Como o Senhor Deus Foi Compreendido por Alguns Filósofos Gregos

Em sua “Petição em Favor dos Cristãos” dirigida ao imperadores romanos Marco Aurélio Antonino e Lúcio Aurélio Cômodo, Atenágoras, filósofo versado e apologista cristão, relata o que os filósofos gregos conseguiram aprender sobre Deus por si próprios (conforme, segundo o próprio Atenágoras, o “sopro de sabedoria” que Deus lhes concedeu).

O feito dos filósofos em identificar alguns dos atributos de Deus é admirável, especialmente considerando o contexto em que viveram: uma sociedade politeísta com deuses corpóreos, dissolutos, passionais, horrendos e, às vezes, mortais. Embora Taciano tenha denunciado que tal feito fora possível porque os filósofos aprenderam dos hebreus sem lhes dar o devido crédito, ainda assim, é difícil não se admirar.

Atenágoras apelou aos imperadores para que esses intervissem em favor dos cristãos que estavam sendo acusados, entre outras coisas, de ateísmo pelos populares romanos. E, tomando ciência da denúncia, os tribunos sequer tomavam depoimento deles, antes preferindo que fossem mortos ou torturados apenas por se apresentarem como cristãos. Atenágoras, em face a essa injustiça, montou uma complexa apologia, com vista a refutar as acusações que os cristãos sofriam e ainda pedir aos imperadores que tais fossem julgados conforme a lei do império, como todos os demais súditos, e não pelo ímpeto do clamor popular.

Em sua refutação da acusação de ateísmo lançada contra os cristãos, Atenágoras lembra que os próprios filósofos gregos (alguns considerados deuses pelos romanos) especularam sobre Deus, por vezes ridicularizando os deuses municipais, sem serem acusados de ateísmo por tal ousadia.

O filósofo Eurípedes compreendeu que a realidade da Criação, em contraste aos deuses gregos, era uma manifestação dAquele que estava oculto, a quem chamou de Zeus (pedindo para que Zeus fosse tomado como Deus). Eurípedes percebeu a unicidade da divindade. Sófocles concorda com ele, dizendo expressamente: “Um, em verdade, um só é Deus que fabricou o céu e a vasta terra.”

Filolao demonstrou que, além de uno, Deus estava acima da matéria (uma idéia inédita, que contrariava a Teogonia de Hesíodo e, ainda, o conceito de deuses segundo a religião dos lares). Platão deu a entender que Deus é eterno, incriado e uno. E embora o filósofo reconheça os astros como deuses, afirma que são deuses inferiores criados pelo Criador e Pai. Aristóteles limita Deus e adiciona características que Lhe são estranhas, mas reconhece que Ele é o princípio de tudo. Os estóicos seguem a Sófocles afirmando que Deus é uno, embora em múltiplas denominações. Entre outros exemplos omitidos por Atenágoras, como o filósofo Sócrates.

A “Petição” prossegue abordando vários outros tópicos interessantes, entre os quais, a demonstração lógica do monoteísmo como uma religião da ciência (i.e. da razão, da mente). Por ora, basta a citação.

A acusação de ateísmo era motivada pela recusa dos cristãos em sacrificar a Deus, já que o sacrifício de Cristo tornava os sacrifícios ordinários não só desnecessários como também blasfemos. E as religiões municipais, bem como o Judaísmo antigo, eram religiões com vários formalismos litúrgicos (ritos secretos, sacrifícios de sangue, procissões solenes, etc) conduzidos por castas sacerdotais. E o Cristianismo nascente não possuía esses sinais externos, aparentes, de adoração, o que levava o popular a pensar que o cristão era um ateu. Todavia, é evidente, tratava-se de uma calúnia.

Anúncios

Os comentários estão desativados.