Um Epílogo para “A Cidade Antiga”

Há duas coisas que percebi no relato da História Ítalo-Grega por Fustel de Coulanges. É o que segue.

Houve sim uma antiga experiência de uma secularização da política, o Ocidente moderno não está só nessa experiência. Óbvio que essa secularização não chegou às raias do ateísmo estatal que sofremos hoje em dia, a tal ponto de os religiosos não tem o acesso à pesquisa científica e aos tribunais só por serem cristãos. O nível de nosso secularismo é inédito na História humana, decerto. Mas houve uma arvesão à religião no antigo.

Entretanto, mesmo sob o politeísmo demoníaco, a aversão à religião piorou a situação dos ítalos-gregos. Como exemplo, os escravos dos antigos eram obrigatoriamente iniciados na religião do fogo sagrado e tinham direitos na pessoa de seu senhor, podendo, por exemplo, recorrer aos tribunais em defesa própria. Eles eram qualificados como clientes. Com a secularização da religião greco-romana, a clientela perdeu seu caráter sagrado e seu status jurídico deteriorou-se em escravidão selvagem. Outro exemplo, foi o elemento desagregador que o secularismo político introduziu a ponto dos cidadãos antigos perderem completamente a noção religiosa de patriotismo municipal que nutriam.

Decerto o socialismo russo é legitimamente uma herança desse secularismo greco-romano, pois as guerras civis carniceiras em torno de classes sociais começaram a partir de Sólon, com a dessacralização das instituições municipais. E mais curioso ainda, os pobres sempre estiveram ao lado dos tiranos que falavam em nome da democracia, exatamente como no caso dos golpistas comunistas e seus “Guias Geniais.” Desse ponto de vista, por mais irônico que seja, é perfeitamente correto as tiranias socialistas denominarem-se como “Repúblicas Democráticas Populares.” De fato a história greco-romano as corroba.

É por isso que o secularismo é de fato a ideologia mais danosa e destruidora que a humanidade já concebeu. Não importa sobre qual sociedade ela se abata (politeísmo antigo, monoteísta judaica-cristã, budista, confuciana, etc), os resultados são incrivelmente parecidos: espoliação, desagregação e guerra civil. O ateísmo estatal, como se vê é o mais mortífero de todos, pois seu elemento desagregador leva ao mais completo niilismo.

Embora existam excelentes estudiosos do fenônemo revolucionário, cada qual com suas teses, eu compreendo que a violência desse fenômeno decorre da redução da concepção da realidade. As pessoas tendem a aspirar às coisas acima de si próprias, ampliando a concepção da realidade para limites muitas vezes invisíveis. E o fenômeno revolucionário vem para destruir justamente isso: a irresistível tendência das pessoas aspirarem às coisas imateriais. Assim foi na antiga Grécia, na China moderna, na Rússia ortodoxa, na Alemanha protestante, no Camboja budista, no México católico, etc. Países diferentes, religiões diferentes, mas um só e mesmo fenômeno revolucionário produzindo os mesmos resultados de anarquia selvagem seguida pela tirania violenta, e motivada pela mesmíssima alienação das mentes na realidade material e mesquinha do “igualitarismo social.”

Veja:

O Conceito de Deus pelos Gregos

O Caráter de Alguns dos Deuses Gregos

Como o Senhor Deus Foi Compreendido por Alguns Filósofos Gregos
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