O Início do Império Romano e o Fim da “Cidade Antiga”

Para quem acompanhou os nossos estudos de “A Cidade Antiga” do historiador Fustel de Coulanges, pode, talvez, ter percebido uma aparente contradição minha. Eu havia afirmado que o politeísmo não pôde criar um sistema de crenças que dignifica o homem, tal como a Religião Revelada, a Judaica-Cristã. Entretanto, no fim do artigo, eu havia indicado uma conquista que alguns plebeus lograram: a igualdade dos direitos civis.

Ocorre que eu não havia mencionado um detalhe, que agora estudaremos nessa seção. E foi justamente esse detalhe que trouxe ao mundo o Império Romano.

Como vimos, a religião é quem conferia direitos civis ao cidadão. A religião do fogo sagrado era privilégio de uns poucos instruídos, pessoas de sangue-puro, que formavam uma casta sacerdotal de onde vinha o seu direito e cidadania. Com a cunhagem da moeda e o florescimento do comércio, os bastardos da religião do fogo sagrado, que outrora não tinham nenhum direito e estavam excluídos do culto politeísta da cidade, começaram a prosperar. E, de forma crescente, seu poder econômico influiu nos eventos, até que a noção de casta sacerdotal por direito de nascimento fosse substituída por uma casta por direito de riqueza. A cidania, a partir de então, foi em função da riqueza.

Mas, ao contrário das aparências, isso não implicou em uma evolução. Embora outras pessoas tenham adentrado no culto municipal pelo seu mérito de trabalho, o preço dessa inclusão foi a dessacralização da religião municipal. A riqueza trouxe novas pessoas ao culto, mas, em uma versão muito peculiar do nosso secularismo, dessacralizou-o.

A dessacralização do culto foi uma necessidade lógica da inclusão dos plebeus ricos à cidadania municipal. Se a religião era a origem de sua indignidade, era a religião que precisava mudar para que esses plebeus adentrassem no culto. Por isso que a religião viu seu poder diminuir. Entretanto, como se pode ver no Comunismo e em outras tiranias seculares da História, a dessacralização da religião, qualquer que seja ela, torna os homens cínicos e sem freios. Vejamos como isso se deu.

Na Antiguidade, não havia a noção de direitos individuais. O homem vivia para a religião e à satisfação de seus deuses irascíveis e mesquinhos, bem como ao Estado, que era uma extensão dessa religião. Tal como o homem devia dedicar sua vida para alimentar seus deuses familiares com oferendas a fim de evitar catástrofes pessoais, o cidadão dedicava dias de sua vida aos assuntos do Estado. Ele não podia interpor-se ao seu dever sagrado e religioso de cidadão, tal como não podia interpor-se ao culto de seus deuses familiares; era inconcebível que a dignidade humana pudesse estar acima dos interesses do Estado.

As cidades-estado greco-romanas eram democracias em um sentido muito mais amplo que experimentamos. Um cidadão podia, na época, exercer várias funções quando eleito pelos seus concidadão: magistrado, sacerdote, militar, etc. Mas observe: ele não podia dizer não à sua convocação.

Como demorou-se séculos para que muitas dessas funções recebessem remuneração, pode-se ver que a cidadania, embora revestida de poderes democraticamente outorgados, era uma verdadeira escravidão. Assim, podemos imaginar como as coisas ocorriam nas cidades greco-romanas: os plebeus e alguns da antiga casta sagrada que empreendiam, ganhavam dinheiro pelo seu trabalho (inclusive fazendo uso de escravos) e enriqueciam. Esses eram a nova aristocracia. Em contrapartida, os demais cidadãos, que desprezavam o trabalho por ser este coisa de escravos e plebeus arreligiosos, sem receber dinheiro pelas responsabilidades que recebiam (que, além de tudo, impedia-o de fazer outra coisa), empobreciam dia-a-dia.

Era evidente que tal situação era instável e o ambiente institucional greco-romano, que não oferecia nenhuma proteção à propriedade privada contra o Estado, a piorou muito.

Os que foram empobrecendo e perdendo seu prestígio, aliaram-se a outros plebeus pobres e, moídos de inveja da nova aristocracia, passaram a usar os seus poderes outorgados pela democracia para expropriá-los com violência crescente. Por seu turno, quando os ricos logravam recuperar o poder (seja pela força, ou por que foram eleitos), usavam o poder do Estado para se vingar, também com violência recrudescente. É incrível constatar essas coisas, mas por três séculos desde Sólon, a Grécia foi fustigada por esse tipo de guerra civil.

E não só Atenas sofreu. Todos os povos greco-romanos que compartilhavam desse sistema democrático, de Esparta a Mileto, de Mégara a Lácio, padeceram esses males.

O antigo havia perdido o respeito religioso que nutria pelas castas e pela cidade. Com a dessacralização da religião patriarcal para o benefício da plebe, criou-se uma brecha para que o respeito incondicional pela cidade e suas instituições fosse substituído pela inveja e pelo partidarismo traiçoeiro. Dessa feita, a democracia greco-romana degenerou em dois partidos: os ricos em uma violenta oligarquia. E os pobres em uma não menos violenta tirania. Citamos alguns tiranos no artigo anterior que apareceram nesse período conturbado.

Essa crise que durou séculos só terminou quando Roma se impôs como um poder imperial, em apoio ao partido da aristocracia contra os tiranos democráticos em toda a Itália e Grécia, sendo famosa a guerra que esta travou contra Cártago, aliado ao tirano de Siracusa. Roma cresceu porque, muito diferente do que se costumava fazer na Antiguidade, ela concedia cidadania aos aristocratas das cidades subvertidas pelos tiranos democráticos (o que fazia aumentar a sua população) e adotava seus deuses; e, claro, os costumes haviam mudado na mente do antigo, já que sua visão, influenciado pelo partidarismo, já não mais se restringia à sua cidade. Ele já era capaz de ignorar os antigos deuses familiares, em prol de deuses mais transcendentes.

Veja: Um Epílogo para “A Cidade Antiga”

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