A Plebe Greco-Romana

Discutimos no artigo anterior que o monoteismo judeo-cristão proporcionou um estado social que não pôde ser igualado pelas sociedades pagãs greco-romanas por séculos. Prossigamos.

A religião do fogo sagrado havia sido basicamente concebida como uma religião hereditária entre famílias que tinham o suficiente preparo para criar e transmitir suas próprias tradições e cultos. Era, basicamente (embora não essencialmente), uma religião de sangue puro, assim como o paganismo nazista.

O solo da família era seu templo sagrado, repassado de geração em geração. A propriedade não podia ser vendida e negociada, senão depois de séculos, quando a mentalidade greco-romana passou a lentamente a mudar sua fé. De semelhante forma, a lei municipal era produto da religião, como um conjunto de fórmulas mágicas a trazer o favor dos deuses a uma determinada parte demandante. Só existia portanto a organização social como resultado da religião e de seus sacerdotes, todos provindos de uma determinada tribo de linhagem antiga.

A religião do fogo sagrado não era, portanto, um obra para qualquer pessoa. Nem todos eram capazes de manter uma tradição própria; e, alguns dos que nasciam de pais religiosos, eram bastardos. Quando ocorriam guerras, os vencidos necessariamente eram despojados de suas terras e de seus deuses, quando não destruídos, pois os vencedores não podiam deixar que os vencidos viessem a venerar seus deuses, segundo a lógica da religião.

Assim, pelo passar do tempo, houve o natural crescimento dos sem-religião, os plebeus, ao lado das cidades greco-romanas, organizadas ao redor de casta sacerdotal e magisterial. Como o direito vinha do culto da religião, os que não a tinham, eram, efetivamente, não-pessoas para os olhos dos pagãos greco-romanos. Não é exagero nenhum dizer que um cidadão romano que matasse um plebeu saía impune. Isso era a lógica da religião greco-romana, que não permitia sequer ao não-iniciados no culto da cidade que testemunhassem e recitassem as leis em tribunais.

É evidente que tal situação era instável. Por isso houveram conflitos amargos entre as monarquias das cidades greco-romanas, que foram recebendo apoio da plebe, e a aristocracia, que detinha os direitos sacerdotais e magisteriais concedidas pela religião. Os monarcas, como Rômulo, Hostílio, Tarquínio e outros, a princípio chefes patriarcais das castas religiosas tribais, queriam seu poder desentravado e por isso foram buscando apoio na plebe que queria ser governada por leis que a religião lha negava.

Mas os monarcas foram por diversas vezes derrotados, seja pela força ou pela aniquilação de seus poderes (exceto os sacedotais). Vendo fracassadas as monarquias, o povo buscou um novo tipo de monarquia para se livrar do julgo das castas municipais e até da sua religião: os tiranos. Estes, Cípselo, Pítaco, Cílon, Polícatres, etc., pela primeira vez na história greco-romana, eram um tipo de magistrado não abençoado pelos auspícios da religião. Era, efetivamente, uma versão curiosa do secularismo dos nossos tempos. Também não prosperou, porque não há governo que se sustente não estando alicerçado em princípios religiosos. Até os plebeus tendiam a abandoná-lo por isso.

Entretanto, algo caiu como uma bomba no seio daquela sociedade pagã: o surgimento do dinheiro. A cunhagem de moedas representou uma revolução profunda. Pois, ao contrário das terras sagradas, que não podiam ser transacionadas, o dinheiro podia passar de mão-em-mão. Por meio dele, lentamente, alguns plebeus empreenderam e lentamente enriqueceram ganhando, naturalmente, prestígio. E, com poder econômico, passaram a mudar a mente das castas que governavam as cidades, daí que surgiram homens como Sólon, da casta dos eupátridas, de Atenas. Sólon mudou o princípio sagrado da indisponibilidade da terra e isso fez com que, pela mobilidade social trazida pelo dinheiro, os eupátridas desaparecessem com o tempo. Ele também fez várias outras reformas, como conceder aos plebeus a cidadania segundo seu poder econômico e tonou o código legal público e permitir que ele fosse invocado pelos plebeus. A noção de que a lei não é uma fórmula sagrada, mas um assentimento majoritário dos cidadãos veio de seu Código.

