XIX almejava. E é isso que os reconstrucionistas buscam e é essa a esperança pós-milenista.

Esse desejo não é estranho à Cristandade. Foi assim com o Império Bizantino, o Sacro Império Romano-Germânico, o Império Russo, a Prússia, a Suiça, a Escandinávia, o Império Britânico, etc. Esse é o tipo de ideal que deve triunfar no mundo.

(Sobre a teologia da igreja)

Tipos como os adeptos da Geração e os apóstolos da religião evangélica crescem porque confundem o princípio protestante de “livre exame” com “livre intrepretação.” Livre exame é o direito de se estudar em linguagem vernácula a Bíblia, as fontes de pesquisa dos teólogos, a história da igreja, a filosofia, etc. Mas não é o direito de propor uma conclusão diferente da Verdade, através de uma interpretação unilateral. São dignamente louvados com os bereanos perante o Senhor aqueles que com boa vontade querem aprender e abraçar a verdade e as suas nuancias através de um exame zeloso e humilde. Mas são anátemas aqueles que, precipitamente, abraçam uma interpretação nova que constitua uma mentira sobre Deus.

Assim um problema fundamental da teologia pentecostal é a pretensa atualidade dos dons de profecia que todo o tempo traz inovações ilícitas. É essa idéia e a ausência de uma legislação estatal que puna os verdadeiros crimes de blasfêmia (a falsa profecia também é um crime de blasfêmia que, segundo a Lei, exige punição) que tem gerado esse estado de coisas. Sabemos que tais coisas existem porque o engano generalizado é um meio pelo qual o Senhor Jesus mostra sua ira contra os réprobos. E esse estado de decadência vem desde o incorretamente chamado de Segundo Grande Avivamento, quando o arminianismo consolidou-se em toda a Cristandade Ocidental. O arminianismo é uma rejeição da Soberania e o Governo eterno de Deus. É irreverência religiosa.

E um grande fator catalisador dessa irreverência é a Escatologia Dispensacionalista. Ela é a causa do dualismo maligno que aflige a mente de muitos cristãos, que praticamente ojerizam as coisas criadas.

Essas são as coisas que precisam ser reformadas. E enquanto essas coisas não forem reformadas, veremos cada vez mais a oposição às crenças pagãs e aos estilos de vidas condenáveis como um crime de blasfêmia como uma assombrosa ironia das coisas, pois de Deus não se zomba. A irreverência religiosa leva a esse estado lamentável de inversões de valores.

(Conclusão)

Todavia, é legítimo que o poder público esteja vigilante quanto a Geração, pois, sem dúvida, seu discurso é claramente subversivo.

Ademais, o pastor não merece crédito porque além das bobagens que diz, é um homem recasado que defende o livre recasamento. O divórcio, não é necessário dizê-lo, é odioso a Deus. E, como tal, esse homem não é qualificado para o episcopado.

(Recomendação)

É do Estado o direito exclusivo do uso da força. Aos cidadãos é permitido somente o uso da força em legítima defesa. Assim não nos é dado o direito, na qualidade de cidadãos privados, de, por livre iniciativa, danificar os templos alheios, mesmo que pagãos. Esse direito pertence ao Estado composto por uma Religião Oficial, que deve delegar oficialmente a um corpo militar a responsabilidade da supressão da heresia por uso da força. Todavia, para que tal Estado seja restaurado, é necessário uma rejeição da doutrina laica.

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