Ao custo de séculos de convulsões, golpes e guerras civis, a mentalidade pagã conseguiu fazer progressos e se aproximar um pouco do muito superior código mosaico. Mas, verdadeiramente, o que vemos é uma evolução lenta através dos séculos, cheia ainda de princípios abomináveis, embora com a adoção de determinados princípios interessantes, que, diga-se, representavam a exata negação da tradicional religião do fogo sagrado (sendo possível, no caso dos pagãos, pela adoção de outros deuses e cultos). Em contraste, temos a mosaica, que apareceu de repente, com princípios que os outros povos simplesmente não conheciam, e sob a qual, Israel,  foi julgada no decorrer de sua história nos termos “… e fez o que era bom (ou mal) aos olhos do Senhor.” Por isso os ateus, os humanistas e os secularistas que insistem em dizer que a Religião Verdadeira foi invenção de homens, simplesmente não sabem o que dizem, não estudam e não lêem; não passam de propagandistas mentirosos e inventores de péssimos slogans. Nada mais.

A evolução dos romanos foi particularmente emocionante, e ainda mais lenta.

Sérvio Túlio foi o rei que, em oposição ao patriciado romano, instituiu reformas que beneficiaram os plebeus. Ele permitiu que os plebeus fossem regidos por leis que regulavam as transações entre eles e os patrícios. Também concedeu-lhes deuses Lares, que emulavam os deuses familiares patrícios. Seguindo a transformação que a cunhagem de moedas tinha imposto, Sérvio definiu a divisão de castas romanas, que eram em função do nascimento, segundo a riqueza. Essa divisão se refletiu nas centúrias do exército. Dessa feita, os plebeus poderiam lutar ombro a ombro com os patrícios.

Entretanto Sérvio foi assassinado e seu sucessor Tarquínio foi expulso. Os patrícios, novamente providos de poder, revogaram a reforma iniciada por ele e reinstituíram o antigo estado previsto pela sua religião. Os patrícios até tentaram dar aos plebeus alguns direitos através da clientela (um tipo antigo de servidão hereditária, que concedia, ao servo, direitos na pessoa de seu senhor). Mas isso era absolutamente inaceitável.

Amargurados, os plebeus simplesmente se cansaram e se retiraram de Roma.

Isso colocou os romanos em uma situação delicada. Roma, na época, era cercada de inimigos: os sabinos, os etruscos e os latinos. E os plebeus eram parte integrante do exército, sendo, alguns deles, distintos soldados. Na verdade, segundo o historiador Fustel de Coulanges, “A Cidade Antiga,” livro que uso para fundamentar este artigo, Roma perdeu metade do contigente militar com essa retirada plebéia.

Por outro lado, os plebeus, que se retiraram ao Monte Sagrado, ficaram sem seus deuses. Sem religião, não há, exceto por um simulacro, meios de se criar uma sociedade. Não há e nunca houve sociedade arreligiosa duradoura. Assim, voltaram os plebeus e os patrícios acordaram em que os plebeus teriam tribunos eleitos que garantiriam a inviolabilidade de alguns plebeus. Esses tribunos sagrados, eram invioláveis por uma fórmula da religião patrícia.

Lentamente esses tribunos cresceram em poder e influência, especialmente pela sua condição de invioláveis. Eles estabeleceram assembléias que governavam os plebeus por plesbicito e essas assembléias influenciaram o exército nas suas próprias assembléias centuriais, onde os plebeus e patrícios se reuniam sem entraves pela religião. Aos poucos esses tribunos foram crescendo também no seio do Senado Romano, e quando, finalmente, os plebeus ricos que conviviam com o patriciado, lograram uma mudança de mente nos patrícios, propuseram a adoção de um código comum, que regeria a ambos. Os patrícios concordaram e redigiram um código comum.

O próximo passo seria a permissão do casamento misto, pelo que também foi alcançado. Uma vez que os costumes romanos haviam mudado, não havia mais uma resistência mental que pudesse impedir essa mudança. Depois os plebeus conseguiram se tornar cônsules e, por último, o sacerdócio patrício. A evolução preconizada por eles de uma certa forma lembra a evolução lenta que se deu aos negros no caso da escravatura. Foi uma evolução social, lenta, com uma mudança operada, sobretudo, nos corações e mentes.

Mas, enfim, uma Religião infinitamente superior viria e destruiria essas superstições que mantiveram cativos na probeza e na ausência de leis os povos pagãos: o Cristianismo. Depois de uma análise da religião greco-romana em comparação com o judeo-Cristianismo, fica claro que somente Deus, o Deus cristão, poderia dar os princípios de igualdade e dignidade que aqueles povos sempre ansearam, mas sua religião errada os impediu de gozar. Está por demais claro agora, porque a Ciência, a Filosofia e a Economia prosperaram na Europa e não na Índia, por exemplo, onde reina uma religião de caráter muito semelhante ao antigo politeísmo greco-romano.

Veja: O Início do Império Romano e o Fim da “Cidade Antiga”

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